Este livro é maravilhoso. Trata-se de uma adaptação para uma novela gráfica um famoso romance de Antonio Tabucchi - Afirma Pereira - e que nos conta a história e as dúvidas existenciais de Pereira, um homem solitário, sensível, culto e eternamente apaixonado pela mulher com quem casou - e que a morte levou tão cedo - numa época tão marcante e traumatizante da nossa história recente que, contudo, parece já estar a começar a cair no esquecimento ou a ser alvo de um processo de branqueamento nada inocente. Falo das décadas em que vivemos sob um regime ditatorial castrante, dopante, "abençoado" por Fátima, doentiamente paternalista e que ditou para sempre a personalidade lusitana e os seus maniqueísmos.
Esta é uma história que nos fala de amor, do poder das memórias, de dedicação às grandes causas, do fogo revolucionário que arde em todos nós mesmo que não saibamos, do medo paralisante, e acima de tudo, do que é viver sem a Liberdade... esse conceito que damos como certo, e cuja verdadeira essência só conhecemos quando a perdemos... tal como o Amor.
A arte é maravilhosa. As cores seguem uma paleta cromática limitada e bela, que apta na perfeição a luz mágica de Lisboa, e que eu gosto de apelidar de LuzBoa. As cores e o traço (claramente vindos da mão de quem ama diários gráficos) são mutantes ao longo do livro, consoante os sentimentos que se pretende tatuar nas páginas.
Uma nota curiosa. Lisboa, a cultura e modo de pensar lusitanos, são captados na perfeição pelo escritor, que é italiano, e pelo ilustrador, que é francês, e que obviamente veio muitas vezes a Portugal para conhecer melhor aquilo que tão bem representou. A edição é francesa, o que foi para mim um problema muito complicado porque o meu francês é pouco melhor que o meu aramaico, o que me obrigou a uma leitura muito, muito lenta e atenta (o que por outro lado, é muito bom), e assistida pela permanente ajuda da aplicação Tradutor, da Google. Como é que é possível que este livro, que nos é tão importante (especialmente numa época em que parece estarmos a voltar para trás, e a criar as condições para o aparecimento de ditadores brutais em países onde a democracia parecia estar de pedra e cal) ainda não tenha sido editado em Portugal??? (Pergunto eu como uma camada de nervos à flor da pele)
Acabei de ler este livro no dia 25 de Abril... não é mágico?