O livro Quase Memória do Cony é um ensaio sobre a memória, ao mesmo tempo que é tributo à memória do pai. Já nas primeiras páginas ficamos a conhecer esse homem de energia inesgotável, imprevisível, sonhador e ao mesmo tempo prático, que sempre ensina mostrando. Como o Arcano Louco do Tarô, não existe maneira de prever seu próximo movimento, sua energia é transformadora, caótica até. Mas ao contrário do louco, ele tem uma plateia para suas peripécias, e é o seu filho e narrador da história.
Ler esse livro é conhecer um pouco da história do Rio de Janeiro, do fim do jornalismo clássico e do início dos anos de chumbo. É uma época mais simples, encantada até, e é de encantamento que o autor quer nos falar, talvez o encantamento que as pessoas podem trazer as nossas vidas, e o encantamento que é a própria vida. Lembro que na minha primeira leitura eu fiquei muito emocionado com as descrições envolvendo o pai do narrador, mas nessa segunda leitura, meu coração apertou mesmo foi com a despedida da mãe; ainda assim, é um livro que parte do ponto de vista de filho e que fala do pai, por escolha do autor e não por mero descuido (nisso me lembra a Martha Batalha que começa a contar sobre a empregada da Euridice Gusmao e depois diz, “essa é outra historia”, nos lembrando que narrar é criar limites).
Eu gosto muito desse livrinho, por razões sentimentais principalmente. Eu o li quando tinha uns treze ou quinze anos, em uma das raras vezes que frequentei diariamente a casa de meu avô, que ficava no centro da cidadezinha. Sem lembrar exatamente as circunstâncias, eu passei grande parte da leitura daquele livro jogado no terraço do predinho verde em que ele viveu durante toda a minha vida. Em fevereiro deste ano, no entanto, ele faleceu por causa do Covid 19. O que explica eu tê-lo retomado neste mês que passou.
Esse livro, que se trata de um relato sentimental e amoroso sobre o próprio pai, muito me afeta pois há algum tempo não estou em boas relações com meu próprio pai. Na minha infância, no entanto, eu e meu pai vivemos muitos momentos semelhantes ao do narrador deste livro, como naquele dia em que ele fez uma pipa para mim ou quando ele fez um carrinho de rolimã para não me deixar de fora da nova onda da molecada, sempre da maneira cuidadosa com que ele faz tudo. E em questões mecânicas, engenharias e gambiarras, esse espírito livre que o pai do narrador possui em muito ressoa no meu pai, que manteve em sua casa por muitos anos uma oficina, e um amontoado de coisas da qual só ele compreende a utilidade.
De certa forma a critica de que esse livro é de “homem admirando homens” faz sentido, uma vez que a sociedade em que o narrador cresceu e mais ainda, o pai do narrador, é uma sociedade machista e conservadora estruturalmente. A reparação histórica, em relação ao que o autor escreveu, está, na minha opinião, em ser direto, dar nome aos bois com relação à ditadura, e em pintar seu pai como humano e nada mais que isso; eu tive problemas em aceitar os casos extraconjugais do pai do narrador, mas não posso dizer que me surpreendi — não há vestígios de hipocrisia, aquela era a sociedade daquela época (hoje mudou muito pouco, mas ainda existe uma tentativa de esconder ao passo que naquela época não).
A leitura desse livro, finalmente, cria uma ponte com meu avô, pai de minha mãe, e também pai de todos nós que vivíamos por lá, o único avô com quem convivemos de perto. Ainda que ele fosse reservado e nem um pouco dado a performances públicas, ele sempre se fez presente, e foi ele mesmo um filho que cuidou do próprio pai até o fim. O autor, com sua habilidade formidável de contar histórias, nunca perdendo naquilo que ela tem de essencial, foi um dos lumes na minha infância e que me fizeram ver logo cedo do que a literatura é capaz de fazer. Hoje, mais uma vez, o autor me mostra como a literatura pode dar alívio e senso de perspectiva em relação à dor da perda, do luto e do sofrimento.