A luta política no Brasil se radicalizou, ganhou novas vozes e tomou as ruas e as redes sociais. O livro de Bosco é uma análise sóbria e ponderada – e a quente -- desse novo ambiente marcado por estridência e intolerância. Nos últimos anos, o debate público no Brasil viu o fortalecimento de vozes novas e combativas. Feministas, movimentos negros e LGBTs tornaram-se protagonistas de batalhas por reconhecimento e contra o preconceito. O palco dessa disputa são as redes sociais, sobretudo o Facebook. A nova arena democratizou a discussão, mas também elevou a voltagem dos radicalismos, à esquerda e à direita do espectro político. É esse o cenário analisado por Francisco Bosco. Atento ao colapso das conquistas dos anos Lula e aos efeitos das manifestações de Junho de 2013, Bosco traça um panorama inédito do novo espaço público brasileiro e examina em detalhe algumas polêmicas recentes, como a questão das marchinhas banidas por blocos de carnaval e o caso da garota branca que defendeu seu direito de usar um turbante. Inspirado na leitura de intérpretes do Brasil, como Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, o autor mostra como a cordialidade, traço constitutivo da identidade brasileira, deu lugar nos últimos anos ao confronto aberto – e examina a consequências dessa mudança com doses generosas de argúcia, sutileza e sobriedade.
É um livro curto e que constrói muito bem o momento sócio-histórico que se propõe analisar, situando muito bem o leitor. O autor faz um panorama histórico-cultural brasileiro excelente, de tirar o chapéu. Nesse sentido, inclusive, o primeiro capítulo dá um show; acho que foi minha parte preferida. Em questão de estudos teóricos, o livro é muito bem construído. A argumentação também é bem elaborada e dá pra ver o cuidado do autor ao tratar de lutas das quais ele não é agente central (o que ele mostra ter consciência), mesmo que em uma passagem ou outra dê pra perceber que faltou discussão no tuíter pra lapidar melhor seus pontos - mas isso é realmente algo menor. Pra mim, o que deixou a desejar foram as análises de casos específicos, em que parece que falta uma elaboração um pouco mais complexa da parte do autor entre sua análise prática e a teoria que constrói ao longo do livro. Isso não foram em todos os casos, no entanto, e também não justifica deixar de ler.
No fim, senti que é essa é também só mais uma tentativa de compreender o que raios aconteceu no Brasil nos últimos 10 anos, algo que, honestamente, estamos tentando entender. E realmente acho que o livro contribui pra elaborarmos um pouco mais nossas respostas.
O livro não é ruim, mas lendo em 2022 o argumento apresentado em 2018 sobre querelas que já foram esquecidas, o autor me pareceu completamente míope - não enxergou o verdadeiro perigo que vinha com esse novo espaço público, a extrema direita e o uso das redes pela máquina da far right, preferindo se debruçar em questões que hoje parecem muito fúteis, mesmo dentro do campo da esquerda identitária - fora que as inferências feitas no caso Idelber Avelar são no mínimo problemáticas - talvez pelo próprio "local de fala" do autor. Envelheceu mal.
Embora eu tenha lido o livro sempre pensando que um homem hétero, branco e de classe alta tinha escrito, é impossível não ficar reflexivo com diversos pontos, especialmente sobre linchamentos virtuais e a problemática do lugar de fala (até que ponto impedir que alguém possa discutir algo contribui para o fim do preconceito?). O livro é um ensaio bem complexo e, por vezes, me senti 100% burro lendo, mas é uma provocação muito válida em tempos em que a internet virou tanto espaço para debate público quando ringue de luta livre.
Fazia tempo que não lia um ensaio brasileiro tão bom. O autor tem boa argumentação e toca num assunto bastante espinhoso da atualidade: o linchamento virtual, principalmente por parte de movimentos sociais. Vale a leitura!
Tratar de fake news, vítimas de mídias sociais, minorias identitárias, violência, gêneros, com tanta maestria e generosidade de descrição, só mesmo Francisco Bosco. Um texto tão rico que cada página vira uma palestra sem fim. Parabéns!
O livro de Francisco Bosco chega em boa hora para ampliar ou sistematizar perspectivas não hegemônicas no campo das disputas que ora se explicitam no Brasil e no mundo, notadamente aquele relativo à desigualdade de gênero e o que vem no seu rastro de reivindicação e demanda de responsabilização. Longe de negar os problemas em jogo, o texto nos lança no campo da ação ao convidar a apreciar o confronto com base em uma nova mirada, certo de que existem injustiças a serem ultrapassadas, mas longe do entendimento de que haja uma disputa entre anjos e demônios no palco dos clamores identitários.
Segue um resumo a partir de fragmentos do livro.
Há uma defasagem imensa entre o que o Brasil chegou a realizar em sua cultura e o que pôde realizar enquanto sociedade. O Brasil da primeira década do século XXI já dispunha portanto de toda uma tradição anticordial, propugnadora da explicitação dos conflitos e fundamentada em lutas identitárias. As revoltas de junho de 2013, o colapso do lulismo e a enorme adesão ao uso de redes sociais digitais [atualizam o cenário no qual o universo do confronto reafirma-se].
Na esteira das ideias de Hegel e Herbert Mead, Axel Honneth identifica três instâncias sociais produtoras de reconhecimento: o amor, o direito e a solidariedade.
O assédio, a manipulação, o abuso são efeitos da passagem, por alguma razão realizada pelas mulheres, de sujeito do seu desejo a vítima do desejo do outro.
Quando uma pessoa se relaciona com alguém "com poder", ela não o faz somente por masoquismo, por uma coerção difusa ou por qualquer perspectiva que anule seu próprio desejo; e sim porque esse poder lhe trará diversos benefícios: aumentar sua capacidade de agenciamentos, sua riqueza material ou subjetiva, seu status social etc.
Ou seja, há o desejo da mulher inserido nesse processo.
A mulher não é necessariamente apenas vítima da relação de poder. Ela pode ser também sujeito dessa relação.
E mais ainda se acrescermos que o poder é antes múltiplo, heterogêneo, do que unívoco e unilateral.
No fim das contas, relações de poder são mais complexas e menos unilaterais do que propõe a perspectiva feminista aqui em questão.
Para a perspectiva feminista que venho criticando, não valem o desejo de potência da mulher, nem suas qualidades, que alteram a economia de forças da relação.
Pois é possível interpretar a passagem de sujeito do desejo a vítima de manipulação como o efeito de um sentimento de culpa causado pela compactuação desejante com uma fantasia sexual conservadora.
Colocar-se no lugar do manipulado é uma maneira de se eximir da responsabilidade por ter participado da fantasia sexual regressiva.
Não posso admitir que esse desejo é meu, logo fui manipulado.
A vitória do acusado na justiça não tem o valor de última palavra fora do âmbito legal. A justiça oficial não instaura uma perspectiva absolutamente neutra capaz de arbitrar a controvérsia. Ao contrário, ela é, desde o início, parte do problema: uma instância percebida pelas mulheres como reprodutora do machismo estrutural da sociedade. _____________________________________________________________
Bosco, F. (2017). A vítima tem sempre razão? São Paulo: Todavia livros.
Você pode até não concordar com a conclusão, mas as premissas que Francisco Bosco apresenta são brilhantemente pedagógicas. Neste livro o autor se propõe a discutir os temas que todos nós já temos pós-doutorado: lugar de fala, racismo, feminismo, politicamente correto, apropriação cultural, sororidade, entre outros que dominam o twitter e o almoço de domingo na vovó.
Sempre estamos em transformação, fato. Mas desde 2013 as coisas tomaram um rumo caótico — talvez no melhor sentido da palavra. Ao mesmo tempo que temos um psicopata ocupando o cargo de maior importância no país, é inegável que as pautas minoritárias assumiram um papel histórico no espaço público brasileiro e mundial. Aliás, tendo a achar que o vírus anti-política, anti-direitos humanos, anti-liberdades espalhado norte a sul do hemisfério, seja uma reação desesperada a uma pequena porém crescente ocupação das minorias nos espaços de discussão.
Termino a leitura de A vítima tem sempre a razão? mais preparado para entender os choques sociais e culturais que ocorrem nas ruas, no trabalho e timelines afora