Uma narrativa ampla da história surpreendentemente complexa da evolução econômica do nosso país.
Quatro conceitos centrais sobressaem, na minha opinião. Alguns não são novidade para estudantes atentos de história do Brasil. Outros vão de encontro às visões habituais do assunto.
1) A despeito da imagem do Brasil colônia como uma terra praticamente pré-histórica, as cadeias econômicas locais eram complexas o suficiente para sustentar uma economia maior que a da metrópole já no início do século XIX. Em termos reais, a capacidade produtiva do Brasil era comparável à dos EUA - apesar da nossa falta de universidades, imprensa, papel-moeda, etc. Isso obviamente vai de encontro à ideia do país como uma grande mina de ouro cuja função era preencher os cofres, palácios, catedrais de Portugal. Nossa vantagem: o isolamento nos eximiu de muitas amarras feudais existentes na sociedade europeia.
2) Acima de tudo, o brasileiro é um ser engenhoso, e, em momentos quando as rédeas do governo sobre a economia eram mais soltas (ex: República Velha), o país soube crescer dentro de um arcabouço capitalista de forma rápida e, ainda que caibam várias qualificações, mais ou menos equânime. Por outro lado, governos centralizados (ex: o Império e a ditadura militar) estão associados à apropriação de riquezas da população pelo Estado, com efeitos deletérios para o nosso desenvolvimento.
3) Do ponto de vista de sistemas produtivos, o Brasil de hoje ainda tem muito do fracasso retumbante que foi o projeto econômico implantado pela ditadura: o Estado elefantino, moroso, ineficaz, exibindo toda sua incompetência em diversos setores da economia. Reiterando: essa configuração, como vimos, é exceção, e não regra, ao longo de cinco séculos de história.
4) O setor privado muito avançou na democracia reestabelecida nos anos 80. Em alguns domínios, privatizou-se e desregulou-se. Em outros, o Estado se fez mais presente, corretamente (vide SUS), o que ajudou o setor privado a focar em áreas mais pertinentes. De qualquer jeito, hoje, vivemos, trabalhamos, produzimos sob uma Constituição maximalista. Estabeleceu direitos individuais dignos de qualquer carta iluminista que valha o papel que foi escrita, mas também reserva muitos espaços à preferência do Estado, e garantiu diversos privilégios a grupos específicos em um texto que, em muitos países, se contenta com conceitos amplos e regras gerais.
Para um leigo em matéria constitucional, fica a impressão de que, ao cabo, é como se tivéssemos voltado a uma estaca zero, às ideias das Ordenações do Reino do Portugal medieval (o termo "corporativismo" é mencionado pela primeira vez na página 37, com o Brasil recém-descoberto). Os foros privilegiados, as prisões especiais para universitários, os auxílios-paletó, os preços mínimos de frete para caminhoneiros, tudo parece ter algum análogo nessas leis ancestrais. Apesar do otimismo do autor, isso é um final desanimador.
Mas, a julgar pelo espaço relativamente curto que é dedicado aos últimos 50 ou 60 anos dessa saga, parece que devemos ver esse período com tintas de excepcionalidade. Um observador pode ter a impressão de que cada ano no Brasil parece levar décadas para passar, mas teria mais proveito em por todo arco multicentenário da nossa história em perspectiva.