À Deriva conta a história de Isabela, jovem paulistana que parte em viagem à vila de Trindade, no Rio de Janeiro, por um fim de semana. Essa bancária está agastada do trabalho estafante, dos conflitos familiares, da falta de apoio das melhores amigas, das dificuldades da vida na metrópole, mas, também, por mais que não queira admitir, pelo fantasma de um fim de namoro mal resolvido. Nessa viagem de descanso, ela conhecerá personagens que, cada um a seu modo, empreendem buscas. Caetano cresceu sem conhecer a mãe. No leito de morte, seu pai lhe revela uma pista que poderia levá-lo até ela. Suas buscas o levam até Trindade, onde mora uma antiga amiga de sua mãe, alguém que poderia lhe indicar seu paradeiro. Bruno, figura misteriosa e sombria, separou-se há pouco, deixando mulher e três filhas. Desde então entrega-se a uma vida desregrada, vivendo de empregos precários. Mas a imagem áspera que procura passar, pode esconder uma realidade bem diferente. O romance busca pintar um panorama dos jovens adultos urbanos de classe média nascidos na década de 1980: sua precária condição econômica, sua visão de mundo, seus anseios e angústias, a maneira como se relacionam com as gerações mais antigas, mas, sobretudo, o desassossego daqueles a quem muito foi prometido e pouco foi entregue.
Fernando Ferrone nasceu em Jardinópolis, São Paulo, em 1981. Apaixonado desde jovem por literatura, durante o ensino médio contribuía com o jornal local publicando crônicas. Cursou Ciências Sociais na Unicamp e defendeu seu mestrado em História Contemporânea na Université de Borgogne, em Dijon, França. Novamente no Brasil, trabalhou como editor e tradutor. Aos 36 anos, retoma a produção literária lançando seu primeiro romance.
"Metade do mundo é feita de gente sumida e a outra metade está procurando quem sumiu", diz Maria Valéria Rezende em seu "Quarenta Dias". Um dos temas centrais da narrativa brasileira contemporânea (vide outras ficções como "Rebentar", "Enquanto Deus Não Está Olhando" ou "Barreira"), o desaparecimento é um elemento coadjuvante em "À Deriva", romance do escritor Fernando Ferrone protagonizado por Isabela, uma bióloga paulistana que se refugia do caos metropolitano em Vila Trindade, nas cercanias de Paraty (RJ).
Isabela está frustrada. Abandonou o sonho da carreira acadêmica em prol de um posto burocrático numa agência bancária. Acabou de encerrar um relacionamento de três anos com o metroviário Amadeu e não sabe o que fazer com seu cansaço além de tomar um ônibus e embarcar numa aventura de três dias pelo litoral carioca. No vilarejo, conhece figuras como Odete, uma mulher que luta bravamente contra um câncer, e Caetano, um aventureiro que viaja de cidade em cidade sobrevivendo de pequenos bicos. Ele chegou a Vila Trindade com uma missão: buscar informações sobre o paradeiro desconhecido da mãe, uma prostituta que engravidou de um rapaz de família influente (o pai de Caetano, que lhe deu estas informações antes de morrer).
A narrativa vai crescendo enquanto as relações entre esses personagens se aprofunda e a dimensão concreta do desaparecimento (do corpo de Odete e do destino da mãe de Caetano) se choca com a sua dimensão simbólica (o desaparecimento identitário de Isabela - mais uma paulistana anônima, engolida pelas engrenagens da cidade). Apropriando-se do clichê de uma classe média que precisa ir além do horizonte de concreto para contemplar os dramas reais que se desenrolam fora de seu cotidiano burguês, Ferrone consegue superar os lugares comuns de enredos do gênero e ressignificar os pequenos dramas de Isabela, sem incorrer em soluções fáceis.
Como adicional, inscreve seu romance também num rol de narrativas que tem a fuga da cidade como traço revelador de panoramas geracionais ("Barba Ensopada de Sangue", "A Vez de Morrer", "Biofobia", "Ruína y Leveza", "Cabo Polônio"...). Sua escrita tem arrimo e fluidez, destacando-se pelo uso predominante das minúsculas e pelos diálogos em itálico, além dos capítulos divididos unicamente por horários sempre quebrados - conferindo uma certa aleatoriedade que ele compensa com transições temporais conscientes, do presente para o passado da sua protagonista.
A cena em que Caetano encontra Donana, suposta amiga de sua mãe, é modelar, gigante em termos de sugestões e subtextos - embora estes sejam derrubados em seguida por uma certa inépcia descontável, quando pensamos que, como diria Bruno (outro personagem relevante da trama) sempre somos como motoristas que dirigem no escuro num primeiro romance: e às vezes precisamos apagar as luzes para tentar enxergar melhor o caminho.
“flutuar era sentir-se inteiramente suspensa, o corpo é a mente. o corpo suspenso na água e a mente, no silêncio. se algum dia meditasse, Isabela teria certeza que seria uma sensação assim. quando descobriu pela primeira vez a sensação, ainda adolescente, chegou a cochilar e navegou sem rumo, à deriva, por um tempo indeterminado. uma súbita correnteza fria a despertou e de pronto foi tomada pela sensação aterrorizadora de estar perdida.”
Foi uma leitura que, para mim, teve uma certa dificuldade de engate na primeira metade, enquanto a segunda passou rapidamente (vi pessoas falarem da experiência contrária rs). É um livro que não traz apenas aspectos de reflexões sobre um momento de vulnerabilidade, mas também informações científicas que casam muito bem com as situações e o enredo. Além disso, a construção dos personagens é muito boa. perdendo apenas para a construção do espaço, que fez com que eu visualizasse Trindade sem nunca ter colocado o pé e Paraty. O que me “irritava” (com aspas) em alguns momentos do início do romance era uma certa aproximação do narrador com a linguagem mais contemporânea que tinha uma quebra com algum termo que, ao meu ver, não é usado de modo corriqueiro. De qualquer forma, não deixa de ser um registro bem atual das relações entre os indivíduos numa sociedade totalmente conectada.