Em “Mozart, sociologia de um gênio”, Elias coloca em prática uma sociobiografia a partir do viés configuracional: é a obra do músico Mozart entendida a partir do conflito de padrões entre a classe aristocrática de corte ― o establishment ― e os estratos burgueses ― os outsiders. Interessa a Elias pensar essa personagem à maneira de um burguês a serviço da corte em um período em que o gosto da nobreza de corte estabelecia o padrão para a produção artística de todas as origens sociais.
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Do ponto de vista teórico-analítico, diríamos que a biografia de um artista pode tornar-se heurística de uma configuração e dos processos de longa duração sócio-histórica por que passa essa trama de valências funcionais. Assim, a partir da biografia de uma única pessoa, Elias mostra ser possível construir uma narrativa histórica que elucida de que maneira os processos configuracionais se imbricam ao fluxo-fantasia individual no forjamento da idiossincrasia artística. Com isso, mais do que vislumbrar na historicidade individual a chave para compreensão da sociedade, o autor indica que esse procedimento teórico-analítico consegue esquivar-se de uma narrativa histórica estática, fundada em rupturas. Ao contrário, o esforço analítico empreendido constrói uma narrativa do processo, em que dois padrões de criação artística coexistem, e tem implicações diretas na trajetória biográfica da personagem estudada, motivo pelo qual não se pode classificar Mozart como músico de corte ou músico burguês. A criatividade artística do músico é construída precisamente no limiar entre aqueles dois mundos: círculos da aristocracia de corte e pequena burguesia.
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Se de um lado, o indivíduo Mozart é retomado como personagem paradigmática e elucidativa de uma determinada trama de interdependências sociofuncionais, assim como dos respectivos processos históricos atrelados a ela, por outro lado, a própria configuração sócio-histórica é frequentemente acionada para compreender a idiossincrasia criativa do artista: “O destino individual do artista, sua sina como ser humano e portanto como artista único, foi muito influenciado por sua situação social” (ELIAS, 1995, p. 18). Assim, ao passo que retoma o tema do fluxo-fantasia pessoal, aludindo à busca criativa da personagem por singularizar-se, o autor confere igual relevo às regularidades e resistências que confrontam o desejo criador no mundo material. É precisamente a tensão contida na dualidade compreendida pelos padrões musicais da aristocracia de corte e pelo desenvolvimento das possibilidades individuais de expressar sentimentos, que cria a idiossincrasia biográfica do artista.
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Elias conclui então que o empreendimento artístico de Mozart logra êxito na medida em que contemporiza a inventividade do fluxo-fantasia e o conhecimento das regularidades do material, satisfazendo as demandas tanto de uma instância como de outra. Assim, para a concepção de suas obras, tão importante quanto o reconhecimento entre aqueles que contratavam seus serviços, o que o levava a um ajuste fino em relação à tradição musical cortesã e clerical, era o autoquestionamento sobre o que efetivamente lhe agradava em particular, que o movia a uma aspirada e gradual autonomização.
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Como empregado permanente de patronos filiados à nobreza cortesã — como o conde Colloredo, arcebispo de Salzburgo —, Mozart compunha divertimenti, marchas, sonatas de igreja, missas ou qualquer peça que se adequasse à moda do tempo, assemelhando-se aos padrões musicais mais prezados na escala de valores da sociedade de corte. De um lado, a semelhança em relação àqueles padrões — a insistência em ter o valor de sua obra reconhecida entre os membros do establishment — compreende uma necessidade objetiva, na medida em que os músicos de seu tempo dependiam do financiamento do patronato aristocrata para subsistência material e artística, mas é igualmente subsídio para a construção de sua estrutura de personalidade, conformando possibilidades e impossibilidades criativas. “Mozart (…) tinha em parte abraçado a tradição musical da corte entre seus ideais, como parte de sua própria personalidade”, observa Elias (1995, p. 21). Por outro lado, o interesse por diferenciar-se é suficientemente grande para gerar conflitos e, enfim, determinar seu rompimento em relação ao seu patrono. Tornar-se um artista autônomo, apesar do risco que colocava em jogo “toda sua vida e a sua existência social” (ELIAS, 1995, p. 33), respondia à necessidade de dar sentido à sua própria existência, de dar vazão às fantasias musicais que inesperadamente ganhavam forma em sua mente. Com isso, o desejo de emancipar-se das diretrizes patronais e do pai que o educara para tornar-se um homme du monde de polidez cortesã ganha, enfim, tanta importância analítica quanto as regularidades do mundo material encontradas naquela configuração marcada pela relação conflituosa entre outsiders e establishment.
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O Mozart de Elias talvez jamais tivesse alcançado a classificação post mortem de “gênio” caso decidisse — como seu pai — obedecer docilmente às ordens de seus patronos e utilizar a maior parte de sua energia em favor da tradição da música de corte. Colocar a sua autonomia artística em confronto com o arcebispo de Salzburgo e aquilo que ele representava — a estrutura de poder clerical-cortesã — teria sido fundamental para o seu guindamento a “artista singular” e para a construção da perenidade de sua obra. A análise Mariella Pitombo Vieira (2003) sobre o Mozart de Elias converge com a interpretação desenvolvida até aqui, segundo a qual o desejo por diferenciação em relação às contingências configuracionais é um elemento analítico primordial para a análise sociobiográfica.
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O uso recorrente da ambivalência contida no par tensão/acomodação presta-se ao objetivo de reconstruir a configuração sócio-histórica enquanto trama reticular, na qual cruzam-se vetores de controle e autocontrole plasmados na formação da estrutura de personalidade das figuras diversas ali postas. Aquelas pressões e coações não são vistas, então, como partes de um ente coletivo externo, mas como partes internas e constitutivas de estrutura de uma função psicológica denominada superego, terminologia tomada de empréstimo de Freud para evocar a “marca da sociedade no ser interno”. O superego, ao aparecer como autocoerção, regula as pulsões do próprio indivíduo, mas também regula os demais. Nos termos do autor, “é a autorregulação do indivíduo em relação aos outros que estabelece limites à autorregulação destes”. Essa “modelagem” psíquica torna semiautomático o comportamento socialmente desejável — afinal, os padrões sociais convertem-se em questão de autocontrole interno — fazendo com que aquele modo de se comportar pareça ao indivíduo ter resultado de seu livre arbítrio.
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Chegamos, pois, a uma justaposição entre a dinâmica da economia psíquica e pulsional dos seres humanos, que o autor chamará de psicogênese, e a construção da estrutura social de personalidade, a sociogênese. A segunda incide diretamente sobre a primeira, fazendo com que os esquemas de disposições e aprendizados que compõem a criatividade artística de um indivíduo — o seu fluxo-fantasia — só possam ser vistos como resultado do imbricamento entre ambos. Essa dinâmica de atravessamento e congruência é narrada em inúmeras passagens da sociobiografia de Mozart, frequentemente em termos da faculdade de improvisação do artista em relação aos padrões artísticos cortesãos. Elias dirá que “sua educação básica ajudou-o a adquirir a capacidade de improvisar musicalmente ao gosto da época, ou seja, da maneira exigida pelos padrões da classe dominante” (ELIAS, 1995, p. 41). Em outros termos, Mozart não rompe definitivamente com o modo tradicional de compor da aristocracia de corte. Ao contrário, desenvolve suas possibilidades individuais de expressar sentimentos — inclusive a faculdade de improvisação que deixará marcas nas formas de compor de seus epígonos — dentro de estrutura de padrões antigos nos quais crescera e em relação à qual o pai fora um importante mediador.