Débora percebeu, ainda muito cedo, que a vida pode ser muitas coisas, entre elas, incoerente. Há pessoas que têm muito. E há pessoas que não têm quase nada... ou nada. Como os haitianos, após os terremotos. Como os congoleses, que vivem na miséria e sobrevivem a uma guerra civil sem prazo de validade. Como as milhares de pessoas "presas" nos campos de refugiados da Líbia. Ou como as violentadas em qualquer região do planeta, em qualquer época e em qualquer idade. Débora Noal é psicóloga e decidiu dedicar sua vida, sua escuta e seu afeto àqueles que necessitam. Ela trabalha na organização Médicos Sem Fronteiras e, desde então, já participou de 15 missões. Neste livro, ela compartilha seu diário – um companheiro de todas as viagens e um amigo nos momentos de dor, conquistas e alegrias.
O trabalho da Débora é sensaciNoal (hehe). Recomendo muito para aqueles que querem conhecer o trabalho da psicologia para além do consultório e como deve ser feito um trabalho humanizado na prática <3
“Se eu deixo de sentir, como serei capaz de escutar a narrativa do humano na minha frente, que na maior parte das vezes não expressa uma palavra sequer nas línguas que posso entender? Quando me perguntam como fiz determinado atendimento nestes locais tão distantes da minha cultura e me perguntam a técnica utilizada, eu tenho dito: "Técnica? Certamente a técnica é importante, mas, quando estou na frente de um humano nas condições de tortura recente, só dou conta de me conectar com a humanidade que emana do cheiro dele, da forma de olhar, da forma de amarrar seus panos, trançar seu cabelo, do cheiro do sangue seco ou do relevo das cicatrizes que marcam seu corpo". Levei seis anos para me autodenominar psicóloga, mais dois anos me especializando e muitas noites em claro estudando técnicas de atendimento. Mas, na hora do cuidado face a face, acredito que não exista nada mais importante que sentir a pessoa com os cinco sentidos, deixando que a técnica se expresse através deles. Afinal, do contrário, serei um processador de palavras. A entrega de uma escuta com cinco sentidos, acredito eu, é percebida pela pessoa que está junto a mim. Então é isto, acho que uso a técnica mais utilizada na humanidade, a técnica dos cinco sentidos: escutar, ver, sentir o cheiro, tocar quando lhe é permitido, sentindo o gosto da humanidade.”
Riquíssima história. Fazia tempos que um livro não me fazia refletir tanto sobre a vida, sobre os meus privilégios, sobre o meu lugar no mundo. É também um livro que te faz questionar o tempo todo de onde que a autora tirou tanta coragem para seguir nas missões. Isso é algo que eu talvez nunca vá entender: de onde sai tanta força?
Ouvir é uma forma de cuidado mais importante do que a gente percebe no dia a dia. Ser ouvido é uma das melhores formas de sentir afeto. Apesar de sangrar junto à grande parte das narrativas, me sinto agraciada de poder olhar a profissão que escolhi para seguir com olhos ainda mais abertos, pós a leitura deste livro. Uma das qualidades mais necessárias à psicologia é a humanidade e de humanidade este livro está cheio.
En este libro se observa la humanidad a flor de piel. Con una visita profunda a las contradicciones que hacen muchas veces de "lo humano" algo hermoso y entrañable y otras veces algo abominable y rastrero, capaz de destruir en varias dimensiones: la destrucción de la guerra, esa estupidez sin fondo, o la destrucción de la naturaleza humana. La violencia contra mujeres y niñez, por el machismo ciego y absurdo. Débora Noal entra profundo en estas cumbres y abismos, y haciéndolo se atreve a visitarse a sí misma, a lo que la hace fuerte, pero también a sus miedos y temores. Con gran valentía y excelente calidad literaria, se abre quienes leemos, y abriéndose quizás se vuelve a romper. Eso hace de este libro un contribución maravillosa a lucha por la humanidad, al refuerzo del lado bueno de este mundo, y del cual Débora es sin duda una gran protagonista.
Um livro denso, que muitas vezes nos pede para parar e ler um best-seller de romance.
O Humano do Mundo nos faz pensar e refletir sobre o outro lado do mundo e as dificuldades que pessoas enfrentam em cenários avessos, na busca de si mesmo, de propósito pass viver e de paz!
Vale a leitura e a visão que nos traz de países em guerra, situação de extrema pobreza em um contexto que a violência sexual é mais comum do que atravessar a rua.
Como psicóloga em formação, posso dizer que esta leitura acrescentou muito ao meu lado profissional, mas principalmente ao meu lado humano. No decorrer dos relatos, alguns bastante íntimos, Débora mostra que o afeto e a empatia transcendem as palavras. Por mais desestruturado que você esteja, por maior que seja o trauma passado, sempre há algo que pode ser feito em algum momento. E pode ser algo mínimo, como o próprio silêncio. Por maiores que sejam as diferenças culturais e por mais problemático que seja o contexto, os humanos do mundo sempre buscam algo em comum: acolhimento.
"Gosto desse cuidar despretensioso de quem oferta antes de qualquer tecnologia, afeto e técnica. Nesse modo de produzir cuidado, é imprescindível antes de tudo se mostrar humano, falar também de seus medos e desejos. Se lançar ao encontro com o outro é ouvir com outros órgãos, e se deixar sentir o outro antes de tudo. Como parte da metodologia, vou escutando meu sentimento no ato do encontro e vou seguindo esta trilha que tem muitas facetas."
Situações que nem o relato da autora são capazes de transmitir 1% do que deve ser essa realidade de fome, descaso e violência. Parece um mundo paralelo, um planeta fora daqui onde não há recursos, higiene, relações humanas. Um ótimo exercício de empatia é ler esse livro. Doemos por dentro e nos questionamos por que temos chorado tanto.
"Como nós, humanos, não somos capazes de transcender ao palpável e às prisões que nos impomos em nome do material? Sigo não entendendo. Como nos acostumamos com esta rotina de ausência de vida? Como romper com esta cultura que nos dilacera a cada dia?"