Ana Margarida de Carvalho é conhecida como romancista. Com Que Importa a Fúria do Mar e Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 2013 e 2017. Este seu primeiro livro de contos evidencia o seu talento para a narrativa breve.
ANA MARGARIDA DE CARVALHO nasceu em Lisboa, onde fez a licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa (1992). Viria a tornar jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa de Imprensa. Passou pela redacção da SIC e publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claire e na Visão, onde ocupa actualmente o cargo de Grande Repórter e faz crítica cinematográfica no roteiro e no site de cinema oficial da revista, o Final Cut. Leccionou workshops de Escrita Criativa, foi jurada em vários concursos oficiais e festivais cinematográficos e é autora de reportagens reunidas em colectâneas, de crónicas, de guiões subsidiados pelo ICA e de uma peça de teatro.
Contos com temáticas muito diversas e extremamente inovadoras. É a primeira vez que leio Ana Margarida de Carvalho e fiquei agradavelmente surpreendida com a forma inteligente como escreve e encadeia as ideias. A maioria dos contos são “fora da caixa”, as personagens e a história têm características únicas que cativam e prendem.
Conhecemos um português que para fugir à miséria, converte-se ao islão, mas que gosta demasiado da vida para se tornar num homem bomba. Cruzamo-nos com um refugiado sírio pessimista e taciturno que há cinquenta anos assumiu a identidade do irmão optimista que ele não conseguiu salvar. Acompanhamos a agonia de uma guionista de telenovelas cuja ansiedade a faz transpirar muito, o que a leva a refugiar-se novamente na casa dos pais, onde vai descobrir aquilo que reprimiu durante toda a vida. Num outro conto, encontramos um homem que recebe um diagnóstico de cancro do pulmão e compara o turbilhão de sentimentos, à centrifugação de uma máquina de lavar roupa que gostava de observar quando era criança. É-nos ainda dado a conhecer um homem encarregue de escrever as palavras que assinalam o primeiro ano da morte de uma ex-colega, que se refugia numa ilha remota com um nevoeiro sempre presente que lhe enturpece o pensamento. Num outro conto, temos Elvira, a mulher dos dedos irrequietos, sismógrafos, desastrados, que tem sempre coisas a cair dentro dela. Noutro, temos uma casa cheia de gémeos, onde é muito difícil ser ímpar onde só há pares. E o irmão génio de Sillicon Valley, que regressa a Fátima para iniciar um negócio improvável. Leiam, que vale muito a pena.
Se posso dizer que gostei, sem arrebatamentos, desta coletânea, não poderia deixar de distinguir dois belíssimos contos, que revolvem a enigmática relação entre o Homem e a morte, com Deus como leal intermediário. “A troca” e (o fabulístico) “Eremitério de boas intenções” encerram em 13 páginas o âmago da labiríntica paixão pela vida.
Contos desiguais, mas uma escrita ímpar, como nos restantes livros que li da autora. Recomendo sobretudo o melhor e mais emotivo conto da coletânea: "Do Inferno ninguém regressa".
Ana Margarida de Carvalho consagrou-se no panorama literário nacional com os seus dois romances já publicados, o de estreia, Que Importa a Fúria do Mar, e o seu segundo, Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato, ambos vencedores dos prémios APE nos respectivos anos, 2013 e 2016. Aguardava-se, portanto, com alguma expectativa, o regresso da autora, que nos chega desta vez com os seus primeiros passos no formato do conto, em Pequenos Delírios Domésticos, título retirado de uma canção de Sérgio Godinho, editado pela Relógio d’Água.
Entre dois poemas, surgem-nos doze contos, mas ainda antes há espaço para um primeiro texto, o único que não é ficção, Chão Zero, uma elegia à casa dos bisavós, ardida nos recentes incêndios de Outubro de 2017. Não obstante a carga emocional que traz consigo, marca-nos ainda mais pela proximidade do acontecimento, o luto é recente e o texto um relato das sensações da autora perante a casa: “Tenho de reportar a minha infância ardida e dão-me um formulário da Protecção Civil”.
Uma das fragilidades da colectânea que começa realmente depois deste texto, acaba por ser, infalivelmente, a dispersão de temas entre contos, principalmente porque há também uma elevada disparidade de interesse entre eles, os primeiros mais dedicados a temas humanitários da actualidade, como o caso do senhor Saadi, um refugiado sírio que na verdade não se chama Saadi, em Do inferno ninguém regressa, confinado a um lar onde, apesar das boas intenções, não lhe é permitida a saída; ou a história de um jihadista português regressado a casa, em A Troca, que termina com danos sobre um cardume de tainhas.
O conto que dá título ao livro, Pequenos Delírios Domésticos, onde a narradora descobre que a governanta da sua casa de infância escondera durante toda a sua vida dois refugiados judeus da segunda guerra mundial no sótão, começa a indiciar uma mudança de tema para um cariz mais idiossincrático e hermético que marca os restantes contos da colectânea. Uma vida de Centrifugação, memória da infância passada a deleitar-se com a máquina de lavar roupa, enquanto censurado pela empregada doméstica delatora da PIDE, um dos melhores contos do livro, dá início a esta segunda secção onde nos contos, diferentes dos primeiros, e melhores, se acrescenta, à crítica aos tempos de hoje que também está presente nos primeiros, um elemento de absurdo reminiscente de uma certa vaga de contistas sul-americanos.
Por entre um conto onde o rio Tejo é transformado em megalómano parque de estacionamento para a cidade de Lisboa, ou outro onde um condenado à morte morre envenenado antes de sofrer a injecção letal, dois contos sobressaem. O primeiro, Os elefantes têm sismógrafos nos pés, é retrato de uma ilha inserida em profundo nevoeiro húmido, para onde um homem se evade na tentativa de escrever as falsas últimas palavras de uma falecida, a pedido da própria, para que a recordem na missa do primeiro ano do seu falecimento. O segundo, O nome que te deram antes de nasceres, sátira à filosofia do empreendedorismo e à religião, fala-nos de um “um geek no ringue das startups unicórnios, de mil milhões de dólares, (…) apanhado à saída do Técnico para ser CIO de uma empresa sedeada no Arizona”, que inventara uma aplicação que consistia em atribuir a cada angústia “a melhor divindade de entre todas as religiões, crenças, igrejas, cultos, devoções, búzios, xamãs e orixás do planeta”, selecionando, consoante a localização do utilizador, qual “a conduta divina mais adequada à apoquentação”. Obrigado a regressar à sua terra natal, Fátima, após a morte da sua mãe, tem de cuidar da irmã mais nova que, portadora de uma deficiência cognitiva, é apenas capaz de exclamar “Nossa Senhora!”
Não descurando o seu talento para a narrativa breve, é precisamente nos contos de maior tamanho, aqueles onde há mais espaço para a narrativa se entrelaçar entre si e, posteriormente, se voltar a colocar em ordem novamente, que as qualidades que já tinha evidenciado nos seus romances anteriores têm mais espaço para se revelar nesta nova luz. Não é que nos contos mais curtos o estilo torrencialmente arrojado da autora não funcione, mas dá por si a não dar espaço para respirar a uma narrativa, que, em versão grande, tem como se espraiar. Nos melhores momentos do livro, Ana Margarida de Carvalho, é capaz de fazer aquilo a que se propõe: ser arrojada, virtuosa, e pôr-nos a pensar sobre o mundo de hoje, e só por isso já vale a pena ler este livro.
Em Outubro de 2017, o fogo entrou pela terra adentro. Ceifou árvores, florestas inteiras, casas e alfaias agrícolas, décadas de trabalho, dezenas de vidas. Na aldeia do Couto do Mosteiro, em Santa Comba Dão, a casa de família de Ana Margarida de Carvalho foi uma das que não escapou à fúria cega das chamas. De meados do século XIX, do tempo dos seus trisávos, a casa guarda hoje as paredes graníticas ao alto, no seu interior apenas escombros, despojamento e devassidão. Dela restam memórias em forma de cheiros, de sons, de cores, de palavras ciciadas ou de gritos felizes das crianças, do toque das mãos da velha criada ou do estalar do trovão cada vez mais próximo. É esta casa – o que foi e o que é - o ponto de partida e chegada de “Pequenos Delírios Domésticos”, primeira incursão da escritora no mundo do conto.
Colando o título deste seu livro ao de uma canção de Sérgio Godinho, do álbum “Tinta Permanente” (1993), Ana Margarida de Carvalho oferece-nos um conjunto de contos fortemente marcados por esta noção de casa enquanto ideia de território, espaço de pertença, real e concreto ou do domínio da memória, apenas. Nela vivem, a ela chegam ou dela partem figuras como Manuel, um pouco resoluto bombista-suicida, a sobrevivente Andreia, o deslembrado Saaid, o ensimesmado Jorge ou o esquecido Jaime. Com eles trazem histórias de uma tristeza imensa, de pura resignação ou de seguir com a vida em frente como quem arrasta o mundo atrás de si. É neles que a autora encontra os pretextos para falar de temas tão actuais como os extremismos, o preconceito, a solidão, a intolerância, a falta de solidariedade ou a estupidez do ser humano, doença que avança para a cronicidade e que vai minando por dentro a nossa sociedade.
Não poderia terminar esta breve recensão crítica sem dedicar uma palavra a “Chão Zero”, conto de abertura do livro e que o marca de forma indelével, como uma dor em moedeira que está lá mas da qual nos distraímos, ou porque concentrados em algo que reclama o máximo das nossas energias ou porque há dores que se sobrepõem umas às outras, trazendo com elas o primado do mais forte. Como um lamento (ou será um grito?), “Chão Zero” é de uma verdade e de uma intensidade tocante, que nos dilacera e faz sofrer, ao mesmo tempo que expõe, de forma clara, a extraordinária qualidade da escrita de Ana Margarida de Carvalho. “Quase tudo o que ler a partir daqui é mentira”, adverte-se o leitor na volta do conto. Talvez não seja bem assim, entre a mentira e a verdade uma linha tão ténue que só olhos atentos e cabeça fria conseguem descortinar. Mas não deixa de ser uma bela metáfora destes estranhos dias que correm.
Habitualmente, evito a leitura de livros de contos: sou leitora de fôlego longo, gosto de narrativas extensas, complexas, gosto de andar com uma história na cabeça vários dias, de acompanhar a evolução das personagens e do enredo... Mas a Ana Margarida de Carvalho consegue a proeza de escrever contos fascinantes, capazes de nos obrigarem à releitura e à reflexão continuada, que resulta de um deslumbramento pela língua, manipulada de forma precisa e sempre surpreendente. Do melhor que li este ano.
Nesta compilação de pequenas histórias, sobressai um estilo errático. Não há um fio condutor nas temáticas, o estilo e os ritmos mudam a cada conto. O livro parece um laboratório de experiências narrativas. Já em "não se pode morar nos olhos de um gato" senti algumas diferenças abruptas entre capítulos no modo de contar. Na altura pensei que a autora ainda não se tinha "encontrado", apesar da excelência da sua escrita. Agora começo a achar que esta errância pode ser o seu estilo. E para ser franca aprecio-o bastante. Pela imprevisibilidade, pela novidade, porque não se deixa fixar. Mais do que as histórias em si foi esta alternância de registos que me prendeu ao livro. Ainda assim, ficaram-me na cabeça as histórias da família que vivia no sótão e a da última refeição de um condenado à morte.
Pronto, lido já está! Se a leitura me agradou? Isso já é outra conversa, resposta: Não! Nada a ver com a qualidade literária da obra, como é evidente, nem eu teria capacidade para tal...aliás, trata-se de uma obra premiada pela APE, com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco de 2017. Aqui apenas me manifesto em questões de gosto e prazer de ler, e quanto a este livro não tirei grande satisfação na leitura. Enquanto lia o conto "O nome que te deram antes de nasceres" só recordava o romance " O Meu Irmão " de Afonso Reis Cabral, obra também muito premiada mas, que igualmente não foi lá muito do meu agrado...
Iniciei esta leitura com expectativas baixas e um pouco a medo, já que a modalidade do conto não costuma cativar-me e que o estilo de Ana Margarida de Carvalho nem sempre consegue aproximar-se do que considero uma experiência de leitura agradável. No entanto, fui agradavelmente surpreendida com esta coletânea de contos que me manteve interessada do início ao fim, cada um com uma trama que a escrita intrincada da autora apenas enriquecia.
Os meus contos preferidos foram “Do inferno ninguém regressa”, sobre um idoso num lar para refugiados do Médio Oriente, pela forma como conjuga o tratamento da terceira idade e o de pessoas traumatizadas, e “A última ceia”, pelo conceito já por si curioso de uma família em que todos são gémeos, à exceção do que partilhou o útero com um irmão que morreu à nascença. Fascinou-me, ainda, a atualidade do “Eremitério de boas intenções”, sobre o conflito entre duas famílias motivado pela cisão ancestral entre palestinianos israelitas, prova de que a literatura é uma cápsula de intemporalidade.
Assim, “Pequenos Delírios Domésticos” conquistou meritoriamente um lugar no meu pódio de obras de Ana Margarida de Carvalho, juntamente com “Que Importa A Fúria do Mar” e “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato”.
“Se orações de gato chegassem ao céu, choviam jaquinzinhos”
A escrita é poética... mas tal como eu não gosto de um bom embrulho a uma caixa vazia, gosto quando estou a ler sobre alguma coisa. Que as palavras apontam para algum sítio. Mas como aprendemos com todos os livros....
Narrativas breves e erráticas, mas com a qualidade de estilo e linguagem a que a autora já nos habituou. O conto não será o seu melhor meio de expressão literária, contudo é surpreendente a alquimia de palavras que usa neste género narrativo, condensando poucas personagens numa única ação, de curta duração temporal e de concentração de espaços ao longo de doze contos. Os últimos são mais interessantes, onde se criticam os tempos modernos com notas de absurdo, conduzindo-nos a pensar em temas atuais como a transfiguração de um espaço do rio Tejo num parque de estacionamento absurdamente megalómano ou no fanatismo religioso em torno de Fátima e de como um Nerd CEO autor de uma startup cria uma app para curar todas as maleitas, preces, pedidos e demais aspirações e que acaba ele próprio sucumbido ao negócio de família... A autora que inicia com "Chão Zero" - texto biográfico avisando logo que tudo o que o leitor ler a seguir é mentira, cria no leitor uma ambivalência de expectativa e de deceção simultaneamente pelo tom e temáticas tão dispersas e inconstantes, valendo-nos a forma sóbria e virtuosa da sua magnífica escrita.