Algumas das mais fascinantes viagens pelo mundo da bíblia podem ser encontradas em enciclopédias bíblicas, comentários e mapas sobre o assunto. Mas nenhum deles, ou muito raros, são os que buscam as bases científicas de um dos maiores de seus acontecimentos: o êxodo.
Escrito por Colin Humphreys, um eminente físico britânico, Os Milagres do Êxodo emprega a física, a astronomia, a biologia juntamente com outros recursos científicos para mostrar que os mistérios e milagres descritos no livro de Êxodo possuem todos eles, elementos naturais, muito mais possíveis de ocorrer que quaisquer explicações ou soluções mágicas. Elaborado como uma trama detetivesca, o autor proporciona uma verdadeira viagem pelos sítios arqueológicos do Êxodo, revelando lugares e expondo soluções para eventos chaves da saga bíblica.
A primeira parte começa, por exemplo, descrevendo um dos grandes milagres ocorridos na chegada dos hebreus ao fim de sua longa jornada pelo deserto, a travessia do Jordão. Humphreys relaciona esta travessia com a mais famosa travessia (a do Mar Vermelho) e a explica trazendo para análise pistas sugeridas pelo texto, bem como os conhecimentos historiográficos modernos elucidando o que teria causado o fenômeno. Nela, ele faz uma busca para localizar a cidade daquele evento encaixando a descrição do texto bíblico, fazendo uso de livros, mapas e léxicos em uma investigação minuciosa e instrutiva.
Em seguida, Humphreys leva o leitor a um dos mais abrangentes estudos sobre os anos obscuros de Moisés, a sua estadia em Midiã, lançando luzes sobre sua fuga do Egito, vinculando às rotas de comércio documentadas nos livros topográficos (que segundo o autor, Moisés provavelmente tinha conhecimento), e como isso se relaciona com a peregrinação posterior com o povo pelo deserto até dar no Sinai. Ele menciona as bases científicas da sarça ardente e como as modernas compreensões do Sinai se encaixam nas definições de um vulcão em erupção. A pesquisa sobre as rotas de comércio também possibilitam conhecer todos os lugares da trajetória tomada por Moisés até chegar Midiã, trazendo a baila nomes de lugares e cidades antigas para os termos modernos e atuais, bem como as relaciona aos pontos onde se encontrava água potável, disponível aos comerciantes e viajantes de então.
As dez pragas que caíram sobre o Egito também são elucidadas tomando por base os modernos conhecimentos científicos. Uma das partes mais interessantes é a sua solução elaborada para a morte dos primogênitos (também explicada em termos naturais), cuja maior parte dos pesquisadores bíblicos rara ou dificilmente consegue explicar. O capítulo que trata do número de pessoas do êxodo é bastante importante para desfazer mitos das traduções e uma das pouquíssimas explicações sobre o tema, disponíveis em língua portuguesa.
A quarta parte se debruça sobre o itinerário do êxodo até chegar no Sinai (não o tradicional, como se postula). Humphreys resgata a trajetória dos hebreus lançando mão não só de mapas e comentários bíblicos, mas com o conhecimento do clima e topografia da região, o que o leva em outra direção, diferente do Sinai tradicional. Todas as pegadas o levam a uma rota distinta da conhecida, cujo foco acaba dando num Sinai vulcânico, elaborado mais tarde, e com detalhes pormenorizados, pelo autor. Essa explicação é interessantemente entrelaçada com as explicações naturais da coluna de fogo a noite uma coluna de fumaça de dia que os guiava, uma clara alusão as explosões vulcânicas que teriam guiado o povo. Um capítulo à parte sobre a estratégia do Faraó e a resposta de Moisés também localiza o Mar Vermelho e sua travessia, novamente, em termos naturais, fazendo o leitor imaginar o texto bíblico mais natural e humanamente possível.
Por fim a última parte localiza o monte Sinai de acordo com a rota traçada no livro, elucidando, entre outras coisas, a narrativa da água que saía da rocha, bem como a história das codornizes fazendo uso de conhecimentos climáticos e obras de referência sobre vulcões, dando forma a um argumento forte e coeso de que a descrição do Sinai não é nada mais do que um vulcão em erupção. Sem dúvida alguma, um dos grandes livros sobre o êxodo e, sem exagero, merece uma maior atenção do público interessado nestes temas.