Um livro que faz lembrar "A cidade e as serras", do Eça de Queiroz. Aqui, a personagem principal também se divide entre a casa de família, na ruralidade portuguesa, e a vida intelectual em Paris. E há igualmente uma insatisfação, uma impossibilidade de encontrar um lugar, uma incapacidade em definir uma identidade. Branca vive entre o cosmopolitismo de um tédio pantanoso, feito de cinismo e desencanto, numa Paris que regurgita festivamente as suas contradições e a rude mesquinhez de Briandos, com o seu zeloso moralismo e a sua bruta incompreensão do tamanho do mundo exterior. Tenta sentir-se viva na liberdade que lhe proporciona a vida parisiense, na grandeza dos sentimentos, na descoberta do amor e do ciúme, e do que é ser mulher e do que são os homens. Tenta reencontrar-se, e às suas raízes, em Briandos, numa ideia telúrica e ingénua, de animalidade e coisas primordiais. Procura apaixonar-se, sentir-se amada, viver de forma derradeira.
Este romance foi publicado em 1968, ano em que o mês de maio se tornou tão importante. Ano em que Sartre ficaria do lado dos estudantes, durante as revoltas estudantis. Seis anos antes do 25 de Abril. É um livro portentoso, com uma escrita fluída, vibrante, ao mesmo tempo erudita e profana, delirante e lúcida. É um arremesso feminista à sociedade, mais emocional e intuitivo do que argumentativo, mas ainda assim cheio de pertinência. Muito do que é a concepção da castidade, da fidelidade, do ciúme, do amor, do feminino e do masculino é aqui abordado de forma intensa e implacável. Há um universo que Natália Correia aqui torna vivo e aceso, que estilhaça completamente o que Betty Friedan tinha chamado uns anos antes, em 1963, de Mística Feminina. Fica demonstrado não é possível conter o que uma mulher é num conceito de feminino, num conjunto de coisas, restritas e bem delimitadas. Numa Mística. Natália Correia, com a sua narrativa surpreendente e uma escrita fulminante, abre caminhos, coloca questões, destrói mitos, põe o dedo em feridas e cura males. Volta a baralhar tudo e segue, em grande aceleração com assomos surrealistas. Dá voz a uma personagem que sabe que o seu lugar no mundo não é de mais ninguém. Por mais dificuldade que tenha em perceber tudo o que se está a passar consigo, faz as perguntas e procura, e quer sentir. E é capaz de por o mundo todo do avesso. O seu mundo.