Diante das persistentes interrogações sobre o Brasil, José Murilo de Carvalho se debruça sobre eventos, personagens e reflexões capazes de oferecer caminhos para compreendermos o país que somos hoje. O pecado original da República é, assim, amostra do engajamento do historiador sempre convocado ao debate, que reúne nesta edição uma série de textos produzidos nos últimos anos, a maior parte deles para jornais e revistas. Fiel ao seu admirável percurso intelectual, José Murilo mantém em destaque os temas centrais de sua obra: a construção da cidadania e a conciliação entre democracia e república. Nessa abordagem, ganha destaque o permanente desafio da construção de um sistema representativo capaz de combinar a inclusão política e social, ou seja, a democracia. Igualmente desafiador, como se vê, é a existência no país de um regime que respeite os valores da liberdade, da igualdade civil e do bom governo, o que seria, portanto, a plena realização da república. É nesse contexto que vislumbramos uma nação que adiou a participação popular na política e que parece ainda em penitência por este e outros pecados. Para iluminar tais questões, o autor oferece uma visão consistente, clara e crítica, sempre atento ao compromisso de dialogar com o grande público, provocando a reflexão e o debate essenciais para nossos dias.
José Murilo de Carvalho é um cientista político e historiador brasileiro, membro desde 2005 da Academia Brasileira de Letras. Junto com o jurista e professor Celso Lafer, é o único historiador brasileiro a ser membro dessa Academia e também da Academia Brasileira de Ciências.
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais e do IUPERJ por vinte anos, é também professor titular de História do Brasil no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
José Murilo de Carvalho é o sexto ocupante da Cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 11 de março de 2004, na sucessão de Rachel de Queiroz. Foi recepcionado em 10 de setembro de 2004 pelo acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco.
Já é a oitava obra que leio do autor e elas nunca deixam de me impressionar, seja pela riqueza de detalhes ou pelo estilo da escrita. Este livro, em especial, é uma coletânea de artigos e entrevistas do autor com o tema "Brasil". Seu título refere-se a um suposto "pecado original" da República, que Carvalho atribui a não participação do povo na vida política. Para ele, o desenvolvimento da cidadania no Brasil deu-se de forma contrária a da maioria dos países do Ocidente (a exemplo da Inglaterra): aqui, primeiro tivemos direitos sociais, depois direitos políticos e, por último, direitos civis. Não obstante, esse desenvolvimento não se deu de forma coerente e integral. No Brasil, tivemos uma "Estadania" ao invés de cidadania e os direitos civis continuam inacessíveis à maior parte da população. Apesar de atribuir à democracia representativa a grande possibilidade de mudança da realidade do país, o autor reconhece que, em comparação a 1881 (Lei Saraiva), a participação política nunca foi tão grande, mas nunca houve tanta falta de representação e tanto cerceamento de direitos. Em outras palavras, a democratização do país não resolveu nem os problemas da igualdade, nem de uma suposta representação, que se tornou baluarte da República e redoma de políticos corruptos. Cada capítulo da obra é organizado de forma cronológica e por temas. Por sorte, os textos não esbanjam academicismos: são artigos que prezam pela informação em detrimento das formas. Há, por curiosidade, um pequeno artigo do autor dando dicas para futuros doutorandos de como fazerem suas teses (e serem aprovados!). Os temas vão desde as origens dos nomes do Brasil (Pindorama, Terra das Palmeiras, Terra de Santa Cruz, Ilha de Santa Cruz, Brazil com "z") até uma análise das músicas de artistas brasileiros, de Noel (Rosa) a Gabriel (O Pensador), e de como esses artistas abordavam o Brasil em suas músicas de acordo com as épocas em que viviam. Carvalho também trata de temas presentes em suas obras passadas, como a cidadania no Brasil, mencionada acima; D. Pedro II, por quem tinha grande admiração; os militares na formação do país (sem dar ênfase ao período de 1964-1985); o positivismo; Euclides da Cunha; a República Velha; Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, para citar alguns. Trata-se de um livro pequeno, de menos de 300 páginas, e de leitura agradável. Os textos também não precisam ser lidos na ordem em que o livro os dispõe.
Que livro! Nada como um historiador que sabe transmitir seu conhecimento ao público, sem afetações. Pela enorme erudição, pelo estilo e pelo bom-humor, José Murilo de Carvalho é um dos mais dignos membros atuais da Academia Brasileira de Letras.
"O Pecado Original da República" reúne artigos do autor, não é uma narrativa inteira de não-ficção. Por isso, aborda temas dos mais diversos (do Descobrimento aos escândalos de corrupção do PT) e é um grande recurso para quem busca enriquecer sua cultura geral. Alguns temas se repetem (como a Revolta da Vacina), mas nada que comprometa o interesse do leitor.
Esse demorou um pouquinho mais pra ler. Tem livros que pedem uma leitura demorada, que demandam que se pense sobre cada frase. Não concordo com vários pontos que o autor tenha feito, mas não importou pois o livro pareceu uma conversa. Um dialogo. Em que logo se percebe que o próprio autor pensou bastante sobre o que fala. Que ele mesmo não segue um roteiro, uma retórica, e uma ideologia inabalável. Nos dias extremamente polarizados de hoje, posições como essa hão de se admirar.