Nota introdutória: Carla Pais ganhou vários prémios literários antes da publicação desta obra. Com este romance não arrecadou o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís porque já tinha publicado outras obras (contos e poesia).
E, no entanto, pergunto: quem já ouviu falar desta autora?
A capa, título e sinopse levaram-me a comprar o livro pois também eu nunca tinha ouvido falar de Carla Pais.
Mea Culpa conta-nos a(s) história(s) de três personagens: Amadeu Jesus, Briosa e Cândida Jesus. A sinopse apresenta-os de forma concisa e certeira.
São histórias onde a injustiça, a crueldade e a miséria a que estas personagens estão sujeitas contrastam com a impunidade, a falsidade e a arrogância das pessoas bonitas que dominam a aldeia.
São histórias povoadas pela sordidez de actos de grande malvadez e leviandade e, no entanto, a autora faz uma magia particular: consegue misturar uma linguagem crua, distante, às vezes ofensiva, com uma linguagem poética e sonhadora, de uma grande beleza:
"- Estás outra vez no telhado? Andas com os cornos no ar, Briosa! Desce daí e vem tratar deste animal!"
"Gosta de ali ficar a ver as estrelas como brincos de prata que Deus já não usa."
Também os títulos dos capítulos, roubados ao interior do texto, mostram esta mistura de linguagens:
"Um corvo definhado que perdeu o norte do ninho"
"É lá que o gato mija todas as noites, antes de sacudir o rabo"
"Faz sempre frio onde a luz não se pode coser"
"Uma besta a espreguiçar-se na coluna"
Foi sobretudo esta mistura de linguagens que me cativou. Isso e um grande desejo de que houvesse alguma redenção no final deste romance. E há, bem haja!
Já li bons romances este ano, mas posso afirmar que este foi um dos romances que mais me surpreendeu (não tanto como 'Casas Pardas' de Maria Velho da Costa e de 'O que Fazem Mulheres' de Camilo Castelo Branco, devo fazer a ressalva).