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Mike Tyson para Principiantes

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«Esta antologia procura oferecer uma maneira de ler a poesia de Rui Costa, sabendo de antemão que tudo o que pudermos dizer a respeito da sua obra será condicionado por um tom deliberadamente pessoal: afinal, fomos amigos do Rui, companheiros de vida e poesia, e com ele dividimos durante muitos anos os caminhos do lado menos visível das coisas. Por isso, cada um de nós tem os seus pontos de referência nesse mapa de cumplicidades íntimas e as suas antologias pessoais de poemas. [...]

Esclareça-se desde já que o título Mike Tyson para principiantes nos foi fornecido pelo próprio autor — que o utilizou para uma antologia da sua obra que pretendia ver publicada, a cujas versões tivemos acesso. Embora mantenha o título inspirado pela metáfora do pugilismo, o livro que temos em mãos, substancialmente mais extenso, não é a antologia Mike Tyson para Principiantes que o autor organizou; de qualquer modo, também não se trata de uma reunião dos seus poemas completos. O livro resulta da nossa selecção pessoal, democraticamente ponderada, feita a partir dos livros editados em vida, dos dispersos que vieram a lume em revistas literárias e volumes colectivos e dos inéditos que se conservam no espólio que a família mantém. Assinale-se também que, para a escolha e organização dos poemas, nunca perdemos de vista o objectivo de construir um livro inteiramente novo. Ainda assim, tendo acompanhado a sua escrita, achámos por bem respeitar uma constante na composição de todos os seus livros publicados, que foi a divisão em três partes, e orientá-la de uma forma que pudesse aproximar-se de propostas que o próprio deixou esboçadas. [...]»
da Introdução

216 pages, Paperback

First published August 1, 2017

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About the author

Rui Costa

34 books5 followers

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Community Reviews

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3 (4%)
1 star
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Displaying 1 - 12 of 12 reviews
Profile Image for Paula  Abreu Silva.
389 reviews114 followers
September 10, 2019
"BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me «bom dia» mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."
Profile Image for la poesie a fleur de peau.
508 reviews62 followers
June 15, 2021
"Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me «bom dia» mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."

***

"podes querer e podes não querer.
podes fugir. ficar ou não ficar
assim. quieto. esse travo na boca
por dizer. esse gozo secreto
das coisas a gemer lá para o fim."
Profile Image for Clelio Toffoli.
12 reviews7 followers
February 11, 2018
Na falta de seis estrelas dou somente as cinco permitidas pelo Goodreads a esse imenso poeta português que pulou fora desse mundo, mas deixou essa poesia que machuca, sim e atordoa!
Profile Image for MT.
201 reviews
May 19, 2021
“Fim da Primeira Parte

queres que eu escreva, que te minta, que eu te diga mais como se o resto fosse: tudo. Não escrevo. Dorme. Os meus rios não jorram desta boca. As minhas mãos abriram uma na outra são poemas amedrontando os campos, repartindo. Não me chames. Eu morei aqui. Tenho um quarto sem história num país ausente. Todas as manhãs canto deitado na garganta, e ainda tenho medo. Todas as manhãs acordo e emudeço. Nesta cidade os homens não chegam ao pescoço. Por isso estalam nos sonhos, soberbos, por entre gatos parvos ruminando a morte nas gavetas. Não quero biografia, quero memórias. Não quero a vida, quero o lugar do amor. E como as coisas demoram quando de perto trazem: espaços, fracturas, certos castanhos acidentes. E esta pequena falta de jeito para as coisas. As coisas.
Alguém encontrará o rosto no pão aflito. Parado, na noite. Abrindo, a noite.
Contra a tristeza dizer. Contra a morte: iluminar!”



“Breve

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.”
Profile Image for Francisco Alexandre Pires.
30 reviews2 followers
January 6, 2021
O poema "BREVE" que se encontra algumas vezes nos comentários nesta plataforma é sem dúvida o mais bonito, e ao mesmo tempo o mais simples e directo, desta antologia. Por essa razão, é também o meu favorito. Das 201 páginas de poemas, anotei para referência futuras exactamente 23. 10% dos poemas de uma antologia que, de uma forma relativa apenas a mim, me falaram. Não é muito. Por isso sim, esta avaliação é das mais subjectivas que poderão encontrar. Para mim, a esmagadora maioria da poesia de Rui Costa não funciona. Apenas isso.
Profile Image for Raquel Lopes.
62 reviews13 followers
August 28, 2020
"BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me 'bom dia' mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."
Profile Image for Lucas Sierra.
Author 3 books608 followers
January 1, 2026
Recuerdo poco de los versos de este libro, pero hay una sensación en la memoria, grata y honda, de sentirme al mismo tiempo conmovido y confuso. Eso logra la poesía que se arriesga. Nos sume en lo hondo y en lo propio, desconcierta y muestra caminos. Quise leerlo de nuevo en el gimnasio, entre los sacos, viendo si comprendo entre los jabs algo que en la gramática se esconda. No es el caso, creo, pero de estas enguandias se alimenta también la lectura. Probablemente lo haga, alguna vez.
Profile Image for Teresa.
184 reviews3 followers
October 30, 2022
Dos melhores livros que alguma vez já li.

"...sai
ao centro da roda e surpreende-se
por só saber chorar. arredonda-se,
sabe bem que toda a recta é cruel."
In Breve Ensaio Sobre a Potência, 12
Profile Image for Esforçonulo.
146 reviews4 followers
May 2, 2025
nunca merecemos este poeta.

por questão de dívida, edito, explicito, e desenvolvo esta reduzida "review", para algo encorpado e digno.
a poesia de Rui Costa ocorre num equilíbrio entre o universo palpável e o obscuro, entre o conceito e o objecto, entre jogos de forças que puxam dambos lados para que se possa balançar. se esta introducção relembra algo, nomeadamente, as definições de meta-modernismo ("não é cão, mas é cão", por exemplo), acertaram no alvo. é, precisamente, um dos primeiros meta-modernos com qualidade em Portugal.

Rui Costa é um poeta que se marimba para gostos. sabe, a priori, que a toda a gente não agradará. e de facto seria erróneo achar que todos poemas aqui têm a mesma qualidade: não têm, aliás, há inúmeros bastante bastante fracos. o problema para nós, que nos sujeitamos a ser tocados pelo sensível, é que os outros são golpes de génio, que é tocado com imensa frequência. seria Rui Costa um génio mesmo, daqueles a sério, ou um mero aprendiz, um jovem que, apesar de recheado de qualidades, não as resolveu inteiramente? deixo à caríssima e querida pessoa que lê isto a sua dada e devida resposta.

fala-se no caos imenso, pois muitos poemas se parecem com sessões de zapping televisivo, onde ideias nos caem no cólo de fórma repentina, abrupta, brusca, visceral. no seu melhor, Rui Costa é torrencial, carregando um revólver de sangue numa mão e rato de computador na outra. traçando paralelos com outras correntes literárias, como o chamado "elipsismo", talvez possamos incluir R.Costa no mesmo, com a sua habilidade de "contar quase histórias".
se ao saírmos dum poeta desta antologia, e o tenhamos que reler, e reler, e reler, de fórma a compreender o que se passa, e mesmo assim se saia de mãos a abanar, apenas com migalhas nos dedos, pedacinhos de porcaria entre as unhas, enfim, um toque de sarro que preenche a nossa impressão digital, então estamos bem.

nunca merecemos um poeta cujo valor estético seja o expoente máximo do caos. mas talvez seja o que melhor consegue os nossos tempos dizer.
Profile Image for João Ricardo.
135 reviews5 followers
July 21, 2022
Metafórica, irónica e caótica poesia.

Não aprecio certos jogos de palavras com o inglês, mas há definitivamente bastantes coisas interessantes a retirar e a absorver.

Gosto particularmente dos primeiros 20/22 componentes do Breve Ensaio sobre a Potência.


" BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA

19

Deus sempre feito à imagem do homem
que o cria. Fabricam-se punhais para matar
com menos requinte do que as mãos; e
o crime continua a ser a mais antiga forma
da pureza. O primeiro artista pintava o
animal que queria seduzir. Dava-lhe uma
luz imóvel e amava-o deitado no tempo."



" FACA DE INCÊNDIO

10

O rei que chegava para jantar

mas todos os dias regressava.
todos os dias a boca junto ao mar
regressava e as suas mãos empurravam
a areia por dentro da camisa. pediam-lhe
que se escondesse junto ao espaço,
que da próxima vez prometesse não
voar. Da terra os animais cansavam-se
à passagem da duna. As plantas queriam
que ele se indignasse; os cactos, sobretudo,
sabiam que a seguir à furia vinha
sempre o sono.
era depois que o tédio se tornava altivo
e o vidro da janela afundava pelo eixo
da casa, com o pão deixando os dedos sós
até ao bafo. nesses dias era impossível morrer.
as pessoas não sabiam e passavam com a casa
dele às costas. um dia vieram à procura
do seu corpo mas uma espécie de felicidade
esqueceu-se de os avisar: três sacos esperavam-nos
à entrada da porta - os ossos no primeiro, a pele no
segundo e no terceiro, vazio, escondera-se o rei.
Quando levaram os dois primeiros sacos
e deixaram o último, já o ar tomava há muito
as mãos do seu reino, que nunca teve fim."
Profile Image for Alejandro Morales.
Author 9 books24 followers
July 24, 2019
Esta antología de la poesía de Rui Costa da buena cuenta de la gran calidad poética de este escritor que he tenido la fortuna de descubrir y leer directamente en su idioma original, aunque si no me equivoco su obra no se encuentra aún traducida al español. De lo mejor que he leído en lo que va de año; una poesía directa, sin lirismos ni adornos, pero llena de imágenes que hacen que su lectura sea más que grata. No dudo en recomendarlo.
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