"... um corpo luminoso parecerá proporcionalmente mais brilhante ao estar envolto de sombras profundas..."
Leonardo da Vinci
Hoje o dia começou com uma notícia indesejada, a notícia da morte de uma pessoa de quem eu gostava e que respeitava (sentimentos esses que, creio, eram recíprocos — recordo-me que há uns meses, não muitos, essa pessoa me chegou a comparar à sua filha, declarando a admiração que tinha pelo nosso amor pelos livros e pela leitura). A notícia desta morte comoveu-me e deixou em suspenso outras preocupações e pensamentos que tenho tido: corria pelas folhas do livro "Chroma", mas a minha atenção pouco ou nada se fixava nas palavras. A morte de uma pessoa pode afectar-nos, seja ela alguém próximo de nós ou não, mas é inequívoco que o maior impacto é sempre sentido pelos amigos mais próximos e pelos familiares, pelas pessoas que nos acompanham (de perto ou de longe), com as quais podemos contar e que podem contar connosco; pensei também na doença e na morte de Derek Jarman, o autor de "Chroma" (Cor). Estou certa de que muitas pessoas que admiravam a sua obra se deixaram afectar pela notícia da sua morte, mas essa dor não é equiparável àquela sentida por quem o conhecia realmente. No meio destes pensamentos, de memórias e de saudades que outros mortos cultivaram em mim, as palavras de Jarman tentavam saltar e prender a minha atenção. Por vezes conseguiam-no:
"O mais estável dos verdes é o verde terra. Os mais evasivos, os verdes acobreados que se transformaram em castanhos, em todas as pinturas venezianas. A cor fugitiva voa no tempo, e deixa-nos num Outono perpétuo."
"O amarelo da Babilónia. É chamado "giallorino". É eterno e é feito a partir de um mineral encontrado em vulcões."
"Atravesso a praia sob um vendaval ruidoso -
Mais um ano passa
No troar das águas
Ouço as vozes de amigos mortos
O amor é a vida que dura para sempre.
A memória do meu coração volta-se para ti
David. Howard. Graham. Terry. Paul...
Mas e se esse presente
Fosse a última noite do mundo?
No sol que se põe o teu amor desvanece
Morre ao subir
Falha ao subir
Três vezes negada pela alvorada
À primeira luz da madrugada."
Estas passagens atingiam-me como se fossem pequenas ondas que terminavam o seu ciclo de vida nos meus calcanhares. Sentia-as como impressões que podiam ser minhas, ou momentos que podia reviver porque alguém tomou a decisão de os anotar. Derek Jarman escreve este livro numa corrida contra o tempo: perde a visão por motivos de doença e procura cristalizar memórias, sensações, conhecimentos. "Chroma" é um livro profundamente comovedor e belo, capaz de criar um foco em torno do que realmente importa, em torno daquilo que não queremos perder...
Acabo esta breve reflexão (impressão?) com uma frase que é atribuída a Maya Angelou e que me visitou algumas vezes durante o dia de hoje: "People will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel". Esta frase sintetiza a minha relação com as pessoas (e com boa parte dos livros e dos filmes que vejo): os pormenores, os alinhamentos e factos podem-se desvanecer. Posso esquecer pormenores de um rosto, as palavras exactas, as acções concretas... mas as sensações, as impressões, essas ficam indelevelmente gravadas em mim, e creio que é precisamente nesse estado que aqueles que nos deixaram continuam, e continuarão, a existir.
Texto escrito a 23 de Dezembro de 2022.
Edição lida: Chroma, Derek Jarman, trad. João Concha e Ricardo Marques (2015/16), ed. não (edições)