Resolvi reler "Luto e Melancolia", texto onde Freud aborda os temas do luto e da melancolia (somente mais tarde, o termo "depressão" entraria em cena).
Considero este um dos mais belos livros de Freud. Foi escrito, se não me falha a memória, em 1915. Poucos sabem, mas Freud recebeu apenas um prêmio importante em vida, apesar de sua imensa contribuição, e foi um prêmio de Literatura (o prêmio Goethe de 1930). Ele escrevia lindamente e com muita clareza. Muito resumidamente, quando amamos muito algo ou alguém, parte expressiva do "estoque de afeto" que temos em nós está direcionado a este objeto. Ou seja, amar em um certo sentido é ter um menor grau de narcisismo - não ter todo o seu afeto disponível para você próprio - dado que parte dele está investido em algo fora do seu ego - o objeto amado.
Quando este objeto é perdido, por morte ou abandono, o afeto nele investido assim ainda permanece por um bom tempo, e este é, segundo Freud, o trabalho terapêutico do luto - recuperar para si próprio este afeto - "desinvestir", digamos, o afeto do objeto e redirecioná-lo para seu próprio repositório.
O processo é difícil, doloroso e demorado, mas é necessário passar por isso. Somente quando boa parte do afeto que antes estava investido no objeto retorna para o ego, este torna-se apto a fazer novos investimentos, seja em si próprio (novos projetos pessoais), seja em outros objetos (novos relacionamentos). Não é bom, portanto, tentar fazer estes investimentos antes da hora - não haverá afeto suficiente ainda em estoque. É preciso "viver o luto", recuperar o afeto, aguardar o momento certo. Dói. Mas passa. E embora não pareça, o luto é um ato de saúde, dado que se trata de recuperar para si próprio algo que antes era seu - afeto.
A introdução de Maria Rita Kehl também é muito bonita e dá um bom resumo das teses do Freud sobre o luto e a melancolia que o acompanha. Diz Klein na introdução:
"O trabalho psíquico empreendido pelo enlutado, embora empobreça o ego e torne o sujeito inapetente para quaisquer outros investimentos libidinais, pode ser considerado um trabalho da ordem da saúde psíquica. É um trabalho de paulatino desligamento da libido em relação ao objeto de prazer e satisfação narcísica que o ego perdeu, por morte ou abandono. Ter sido arrancado de uma porção de coisas sem sair do lugar: eis uma descrição precisa e pungente do estado psíquico do enlutado. A perda de um ser amado não é apenas perda do objeto, é também a perda do lugar que o sobrevivente ocupava junto ao morto. Lugar de amado, de amigo, de filho, de irmão. Com a , perde-se também o lugar que era ocupado no afeto daquele querido. arrancados brutalmente daquele lugar; entretanto ali,
"Mas é normal", escreve Freud, que o apego do enlutado ao seu morto diminua aos poucos, e que a “psicose alucinatória de desejo” ceda lugar à aceitação da realidade.
Freud nos ensina que fazer um luto é muito difícil, pois o ego não abre mão facilmente de seus afetos investidos. Ele idealiza os objetos que ama. Diz ele que "embora a libido tenha enorme resistência em abandonar posições prazerosas já experimentadas, aos poucos a ausência do objeto impõe o doloroso desligamento, até que o ego se veja “novamente livre e desinibido”, pronto para novos investimentos. Pronto para voltar a viver.
É neste momento, ao término do luto, quando a pessoa já se sente "recarregada o suficiente" de afeto e de energia para tentar novos projetos, quando parte suficiente do afeto que estava preso no objeto já retornou para seu próprio ego, que a pessoa consegue finalmente "sair do eclipse", pois durante o luto, como disse Freud lindamente, “a sombra do objeto cai sobre o ego”.