Neste livro, o único traduzido no Brasil pela incansável Régine Robin, a historiadora trata não mais dos abusos da memória, mas daquilo que se derrama para fora do cálice dos abusos, aquilo que satura determinados movimentos de rememoração. Como por exemplo o Holocausto e o Shoah. Além de serem muito utilizados na ficção, algumas pessoas os saturam com relatos ficcionais que se passam por verdadeiros. O mesmo pode ser dito do Velho Oeste Americano e da construção do Estado de Israel. O primeiro, abusado na forma primária da autobiografia de Buffalo Bill, sobre a qual se criou todo um imaginário e uma estética western. O segundo, sobre a memória nacional de um país que nunca existiu e que foi fabricado como reduto dos judeus após o Holocausto. É essa memória saturada do Estado de Israel que leva a conflitos como os desse mês, em que Donald Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel sem nem sequer a própria nação de Israel ter pedido reconhecimento. Jerusalém é um problema de memória coletiva e nacional. É também um entre-lugar, já que não pertence nem a judeus, nem a muçulmanos e nem a cristãos e ao mesmo tempo é um lugar sagrado para todas essas culturas. O Estado de Israel e Jerusalém, as guerras e intifadas no Oriente Médio são uma prova de que o ser humano precisa de caixinhas para suas memórias, como se suas memórias fossem suas posses. E aí entra outro fator estudado por Robin neste livro: a força do esquecimento e da reconstrução das memórias. Judeus reconstroem suas memórias de Israel de acordo com sua cultura e memórias do povo. O mesmo fazem os muçulmanos e o mesmo fazem os cristãos. Cada qual com seu lugar sagrado. Mas essa sacralidade, o rito que se torna mito, o habitus da veneração não cabem dentro de um muro, de uma mesquita ou de um sepulcro, eles precisam se estender para uma cidade inteira. E aqui existe uma proximidade com os conceitos de lugares de memória de Pierre Nora: a memória nesses lugares, mesmo que ressignificada, tem um impacto tão forte na constituição de identidade de um povo e de um indivíduo. Esses povos-nações, para não ficarem sem sua identidade, precisam lutar pela posse desses locais sagrados, como que se fossem despojados de sua personalidade caso estes locais fossem destruídos ou tomados por outra cultura. Num tempo em que a pós-modernidade e a internet (sim, isso também é bastante abordado por Robin, mesmo com oitenta anos, ainda ligada na tecnologia) fazem uma bricolagem de culturas influencias, hibridizam-se, recolhem restos do passado e os projetam no futuro, é embasbacante ver que algumas culturas não conseguem conviver em paz. Essas culturas se mantém como inimigos jurados e figadais desde o início do mundo, como a Bíblia, o Torá e o Corão, outros três elementos de memória saturada, atestam. O século XXI tem se mostrado, talvez, o último bastião da guerra entre tradição e vanguarda, em que esse tipo de conflito se acirra ano a ano. Nessa conclusão de embates, ou se chegará a uma memória e uma identidade pós-moderna, que irá englobar todas influências e transformá-la na sua riqueza, ou o mundo cultural entrará num colapso e será dominado por uma e tirânica cultura que irá sobrepujar todas as outras, saturar e transbordar e encher os oceanos de sua influência. Acabamos na questão: preservar ou não a memória nacional? E caso positivo, que parte dela preservar e por quê? Duas questões que o mundo globalizado pelo inglês e pela internet precisa resolver para ontem.