Tua roupa em outros quartos é um romance sobre distâncias, trânsitos e caminhos que os afetos atravessam para continuar existindo, se transformar ou por fim acabar mesmo. Com o mar entre o Brasil e Portugal, as memórias do narrador vão se formando através de descrições melancólicas, desencontros tensos e diálogos tão oceanicamente turvos como todas as relações familiares.
Aqui, praticamente cada capítulo representa uma travessia: a formatura se junta ao retorno ao Brasil, depois de uma temporada em Portugal, para mostrar que as fases da vida passam com a mesma velocidade das certezas que o narrador tem de suas decisões. Como todos somos mais ou menos assim, o livro parece muito próximo do leitor, construindo uma intimidade típica da literatura portuguesa. Antonio Pokrywiecki é brasileiro, mas tem evidentemente mais que um pé na terra de José Luiz Peixoto e Inês Pedrosa, dois autores que parecem influenciar o atrito lírico que move as páginas de Tua roupa em outros quartos.
O leitor vai perceber que se debruçar em um romance como esse não é apenas atravessar uma boa história. A névoa que escapa no final do livro mostra que se as imagens se formaram com tanta dificuldade, vieram para ficar. Na nossa literatura e na vida das personagens...
Inescapável começar de outro jeito: excelente título. A história é escrita de maneira detalhista e tem as qualidades e defeitos da escrita detalhista (por um lado imersão; por outro, esporádica dispensabilidade). O ponto alto do romance são os cenários, bem construídos. Há poucas personagens marcantes, mas que valem o envolvimento com o leitor: a personagem Margarina e o cantor Galini, por exemplo. Um livro de um escritor jovem, promissor e que, como boa parte dos escritores jovens e promissores, aborda uma espécie de desorientação geracional. Para materializar esse conflito, Antonio trabalha o despertencimento geográfico entre personagem, o país familiar e o país hostil.