«Esta antologia procura oferecer uma maneira de ler a poesia de Rui Costa, sabendo de antemão que tudo o que pudermos dizer a respeito da sua obra será condicionado por um tom deliberadamente pessoal: afinal, fomos amigos do Rui, companheiros de vida e poesia, e com ele dividimos durante muitos anos os caminhos do lado menos visível das coisas. Por isso, cada um de nós tem os seus pontos de referência nesse mapa de cumplicidades íntimas e as suas antologias pessoais de poemas. [...]
Esclareça-se desde já que o título Mike Tyson para principiantes nos foi fornecido pelo próprio autor — que o utilizou para uma antologia da sua obra que pretendia ver publicada, a cujas versões tivemos acesso. Embora mantenha o título inspirado pela metáfora do pugilismo, o livro que temos em mãos, substancialmente mais extenso, não é a antologia Mike Tyson para Principiantes que o autor organizou; de qualquer modo, também não se trata de uma reunião dos seus poemas completos. O livro resulta da nossa selecção pessoal, democraticamente ponderada, feita a partir dos livros editados em vida, dos dispersos que vieram a lume em revistas literárias e volumes colectivos e dos inéditos que se conservam no espólio que a família mantém. Assinale-se também que, para a escolha e organização dos poemas, nunca perdemos de vista o objectivo de construir um livro inteiramente novo. Ainda assim, tendo acompanhado a sua escrita, achámos por bem respeitar uma constante na composição de todos os seus livros publicados, que foi a divisão em três partes, e orientá-la de uma forma que pudesse aproximar-se de propostas que o próprio deixou esboçadas. [...]» da Introdução
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me «bom dia» mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua própria melancolia. ontem. há uma semana. há muitos meses. um ano ensina ao coração o novo ofício: a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."
Na falta de seis estrelas dou somente as cinco permitidas pelo Goodreads a esse imenso poeta português que pulou fora desse mundo, mas deixou essa poesia que machuca, sim e atordoa!
queres que eu escreva, que te minta, que eu te diga mais como se o resto fosse: tudo. Não escrevo. Dorme. Os meus rios não jorram desta boca. As minhas mãos abriram uma na outra são poemas amedrontando os campos, repartindo. Não me chames. Eu morei aqui. Tenho um quarto sem história num país ausente. Todas as manhãs canto deitado na garganta, e ainda tenho medo. Todas as manhãs acordo e emudeço. Nesta cidade os homens não chegam ao pescoço. Por isso estalam nos sonhos, soberbos, por entre gatos parvos ruminando a morte nas gavetas. Não quero biografia, quero memórias. Não quero a vida, quero o lugar do amor. E como as coisas demoram quando de perto trazem: espaços, fracturas, certos castanhos acidentes. E esta pequena falta de jeito para as coisas. As coisas. Alguém encontrará o rosto no pão aflito. Parado, na noite. Abrindo, a noite. Contra a tristeza dizer. Contra a morte: iluminar!”
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“Breve
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me "bom dia" mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua própria melancolia. ontem. há uma semana. há muitos meses. um ano ensina ao coração o novo ofício: a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.”
O poema "BREVE" que se encontra algumas vezes nos comentários nesta plataforma é sem dúvida o mais bonito, e ao mesmo tempo o mais simples e directo, desta antologia. Por essa razão, é também o meu favorito. Das 201 páginas de poemas, anotei para referência futuras exactamente 23. 10% dos poemas de uma antologia que, de uma forma relativa apenas a mim, me falaram. Não é muito. Por isso sim, esta avaliação é das mais subjectivas que poderão encontrar. Para mim, a esmagadora maioria da poesia de Rui Costa não funciona. Apenas isso.
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me 'bom dia' mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua própria melancolia. ontem. há uma semana. há muitos meses. um ano ensina ao coração o novo ofício: a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."
Recuerdo poco de los versos de este libro, pero hay una sensación en la memoria, grata y honda, de sentirme al mismo tiempo conmovido y confuso. Eso logra la poesía que se arriesga. Nos sume en lo hondo y en lo propio, desconcierta y muestra caminos. Quise leerlo de nuevo en el gimnasio, entre los sacos, viendo si comprendo entre los jabs algo que en la gramática se esconda. No es el caso, creo, pero de estas enguandias se alimenta también la lectura. Probablemente lo haga, alguna vez.
por questão de dívida, edito, explicito, e desenvolvo esta reduzida "review", para algo encorpado e digno. a poesia de Rui Costa ocorre num equilíbrio entre o universo palpável e o obscuro, entre o conceito e o objecto, entre jogos de forças que puxam dambos lados para que se possa balançar. se esta introducção relembra algo, nomeadamente, as definições de meta-modernismo ("não é cão, mas é cão", por exemplo), acertaram no alvo. é, precisamente, um dos primeiros meta-modernos com qualidade em Portugal.
Rui Costa é um poeta que se marimba para gostos. sabe, a priori, que a toda a gente não agradará. e de facto seria erróneo achar que todos poemas aqui têm a mesma qualidade: não têm, aliás, há inúmeros bastante bastante fracos. o problema para nós, que nos sujeitamos a ser tocados pelo sensível, é que os outros são golpes de génio, que é tocado com imensa frequência. seria Rui Costa um génio mesmo, daqueles a sério, ou um mero aprendiz, um jovem que, apesar de recheado de qualidades, não as resolveu inteiramente? deixo à caríssima e querida pessoa que lê isto a sua dada e devida resposta.
fala-se no caos imenso, pois muitos poemas se parecem com sessões de zapping televisivo, onde ideias nos caem no cólo de fórma repentina, abrupta, brusca, visceral. no seu melhor, Rui Costa é torrencial, carregando um revólver de sangue numa mão e rato de computador na outra. traçando paralelos com outras correntes literárias, como o chamado "elipsismo", talvez possamos incluir R.Costa no mesmo, com a sua habilidade de "contar quase histórias". se ao saírmos dum poeta desta antologia, e o tenhamos que reler, e reler, e reler, de fórma a compreender o que se passa, e mesmo assim se saia de mãos a abanar, apenas com migalhas nos dedos, pedacinhos de porcaria entre as unhas, enfim, um toque de sarro que preenche a nossa impressão digital, então estamos bem.
nunca merecemos um poeta cujo valor estético seja o expoente máximo do caos. mas talvez seja o que melhor consegue os nossos tempos dizer.
Não aprecio certos jogos de palavras com o inglês, mas há definitivamente bastantes coisas interessantes a retirar e a absorver.
Gosto particularmente dos primeiros 20/22 componentes do Breve Ensaio sobre a Potência.
" BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA
19
Deus sempre feito à imagem do homem que o cria. Fabricam-se punhais para matar com menos requinte do que as mãos; e o crime continua a ser a mais antiga forma da pureza. O primeiro artista pintava o animal que queria seduzir. Dava-lhe uma luz imóvel e amava-o deitado no tempo."
" FACA DE INCÊNDIO
10
O rei que chegava para jantar
mas todos os dias regressava. todos os dias a boca junto ao mar regressava e as suas mãos empurravam a areia por dentro da camisa. pediam-lhe que se escondesse junto ao espaço, que da próxima vez prometesse não voar. Da terra os animais cansavam-se à passagem da duna. As plantas queriam que ele se indignasse; os cactos, sobretudo, sabiam que a seguir à furia vinha sempre o sono. era depois que o tédio se tornava altivo e o vidro da janela afundava pelo eixo da casa, com o pão deixando os dedos sós até ao bafo. nesses dias era impossível morrer. as pessoas não sabiam e passavam com a casa dele às costas. um dia vieram à procura do seu corpo mas uma espécie de felicidade esqueceu-se de os avisar: três sacos esperavam-nos à entrada da porta - os ossos no primeiro, a pele no segundo e no terceiro, vazio, escondera-se o rei. Quando levaram os dois primeiros sacos e deixaram o último, já o ar tomava há muito as mãos do seu reino, que nunca teve fim."
Esta antología de la poesía de Rui Costa da buena cuenta de la gran calidad poética de este escritor que he tenido la fortuna de descubrir y leer directamente en su idioma original, aunque si no me equivoco su obra no se encuentra aún traducida al español. De lo mejor que he leído en lo que va de año; una poesía directa, sin lirismos ni adornos, pero llena de imágenes que hacen que su lectura sea más que grata. No dudo en recomendarlo.