A última tragédia é o primeiro livro da Guiné-Bissau traduzido internacionalmente. Importante.
E seria um livro importante necessariamente um livro bom?
Os temas discutidos são obviamente relevantes. Oh não colonialismo ruim, racismo ruim, como é péssimo casamento forçado. Legal, concordo, parabéns. Acho sempre importante deixar claro que a mensagem do livro é importante, e essa é a palavra chave, e o núcleo dessa tese. Um livro de ficção não se sustenta apenas em sua ideologia. Ajuda, obviamente, denúncias sociais e responsabilidade com a realidade são peças importantes, tudo não pode ser meramente arte pela arte. Mas pelo menos um pouco de arte tem que ter.
Ndani é uma jovem que quer uma vida melhor, vai trabalhar de servente para uma casa de brancos, o genérico acontece, ela lentamente se insere naquela sociedade e lida com o contraste. Ok. Por 2-3 capítulos, o livro é funcional, mesmo que simples, com situações razoavelmente interessantes. E subitamente saltamos de PoV e pulamos anos para o futuro, com pouquíssima explicação, entrando em tangentes longas e desnecessárias. A mudança de foco quebra o ritmo, estraga a construção de personagem, e Ndani subitamente torna-se no máximo coadjuvante em sua própria história, perdendo qualquer voz e importância narrativa, sendo obviamente a personagem mais interessante na obra, de longe, abandonada em sua própria tragédia. Poderia tentar filosofar sobre como o abandono do autor reflete a forma que a sociedade a trata, e ser deixada de lado pela narrativa é apenas mais uma tragédia sofrida pela mulher negra colonizada. Poderia, mas a possibilidade de inventar justificativas forçadas não conserta um livro.
Linguagem repetitiva, pensamentos circulares, páginas e mais páginas que não dizem nada, as 150 páginas que parecem muito mais. Existe muito pensar sobre pensar enquanto pouca coisa acontece, existem apontamentos óbvios (certos, mas óbvios) como "Oh não! Colonialismo não segue as palavras da Bíblia! Como pode?!", que beleza, verdade, mas é tratado superficialmente pois é o arco de um personagem que vem do nada para se tornar o terceiro protagonista dessa confusão disforme de livro.
Desfocado, perdido entre muitos temas e incapaz de aprofundar nenhum, personagens de cartolina que o autor abandona quando ameaçam se aprofundar, a tragédia mais dolorosa contida na obra foi sua leitura.