E se um sem-abrigo for a fusão de Deus e do Homem? Esta é a história comovente de Henrique.
A casa de Henrique é a Natureza. Henrique é um sem-abrigo de corpo, mas a sua alma guarda a única realidade que aceita e lhe chega através de uma entidade superior. «E se eu fosse Deus?», pergunta. O autor percorre as ruas de Lisboa com Henrique, que lhe mostra as histórias de outros sem-abrigo e um submundo perturbante. A prostituição, a droga, a dor, a loucura, a violência, mesmo o suicídio fazem parte deste submundo, que a maioria de nós tende a ignorar. E se Deus estivesse, como um sopro, em cada um destes rostos de sofrimento? E se a beleza se esconder onde menos esperamos? Este é um romance baseado em testemunhos e factos reais. Por vezes, o duro dia-a-dia supera qualquer ficção.
Fernando Correia. Jornalista, comentador de rádio e televisão, professor, nasceu em 1935 e dividiu a sua infância entre a Mouraria, o Alto de Santo Amaro e São Domingos de Benfica. Entrou para a Emissora Nacional em 1958. Trabalhou depois na RDP, Rádio Clube Português, Rádio Comercial e TSF. Foi diretor do Diário Desportivo, redator e colaborador dos jornais Record, A Capital, O Diário, Gazeta dos Desportos, Jornal de Notícias e Diário Popular. Atualmente, colabora na Rádio Amália e é comentador residente da TVI. Sportinguista assumido, colabora também com a Sporting TV, depois de ter sido diretor-adjunto e diretor do jornal do clube.
“E Se Eu Fosse Deus?” é a história do encontro de Fernando Correia, jornalista, com Henrique, um homem que “tem uma casa grande, enorme, a perder de vista. O seu tecto é o céu. O calor que lhe chega vem do sol (…). O soalho é, na maioria das vezes, de erva e pedra.” Ao longo do livro, Henrique vai encetar um diálogo com o narrador que, mais do que levá-lo a visitar os “bas fond” da cidade, o obrigará a mergulhar no mais profundo de si mesmo, à procura da resposta a essa pergunta enigmática: “E se eu fosse Deus?”. De Monsanto à Gare do Oriente, do Rossio a Pina Manique, ambos irão viver as histórias de Palmira, de Natália do Casalinho, do Dr. Magalhães, de Maria Madalena, do “homem do futebol”, de Miss Lizzy, de Maria das Dores, de Carla com o seu bebé, do Ti Chico e de muitos outros, anónimos e desprotegidos, onde se descobre tanto de humanismo e dignidade como de uma forte vergonha em não se quererem mostrar e de uma raiva ainda mais forte contra os que mandam e não têm vergonha.
Crónica duma actualidade premente, “E Se Eu Fosse Deus?” pode ser visto como um manifesto filosófico onde, no limite, a rua é sinónimo de liberdade. Sem-abrigo por opção, em nome da própria liberdade, Henrique sabe de antemão que não pode ser Deus, mas sabe o que faria e como actuaria se fosse Deus! Transitando entre a verdade do livro e a verdade de todos e de cada um, esta é uma história que convida o leitor a encontrar respostas verdadeiramente transformadoras, fazendo-o olhar em volta e levando-o a uma tomada de consciência dos problemas e da forma de os resolver com a necessária adequação e urgência. E isto não diz respeito apenas ao problema dos sem-abrigo, mas contempla igualmente a droga e o álcool, a exploração de menores, a prostituição feminina e masculina, o desemprego e a fome, a violência doméstica, o abandono dos idosos em lares e muitas outras chagas sociais que alastram nos dias de hoje.
Embora “E Se Eu Fosse Deus?” se defina como um romance, percebe-se no livro uma dimensão que vai muito além disso. A narrativa filia-se no jornalismo de investigação e segue um fio condutor que visa unir as várias histórias, sem contudo renegar a sua identidade. Fernando Correia assume-se, desde o início, como o jornalista que é e, de forma idónea, consegue levar o seu papel até ao fim, num registo realista, ao mesmo tempo acutilante e comovedor. É na verdade com que são identificados e denunciados a miséria e o caos social e moral em torno dos sem-abrigo que reside a grande força deste livro. Um livro escrito com o coração mas que consegue manter a lucidez e o distanciamento necessários para não cair na pieguice ou no moralismo fácil, oferecendo ao leitor um retrato vivo e objectivo duma realidade à qual a maioria prefere virar a cara.
Temos a tendência de olhar para o lado e ignorar um mundo que coexiste com o nosso, um mundo que faz parte do nosso mundo. Fazemo-lo por acomodação à inercia que o despertar para todos os problemas sociais que existem acata. Henrique, um habitante do mundo, cujo “tecto é o céu”, mostra-nos o mundo tão ignorado e olhado desde cima por tantos nós, como se a nossa superioridade fosse verdadeira. Henrique revela-se um ser humano mais culto, sábio, inteligente e cívico que muitos ‘Sr. Dr.s Professores Engenheiros’ com que nos cruzamos ao longo da nossa vida. Pelos olhos da experiência e da vida deste homem, chega-nos a imagem de Lisboa oculta, chegam-nos histórias dentro de outras histórias, chegam-nos derrotas que são mais semelhantes a vitórias, chega-nos a força extraordinária do ser humano, da resiliência inerente de cada um. Uma leitura de lágrima fácil, não porque seja relatada como a tragédia que na realidade é, mas pela simplicidade com que são apresentados os factos e pela capacidade que tem em despertar em nós um turbilhão de dúvidas. Um livro que nos faz pensar mais nos outros, que nos faz olhar para o nosso semelhante e tentar descobrir qual é a história por detrás daquele rosto marcado pela vida, substituindo assim o julgamento imediato que tanto nos caracteriza. Que possamos entender, de uma vez por todas, que somos todos iguais e que só podemos julgar os outros seres humanos quando os nossos sapatos não diferirem nem em uma única marca, dos deles. Que a vida nos ensine a dar e a partilhar com aqueles que partilham o que nada têm.
O livro é muito interessante, não achei super cativante mas é um filme fácil de ler e com histórias muito emocionates. Faz nos pensar sobre de certa forma o que é Deus e se ele pode estar entre nós, deixa nos também emotivos sobre um mundo que não conhecemos mas que se passa pelas ruas. Gostei do livro e recomendo.
4.2⭐️ Vale totalmente a pena ler este livro, que nos narra uma realidade dura e, por vezes, muito distante de nós. A escrita é extremamente cativante. O final? Agridoce.