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O Labirinto da Saudade

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Somos, enfim, quem sempre quisémos ser. E todavia, não estando já na África, nem na Europa, onde nunca seremos o que sonhámos, emigrámos todos, colectivamente, para Timor. É lá que brilha, segundo a nova ideologia nacional veiculada noite e dia pela nossa televisão, o último raio do império que durante séculos nos deu a ilusão de estarmos no centro do mundo. E, se calhar, é verdade.

184 pages, Paperback

First published January 1, 1978

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About the author

Eduardo Lourenço

109 books66 followers
Oriundo de uma pequena aldeia da Beira Interior, era o mais velho dos sete filhos de Abílio de Faria, capitão de Infantaria, e de Maria de Jesus Lourenço. Mudou-se para a Guarda em 1932, e ingressou no Colégio Militar, em 1934, um ano depois do pai partir para Nampula, em Moçambique.
Em 1940, já em Coimbra, encontrou um ambiente mais aberto e propício a uma reflexão cultural que sempre haveria de prosseguir. Obtém a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas em 1946. Torna-se assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, entre 1947 e 1953, colaborando com Joaquim de Carvalho. É nesse período que publica o seu primeiro livro, Heterodoxias (1949), que reúne uma parte da sua tese de licenciatura, O Sentido da Dialéctica no Idealismo Absoluto. Colaborou também no Diário de Coimbra, publicando as Crónicas Heterodoxas.
Em 1949 realiza um estágio na Universidade de Bordéus 2, com uma bolsa do Programa Fulbright. Leitor de Cultura Portuguesa, entre 1953 e 1955, nas universidades de Hamburgo e Heidelberg, exerce a mesma actividade na Universidade de Montpellier, de 1956 a 1958. Casa-se com Annie Salamon, em Dinard, em 1954. Após um ano passado na Universidade Federal da Bahia, como professor convidado de Filosofia, passou a viver em França, em 1960.
Fixou residência em Vence, em 1965. Foi leitor na Universidade de Grenoble, de 1960 a 1965, e maître assistant na Universidade de Nice, até 1987, onde passou a maître de conferences, em 1986. Tornou-se professor jubilado em Nice, em 1988.
Em 1989 assume funções como conselheiro cultural junto da Embaixada Portuguesa em Roma, até 1991. Desde 1999 ocupa o cargo de administrador (não executivo) da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Faleceu a 1 de Dezembro de 2020.

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Displaying 1 - 22 of 22 reviews
Profile Image for Owlseyes .
1,808 reviews308 followers
February 18, 2026
UPDATE


Gone at 97
https://www.publico.pt/2020/12/01/cul...
https://www.publico.pt/morreu-eduardo...

“Never imagined being actor of myself”

I read bits and pieces by him many years ago. Now, there's a documentary on him. He's 95.






https://www.comunidadeculturaearte.co...

(A fair translation of the title of the book would be: The Sorrow Labyrinth, Mythical Psychoanalysis of the Portuguese Destiny)

If you had nurtured any fancy or admiration for the grandiose of Portugal's past, you'll get disappointed reading this book.

Portugal's past is full of myths and traumas. Yes, Lourenço is a 'shatterer' of (Portuguese) dreams and fancies. Starting with the "traumatic" creation of Portugal through the crumbling of the Empire, slavery etc.

It seems there's something wrong about the Portuguese mentality. The philosopher became the 'diagnostician', a sort of mixed figure between the psychologist (or anthropologist?) and the psychoanalyst. You'll start to wonder about the viability of a little Portugal, the contradictions between the inner mental world and the outer accomplishments.

Is he a pessimist? or a realist? He wrote this book abroad, though not being an exile. Lourenço urged for the need of a "psychoanalysis of OUR GLOBAL BEHAVIOR".

Don't give up. But...

Sir Lourenço,

Old myths die hard. Take the case of the Portuguese president (of the Republic) last 11th of June in Boston and Providence (USA). No pessimism, at all. Rather, a "we're the best of the world" , grandiose rhetoric; even portuguese exceptionalism.*
Are we, really?


"O novo e minúsculo Portugal que somos agora não decidirá sozinho da forma de vida e destino que serão os seus nos alvores de um século de fábula...."**.



("We don't have to live constantly as if in a collective Ronaldo, in one 'we're the best of the world'.
Interview in Publico newspaper 31st July, 2017)

Well, despite all the traumas and complexes and myths Lourenço identified, there's something positive about the Portuguese. I've heard him, a few days ago, commenting, inside the Jeronimos Monastery, about the nightly activities of two great (somehow antagonist?) poets buried there: Pessoa and Camões; "they exchange poems" (overnight) Lourenço jokingly said. At least, from a literary viewpoint Portugal has had its geniuses. They're still alive, somehow....

Maybe we hadn't had so many great philosophers***;... Yet, for the moment, we've been good kicking the ball.


*“Nós não fomos só os melhores quando atravessámos os oceanos, quando chegámos a outros continentes, quando criámos comunidades por todo o mundo. Nós hoje somos os melhores nas artes, na ciência, nas empresas, no trabalho, temos o maior futebolista do mundo”/
“Somos assim em todo o mundo, onde chegamos somos melhores”/
("We were the best not only when we crossed the oceans, when we arrived to other continents, when we started communities all over the world. Today we're the best in arts, in science, in corporations, in labor, we've got the best soccer player in the world"/ "We are so everywhere, we're the best wherever we arrive to")

in: https://www.publico.pt/2018/06/11/pol...

**("The new and minuscule Portugal, we are, won't decide by itself about its type of life and destiny as the fable century dawns").

***“A Filosofia Portuguesa oferece de nós mesmos a mais articulada contra-imagem cultural do tipo místico-nacionalista que se conhece”

UPDATE: a "collective Ronaldo" is back; a bad symptom? ...it started some days ago,...maybe in Vegas.
Profile Image for diario_de_um_leitor_pjv .
801 reviews151 followers
May 13, 2022
Depois de um leitura fantástica e de aprendizagem em 2005 estou a reler em 2022 no âmbito da iniciativa #guardalivros promovida pelos João Barradas @2bejay

***
(comentário a 12/05/2022)
Este livro merece toda a atenção que podermos dar. Merece ser lido.

Desta feita foi uma releitura. Uma obra a que vale sempre a pena voltar. Poucos pensaram este país como Eduardo Lourenço.

Uma leitura feita no âmbito da iniciativa #guardalivros promovida pelo @2bejay.

Deixem-me só partilhar este pedaço sobre a Guerra Colonial e a construção da memória em torno da mesma.

"Treze anos de guerra colonial, derrocada abrupta desse Império, pareciam acontecimentos destinados não só a criar na nossa consciência um traumatismo profundo - análogo ao da perda da independência - mas a um repensamento em profundidade da totalidade da nossa imagem perante nós mesmos e no espelho do mundo. Contudo, todos nós assistimos a este espectáculo surpreendente: nem uma nem outra coisa tiveram lugar. É possível que a profundidades hoje ainda não perceptíveis supure uma ferida que à simples vista ninguém apercebeu. "
Profile Image for tiago..
474 reviews132 followers
January 14, 2021
A admirável coleção de ensaios que compõe O Labirinto da Saudade parece, no seu conjunto, querer instigar no leitor uma pergunta: que Portugal futuro ansiamos? Com efeito, o que Eduardo Lourenço mais parece desejar dos leitores deste livro não é tanto que entremos na sua visão específica daquilo que é o país, mas que questionemos o mito que nos foi implantado como uma segunda natureza, esse mito do país épico, conquistador e colonizador de novos mundos, líder de uma nova ordem mundial.

Eduardo Lourenço principia por uma análise (brilhante) da sequência de eventos que nos trouxe a este modo tão sui generis de olhar a nossa nação, explorando "traumatismos históricos" e textos literários definidores da nossa identidade. É a partir desta base que prossegue para uma crítica focada em alguns aspetos dessa mesma identidade, onde vê a origem de muitos dos males da nação: A nossa crise provém de uma má leitura de nós mesmos e acaso de um excesso de complacência para com tudo quanto é dos outros. Querer ser português é pouco para os portugueses. Entre estes aspetos, analisa o imperialismo e colonialismo na mentalidade nacional (muito associados a uma reivindicação de Camões como arauto da consciência nacional), a nossa veia auto-depreciativa, ou a nossa tendência para viver acima das nossas possibilidades, entre outros temas. A moral da história não é uma visão particular daquilo que tem que ser Portugal, afastados todos estes mitos, mas um convite:
Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal.
Nem sempre é fácil navegar as águas desta inteligentíssima crítica da nossa identidade, reconheço-o, nem a todos será agradável a desconstrução da nossa história glorificada que Lourenço empreende; mas quer se concorde ou discorde com cada ponto que ele faz, não pode deixar de se considerar, numa indagação da identidade portuguesa, a forma disruptora como Eduardo Lourenço a optou por abordar neste livro.
Profile Image for José Simões.
Author 1 book52 followers
January 15, 2021
Nem sempre é fácil acompanhar a escrita-pensamento de Eduardo Lourenço, tal como nem sempre é fácil concordar com tudo o que afirma ou questiona, mas é imensamente prazenteiro acompanhar o Professor nesta caminhada pela interrogação de Portugal.
Profile Image for Daniela Rosas.
291 reviews18 followers
January 11, 2021
"O Labirinto da Saudade" é um conjunto de 9 ensaios, que anteriormente à publicação do livro já tinham sido apresentados em revistas, jornais ou conferências. Mais tarde Eduardo Lourenço decide juntar tudo e publicar esta obra.
A maioria dos textos foram expostos em torno da Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974), alguns escritos antes, outros depois, mas a sua maioria crítica o antigo regime.
Nesta obra vamos encontrar um Eduardo Lourenço que retrata Portugal como "Indivíduo" único, mas o principal e mais importante nestes ensaios é que o autor revela a imagem do ser português.
Para mim os ensaios mais importantes são o Primeiro "Psicanálise Mítica do destino português", onde o autor retrata a questão da identidade, a obsessão dos portugueses pelo passado e a esperança messiânica de um futuro melhor. Para o fazer ele divide este ensaio em três Traumatismos, ou seja, momentos históricos que influenciaram a política e a sociedade portuguesa. Estes traumatismos são a formação de portugal; o domínio filipino e o Ultimatum Inglês de 1890.
Um outro ensaio também muito importante e aquele que mais gostei foi o terceiro "Da Literatura como Interpretação de Portugal", aqui o autor assinala cinco momentos relevantes, induzidos pelas gerações mais marcantes do século XIX e princípios do século XX, concentrando-se em Almeida Garrett e em Fernando Pessoa.

Este livro, sendo uma leitura obrigatória para a faculdade, foi um desafio. Quando escolhi esta obra não sabia o que iria encontrar, nem sequer conhecia o autor, mas depois de ler as sinopses dos diferentes livros da lista e de ter lido um excerto achei que seria a leitura mais interessante para a ficha de leitura.
A verdade é que a escolha foi bem feita. O livro é ótimo, faz-nos pensar bastante, mas o mais importante é que com a leitura destes ensaios percebemos a importância dos diferentes acontecimentos históricos na literatura portuguesa. O autor não só compara a literatura portuguesa com o momento político-social de cada época, como também faz uma breve comparação da sociedade portuguesa com a sociedade europeia.
Não é um livro fácil, nem uma leitura de lazer, ou seja, não aconselharia qualquer pessoa a ler esta obra. Agora, se tiverem interesse nestes temas e quiserem ter a perspetiva de um grande filósofo e historiador português sobre a sociedade e a literatura, então esta será uma excelente leitura.

A minha classificação não poderia deixar de ser boa, 4 estrelas.

A Vossa Gothic Clare
Profile Image for Sara Jesus.
1,707 reviews125 followers
June 22, 2018
Eduardo Lourenço é um grande ensaísta português.Suas obras não são de leitura fácil, mas nos fazem passar. Esta obra em questão fala de Portugal: a sua Cultura, a sua História, os seus grandes Escritores (Camões, Pessoa, Antero Quental, Eça de Queirós, Fernando Namora, Garret....)

Mas não representa só um elogia a nossa nação, é também uma reflexão de um tempo glorioso que já não volta. De um "mito" que parece que está morto. De um Portugal que perdeu um pouco sua glória depois dos Descobrimentos.

"O labirinto da saudade" não é um livro que aconselho para todos, pois nem todos conseguiram desvendas as encruzilhadas deste ensaio. Nem eu sei se consegui desvendar todas! Aconselho para quem procura um livro que aborde temas ligados a literatura e história portuguesa. E também tem de adorar filosofia pois o livro aborda muitos filósofos.
Profile Image for Daniela.
31 reviews37 followers
July 23, 2021
Três estrelas uma vez que a leitura não me deu particular prazer. Não obstante, é, sem dúvida, um retrato exemplar da cultura e mentalidade do povo português. Povo esse em que:
- persiste a "mentalidade de ricos sem vintém" e "todas as camadas da população não apanharão jamais um autocarro quando podem apanhar um táxi"
- a regra do "parecer" é imperativa, sobretudo nas cidades, como em Lisboa. Existe um "comportamento sinistramente ostentatório" e de "afirmação, apenas para o exterior" por parte das classes mais altas e antiga aristocracia. Essa mentalidade desce e "infiltra-se nos interstícios da sociedade portuguesa no seu conjunto como sociedade em perpétua desfasagem entre o que é e o que quer parecer"
- "não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza" - conquanto o povo português seja um povo trabalhador e morto de trabalho. No entanto, "coletiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica análoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho mas era a consagração do afastamento dele"
- a "célebre mentalidade milagreira" se mantém bem como "o nacional grito de pouca sorte com que comentamos desastres que nós próprios elaboramos por inércia ou confiança infinita nas boas disposições da Providência"
12 reviews
August 22, 2019

Em O Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço colige onze ensaios sobre cultura e literatura portuguesas, esclarecendo, desde o seu ponto de vista, a forma como mutuamente uma e outra se influenciaram. Tem-se em atenção os variados contextos políticos sob os quais Portugal (e o antigo império) ora se edificou, ora se desmoronou, sendo que foi a par desses contextos que se desencadearam movimentos literários e, mais do que movimentos, Autores.

Os onze ensaios, que optamos por não avaliar individualmente – por acreditarmos que neste caso estamos perante ensaios que se sucedem e que não devem ser considerados apenas dessa forma – estão extremamente bem escritos, disso não há dúvida – ainda que por vezes as frases devessem ser mais pequenas e menos parentéticas, não só para permitirem um encadeamento mais claro das ideias, como também para não darem lugar a pequenas incursões um pouco prolixas. No entanto, julgamos que, defendendo-se a ideia de que a identidade nacional portuguesa – o grande problema tratado neste volume é este – não é propriamente sólida e vive muito daquilo que «era o termos sido», de «mitos» e «milagres» religiosos, não é justo partir para generalizações ardilosas como «(…) nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe…», não só porque isto não diz nada acerca de solidez e muito menos corresponde àquilo que é a realidade do povo português. Como esta, há outras.

Por outro lado - notoriamente bom - a escrita de Eduardo Lourenço não acontece, definitivamente, para com ela se concordar. Pelo contrário, convida muito ao debate, sendo questionável num bom sentido. Recomendo O Labirinto da Saudade, mas não é genial. Fico com a impressão que é obra a ser relida.

863 reviews
December 8, 2020
Ler este volume, composto por pequenos textos que foram sendo publicados ao longo dos anos por Eduardo Lourenço, é um desafio. Somos interpelados constantemente. Será que o que conhecemos da cultura e da identidade portuguesas não são apenas construções de um pequeno país que teve um império envergonhado até que foi desafiado e foi necessário mostrar que ele era seu por direito e fazia parte do se ser? E era mesmo seu, ou foi seu tomado a quem desde sempre lá se encontrava?
Afinal, tudo é uma construção, ensina Eduardo Lourenço, e agora que voltamos ao rectângulo, há que ultrapassar o trauma e construir mais um pedaço de identidade. Parece-me, contudo, que Eduardo Lourenço se já a tornar também um mito cultural, inquestionável e eterno, exactamente o que tanto criticou.
Nós, os seus leitores, temos que o livrar de ser mito, lê-lo e discuti-lo. A historiografia mais recente tem trazido argumentos para a discussão, assim como a criação literária. Eduardo Lourenço não morreu.
42 reviews1 follower
October 28, 2025
Ao contrário dos espanhóis, os portugueses não querem tanto definir o que é ser português, mas antes com a sua existência e trajetória histórica. Infelizmente, não existe uma imagem reestruturada de todas as imagens de Portugal.
O obra de Eduardo Lourenço decresce em qualidade na sua segunda metade, em particular por não detalhar com profundidade aceitável a realidade sócio económica portuguesa.
Profile Image for Hugo.
11 reviews4 followers
October 2, 2017
Este livro de Eduardo Lourenço coloca Portugal no divã. Foco da terapia, é alvo dos ensaios escritos desde os anos 60 e aqui reunidos. O que são os portugueses e Portugal à luz do estudo da história e da literatura? Julgo ser esta a pergunta colocada.

O exame da literatura portuguesa em geral e a dos modernos em particular ganha destaque sendo que Camões e Gil Vicente, pelo peso da sua obra, também o foram.

Eduardo Lourenço afirma que através da exegese literária se dá um discurso crítico sobre as imagens que os portugueses têm forjado: há como que um argumento circular neste exame visto que somos o que somos porque se afirma nos livros que o somos. Perante este circuito fechado temos um «continuum» por analisar fruto da ausência de traumas na sociedade portuguesa. Esta carência de fenómenos traumáticos não permite arrancar as máscaras que cobrem o verdadeiro rosto português. Mais ainda, pelo desenrolar dos eventos a que os portugueses estão ligados (os descobrimentos, por exemplo) a sua narrativa afigura-se mais que humana tendo uma trama divina que também a sustenta, valida e engrandece; se assim é, torna-se necessário que se compreenda o português através de um amparo divino considerando que há uma real inferiorização dos mesmos. Ou seja, o português agarra-se ao divino para não observar o quão pequeno é. Estamos na presença de um desfasamento entre a realidade e o que se quer ver e ser.

Para ilustrar simultaneamente a “grandeza” e a “pequenez” de Portugal, Eduardo Lourenço examina o que de maior se faz sentir em Portugal: os descobrimentos. Ora, na única oportunidade de Portugal ser “grande” foi fora de si, no Brasil, em Angola ou Moçambique. Portugal é o ter sido. Noutra época, noutro lugar.

O “ter sido” aumenta a distância entre a mitologia grandiosa e a realidade presente. Surge, na segunda e terceira repúblicas, então, o patriotismo como fenómeno mitigador deste desequilíbrio. Mais ainda, este patriotismo míope e, consequentemente, o não reconhecimento do trauma fez com que, amputados das ex-colónias, se fizesse como se nada fosse tendo possuído sem possuir perdendo sem perder.

Segundo Eduardo Lourenço, esta ferida aberta não reconhecida pode ser tratada através da confrontação com o coletivo. Mas isso implica coragem, qualidade pouco abundante nos portugueses: entre uma reflexão de confronto e uma análise terapêutica optou-se pela apatia e timidez fruto da crença enraizada e na necessidade do divino como até então. Será oficial que, despotenciados, os portugueses são fantoches de propósitos maduramente pensados.

O ensaísta sublinha que a mitologia divina, patriótica e nacionalista é substituída, ainda que parcialmente, pela revolucionária no 25 de abril visto que “nenhum povo pode viver sem uma imagem positiva de si”. Introduziram-se as reconquistas sociais como fazedores de um novo mito.

Chegados aqui observamos: de um mito surge outro. Esclarece-se que há a necessidade do mito em Portugal. Esse é, por assim dizer, um desígnio. Portugal é fruto do mito e não o contrário. O mito é, afinal, a metalinguagem onde todos os discursos se inscrevem. Essa metalinguagem fornece ferramentas à “imagem de um povo” criando defesas para este reagir a agressões contra a sua identidade sendo, só e apenas, crenças. A reposta defensiva é a dissonância cognitiva que permite a existência de alguma autoestima nacional.

Mas como é que o discurso formal se integra no dos cidadãos? Sobrepõe-se ou erode-se? Pelas conversas de cafés onde a autoagressão é notória, é gritante a pequenez daqueles onde entre uma reserva e modéstia socialmente aceites e o desejo individual da exibição se afogam numa dicotomia patológica. A ausência de diálogo, de troca e de confrontação separa a necessidade do bem-estar coletivo e o do individual, que terceirizando as responsabilidades, se volta a enterrar no grupo despotenciado, apático e tímido.

Este conjunto de nove ensaios de Eduardo Lourenço é trabalho de análise detalhada e, sempre, incompleta: o autor examina a literatura. Fernando Gil optou pela política e comunicação social.

Hajam mais obras de “terapeutas” deste calibre.
Profile Image for Paulo Neves.
Author 22 books10 followers
July 16, 2018
“Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós. Os Portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe...”

Não sou muito dado ao género ensaísta, o qual aprecio mas que perde face à ficção ou romance na hora da minha decisão. No entanto por mera curiosidade folheei este conjunto de ensaios de Eduardo Lourenço sob o nome de “O Labirinto da Saudade” e, embora um pouco abismado pela profundidade de conhecimento e cultura que perpassa nos seus ensaios, cativou-me sobremaneira os ensaios mais superficiais (força de expressão) intitulados “Repensar Portugal” e “Somos um povo de pobres com mentalidade de ricos”. Vale a pena ler. Fica-se com uma perspectiva interessante sobre aquilo que somos. Embora um pouco datado (foi escrito em 1978), continua relativamente actual. Fica aqui mais um pouco:

“Costuma dizer-se que Portugal é um país tradicionalista. Nada mais falso. A continuidade opera-se ou salvaguarda-se pela inércia ou instinto de conservação social, entre nós como em toda a parte, mas a tradição não é essa continuidade, é a assumpção inovadora do adquirido, o diálogo ou combate no interior dos seus muros, sobretudo uma filiação interior criadora, fenómeno entre todos raro e insólito na cultura portuguesa. É a inserção do alígeno ou alógeno no processo da produção nacional que constitui a norma e institui o seu autor no papel de criador que nós entendemos sempre como invenção do mundo a partir de nada. Do nada que nos anteceda.”
Profile Image for Catarina.
35 reviews8 followers
January 15, 2024
Queria compreender mais profundamente a essência de se ser português e, por isso li este livro. Interessou-me, por exemplo, a reflexão sobre a ordem de acontecimentos que definiram e transformaram a imagem de Portugal (sobretudo atendendendo à forma como têm vindo a ser transmitidos).
Os textos de Eduardo Lourenço, neste livro, mostram-nos o quão labiríntico e paradoxal é o percurso de Portugal, tal como é tratado pelos historiadores e escritores lusos. Mas também o quão possível se torna decifrar a nossa identidade, se esse percurso for desmistificado e analisado com lucidez.
Muitos dos acontecimentos e referências históricas e literárias, eu desconhecia. Assim, os textos d'O Labirinto da Saudade vieram a revelar-se um ponto de partida mais que válido para uma tentativa de autognose e nova aventura de me descobrir enquanto portuguesa...
56 reviews1 follower
September 13, 2025
Quem fomos, o que somos e o que seremos. Um livro de Eduardo Lourenço de 1978 mas tão atual.
Não é de leitura fácil, como é normal numa obra filosófica e apenas não lhe dei a avaliação máxima, porque me parece que o livro ficou sem fim.
Infelizmente continuamos à espera que o Salvador surgirá, num dia de nevoeiro quando ele próprio não se salvou.
O futuro e o presente é de quem não conhece a história e que caminhará de certeza, no caminho da perdição.
452 reviews3 followers
November 11, 2020
Um livro que para o entender, analisar e reflectir implica conhecimento aprofundado da literatura clássica portuguesa, seus autores e obras mais marcantes; sem descurar as correntes filosóficas europeias - para além da escrita que não é amiga do leitor (nao é fácil seguir a linha de pensamento).
Implica reflexão acadêmica e releitura.
Livro pouco acessível e prazeroso em ler por isso dou as 2*, não pela sua importância e qualidade ensaísta.
Para mim o ensaio mais prazeroso de ler e de destaque (aonde ainda hoje revejo o nosso Portugal): "Somos um povo de pobres com mentalidade de ricos".
Profile Image for Villllllla.
62 reviews1 follower
January 8, 2025
Pretencioso e sem grande coisa a adicionar. Idólatra do Sérgio, simplista no que toca à filosofia portuguesa. O que não nos falta são filósofos portugueses que não entendem nada dela. Nem sabem o que esta pode ser por estarem presos a sistemas altamente materialistas e básicos, que por uma questão de forma conseguem "andar à roda" dos mesmos assuntos sem dizer muita coisa, ou pelo menos de substância. Mais um pensador de regime, com uma "visão crítica" que não entende sequer o que é o mito, qual o seu poder, etc. Depois, tudo o que for positivismo é visto como dogma...
É de fugir.
Profile Image for Inês Lourenço.
39 reviews
July 17, 2023
O início consegue ser descomplicado para o mero e comum leitor, explicando a origem quase genética da essência do povo português. Alguns capítulos mais tarde, o conteúdo é clara e contidamente mais académico, o que torna a leitura em parte mais pesada para quem não está tao habituado.
Contudo, gosto da descrição encorpada e densa, que me faz lembrar uma prosa digna de ser narrada em alta voz.
Profile Image for José Alberto Silva.
67 reviews
April 24, 2023
Uma das leituras mais duras que tive, principalmente por falta de conhecimento da literatura portuguesa mencionada, que só me deixava perdido. Talvez volte aqui um dia, e talvez avalie melhor o livro :/
Profile Image for Gabriel Franklin.
504 reviews30 followers
November 13, 2023
"Estranho «império» terá sido o nosso, e mais estranho povo para que, tendo, de súbito, parecido ter perdido a alma da sua alma, pareça sobretudo ter ficado chocado com a invasão-enxurrada das pedras vivas dessa imperialidade, amontoadas ao acaso no Aeroporto da Portela."
15 reviews
January 4, 2023
Fui muitas vezes ao Priberam e li três vezes muitas frases, mas vale sempre ler quem reflete sobre Portugal.
Displaying 1 - 22 of 22 reviews

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