nunca merecemos este poeta.
por questão de dívida, edito, explicito, e desenvolvo esta reduzida "review", para algo encorpado e digno.
a poesia de Rui Costa ocorre num equilíbrio entre o universo palpável e o obscuro, entre o conceito e o objecto, entre jogos de forças que puxam dambos lados para que se possa balançar. se esta introducção relembra algo, nomeadamente, as definições de meta-modernismo ("não é cão, mas é cão", por exemplo), acertaram no alvo. é, precisamente, um dos primeiros meta-modernos com qualidade em Portugal.
Rui Costa é um poeta que se marimba para gostos. sabe, a priori, que a toda a gente não agradará. e de facto seria erróneo achar que todos poemas aqui têm a mesma qualidade: não têm, aliás, há inúmeros bastante bastante fracos. o problema para nós, que nos sujeitamos a ser tocados pelo sensível, é que os outros são golpes de génio, que é tocado com imensa frequência. seria Rui Costa um génio mesmo, daqueles a sério, ou um mero aprendiz, um jovem que, apesar de recheado de qualidades, não as resolveu inteiramente? deixo à caríssima e querida pessoa que lê isto a sua dada e devida resposta.
fala-se no caos imenso, pois muitos poemas se parecem com sessões de zapping televisivo, onde ideias nos caem no cólo de fórma repentina, abrupta, brusca, visceral. no seu melhor, Rui Costa é torrencial, carregando um revólver de sangue numa mão e rato de computador na outra. traçando paralelos com outras correntes literárias, como o chamado "elipsismo", talvez possamos incluir R.Costa no mesmo, com a sua habilidade de "contar quase histórias".
se ao saírmos dum poeta desta antologia, e o tenhamos que reler, e reler, e reler, de fórma a compreender o que se passa, e mesmo assim se saia de mãos a abanar, apenas com migalhas nos dedos, pedacinhos de porcaria entre as unhas, enfim, um toque de sarro que preenche a nossa impressão digital, então estamos bem.
nunca merecemos um poeta cujo valor estético seja o expoente máximo do caos. mas talvez seja o que melhor consegue os nossos tempos dizer.