Terminei de ler a obra Amantes, da autora Elizabeth Abbott, e saio dessa leitura completamente extasiada. A história da mulher, a história do feminino, é marcada por encontros com outras mulheres.
As amantes são mulheres que mantêm relações amorosas com homens já comprometidos. Do mesmo modo, há homens que exercem o papel de amantes em relações com mulheres comprometidas. Ao longo da história, porém, o desempenho desse papel sempre foi profundamente discrepante para homens e mulheres.
Homens, desejados em um mundo falocêntrico, são vistos como garanhões, conquistadores, bons de cama. Mulheres, ocupando exatamente o mesmo lugar simbólico, são tratadas como putas, vagabundas, destruidoras de lares e de famílias, como aquelas que não se dão ao respeito.
Ao longo de sua pesquisa riquíssima, cheia de referências, bibliografias, estudos, biografias e entrevistas, Elizabeth constrói uma narrativa que historiciza o lugar das amantes. Ela parte do concubinato, atravessa as diferenças entre suas raízes orientais e ocidentais e analisa a forma como o mundo moderno passa a abarcar diferentes tipos de relações dentro desse mesmo contexto. Em todos esses níveis, há, obviamente, um envolvimento sexual entre duas pessoas que mantêm compromissos com terceiros.
O que Elizabeth propõe é que se pense na barganha do tempo e na forma como as relações se estabelecem dentro de um mundo patriarcal. Ela propõe que se entenda como a mulher, muitas vezes, se torna um produto, passando a subsistir enquanto categoria. Propõe também que se enxergue a crítica central de que mulheres e homens não estão em pé de igualdade, nem mesmo quando se trata dessas relações que existem fora dos vínculos oficialmente firmados.
Elizabeth mostra como, em um movimento histórico crescente, o casamento sai de uma instituição rígida e se transforma em um molde social universal. Um molde que passa a organizar a forma como enxergamos o amor. No entanto, na constituição do casamento, o amor nunca foi uma questão central. Mesmo quando mencionado, falado ou defendido, ele nunca ocupou o lugar que se espera dele.
Ela vai mencionar desde grandes mulheres do Império Chinês até mulheres que de fato existiram nos haréns turcos. Fala das mulheres em posição de subjugamento enquanto escravizadas e das mulheres que atravessaram a Shoah, o Holocausto. Aborda também aquelas que se submeteram a ser amantes de homens ligados ao regime nazista, em contextos profundamente violentos e desumanizadores.
Elizabeth trata ainda das mulheres presas a relações extremamente subjugadoras em sociedades orientais que começavam a se desfazer à medida que o Ocidente avançava sobre esses territórios. Analisa as diferenças entre gueixas e outros grupos, evidenciando distinções culturais profundas. Passa também pelos mundos africanos, cujo estudo é especialmente complexo, dada a riqueza e a diversidade de tradições que compõem o continente.
Ao chegar ao mundo ocidental, ela nos apresenta, de forma abrangente, o papel de muitas mulheres registradas na história. Histórias que aconteceram nas cortes do rei Luís XV, do rei Luís XVI, nas cortes da Inglaterra, da Espanha, da Itália e de tantas outras. Mas também entre mulheres de vida mais simples, mulheres do cinema, da televisão, das artes, da ópera, da literatura e daquelas que escreveram a própria literatura.
Nesse apanhado de nomes e trajetórias, torna-se evidente como a história marca o feminino dentro de uma estrutura feita para sustentar o patriarcado e proteger majoritariamente o homem. Trata-se de um trabalho primoroso, de uma pesquisa gloriosa, de um livro que merecia muito mais reconhecimento e que deve ser lido com tempo, com cuidado, com disposição para ser degustado pouco a pouco.
Foi uma leitura fascinante. Uma obra incrível. Eu não releria a parte da Segunda Guerra Mundial, por ser extremamente pesada e por ter mexido profundamente com os meus sentimentos. Ainda assim, o livro reúne histórias de personalidades fundamentais, como Simone de Beauvoir, Sartre, Marilyn Monroe, a atriz de Crepúsculo dos Deuses, além de figuras que moldaram o mundo e salvaram vidas durante a Shoah.
Elizabeth fala também da Rainha de Sabá, da última imperatriz da China, de mulheres cujos nomes não foram devidamente registrados, mas cujos papéis foram decisivos. Fala de personalidades políticas, sociais, artísticas, todas carregando histórias riquíssimas vividas dentro de relações que não as protegiam, em um tempo em que a terapia não era vista como necessidade de sobrevivência, mas como algo quase jocoso.
Ela aborda ainda o papel da amante dentro da literatura, citando Anna Kariênina, Madame Bovary, A Letra Escarlate e tantas outras personagens e autoras. Em todas essas narrativas, a mulher é marcada, enquanto o homem é reiteradamente perdoado. A hipocrisia permanece. As relações de casamento seguem sem colocar o amor em sua real perspectiva, e é por isso que tantas relações acabam existindo à margem, fora do vínculo oficial, com aquilo que se convencionou chamar de a outra.