Antônio Carlos Belchior (1946/2017) foi um cantor e compositor brasileiro. Nascido em Sobral (CE) chegou a morar durante três anos num mosteiro beneditino até descobrir que aquela não era a sua vocação. No entanto os três anos de vida monástica não foram em vão. O jovem Antônio Carlos, leitor voraz e atento, acumulou uma gigantesca bagagem cultural nas inúmeras horas de leituras, debates e meditações tornando-se extremamente conhecedor de história, filosofia, teologia e literatura. Uma vez fora do mosteiro o jovem Antônio Carlos se joga de forma definitiva na opção artística que já lhe era clara desde a vida no mosteiro onde dedilhava, precocemente, um violão para deleite de seus colegas monges. É nesse momento que o jovem Antônio Carlos transfigura-se numa figura que se tornou emblemática na MPB: Belchior.
No início Belchior era apenas mais um na chamada “turma do Ceará” (onde também estavam Ednardo - “pavão misterioso” - e Fagner - “quem me levará sou eu”) que tinham partido nordeste em busca do sucesso no “sul maravilha” mas, gradativamente, ele conseguiu seu espaço.
Não se pode dizer que seus robustos e sofisticados trabalhos vendessem milhões de cópias mas, Belchior, graças à qualidade de suas letras e melodias e ao ar de transgressão e reflexão comportamental e filosófica que delas emanava, arrebanhou uma legião de fãs e de devotos que, hoje em dia após a sua morte, só faz aumentar.
Belchior hoje é reconhecido justamente como autor de clássicos da MPB como a nostálgica “Mucuripe” (em parceria com Fagner e que chegou a ser gravada por Roberto Carlos), as reflexivas e herdeiras do “mantra lennoniano” THE DREAM IS OVER, “Velha Roupa Colorida” e “Como nossos pais” (estas duas últimas também gravadas com grande sucesso por Elis Regina), as românticas “Paralelas” (um dos grandes sucessos da recentemente falecida cantora Vanusa), e “Divina comédia humana” (em que Belchior “convoca” o mestre Olavo Bilac para uma inusitada “parceria” – “Ora direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso, eu vos direi no entanto...”), a prosaica “Medo de avião e a bela homenagem a John Lennon “Comentário acerca de John”.
O livro aborda de forma bem dinâmica a formação de Belchior, suas primeiras aventuras (e desventuras) no “sul maravilha”, sua incrível e visceral rivalidade com Fagner, o feliz contato com Elis Regina que catapultou sua carreira, a influência, assumida desde o início, dos Beatles e de Bob Dylan, a sua ascensão ao sucesso e ao estrelato, as suas companheiras (com destaque para a polêmica Edna, sua última companheira que para muitos ocupa na vida de Belchior o mesmo papel que Yoko Ono ocupou na vida dos Beatles), filhos, a sua misteriosa reclusão a partir de 2007 e a sua inesperada e solitária morte em 2017.
Já li muitas biografias de músicos e, em comparação com elas “Apenas um rapaz latino-americano” não falha em informar o básico mas, acredito que ouve um atropelo no lançamento – o livro foi lançado no mesmo ano da morte do cantor – e ficou um “gosto de quero mais”, ou seja, achei o livro objetivo demais.
O autor – Jotabê Medeiros – já fez melhor, por exemplo, na sua biografia de Raul Seixas mas, trata-se de uma ótima pedida.