O horror que brota da consciência do infinito
Procurei conhecer Lovecraft após assistir aos filmes, aos bons filmes, do Stuart Gordon baseados em seus contos; e me decepcionei. Busquei Lovecraft e o horror veio como consequência e esse horror não me engoliu porque eu estava atrás do literato, do seu estilo e da sua criatividade, as suas palavras e a sua verborragia densa se puseram diante de mim e o que eu lia não me apetecia. Eu descobri, mais tarde, que eram meus motivos que estavam errados: pois da minha necessidade de mergulhar no horror que mais tarde, como consequência, veio, como deveria vir, Lovecraft e esse horror então buscado nele o encontrei e nele as suas palavras e a sua verborragia densa me mergulharam e eu aprendi a apreciar, e muito, o seu estilo.
Por muitas vezes os narradores de Lovecraft mencionam Arthur Machen e Edgar Allan Poe e ele, Lovecraft, é realmente um composto dos dois. O Grande Deus Pã de Machen é o modelo de muitos de seus contos, arquétipo do seu melhor estilo: A Coisa na Soleira da Porta; um dos meus favoritos. O Estranho Caso do Sr. Waldemar e Manuscrito Encontrado Numa Garrafa de Edgar Allan Poe compõe outra parte de suas principais influências.
Lovecraft não é tão versátil quanto Poe: seus narradores sempre exibem uma base cética apenas para que ela seja paulatinamente derrubada pelos mistérios do universo; eles, seus personagens, embora estejam mortificados de terror são, sempre, e por uma força estranha, empurrados para contemplar os seus piores pesadelos; o horror, embora sempre inominável e impalpável, é sempre externo e não deixa dúvidas ao leitor quanto a sanidade de seus personagens; a figura feminina é quase nula em seu trabalho e não há sensualidade em seus personagens. Semelhante a Poe está o seu perfeccionismo em abordar os pequenos e mais ínfimos detalhes e a trabalhá-los de forma cuidadosa e convincente de modo a afastar de si qualquer criticismo a respeito da gratuidade e do desleixo muitas vezes imputada aos escritores do gênero. Superior ao criador do corvo é seu conto sobre vingança: A Morte Alada engole, regurgita e cospe O Barril de Amontillado sem danificar seu estômago.
Lovecraft tem mais a ver com Machen: a natureza está presente e tem voz no trabalho de ambos, ainda que um e outro a contemple de modo diverso: para o americano a natureza esconde segredos que o atormentam e o fascinam; para o galês ela é um reflexo do espírito e atende a suas demandas. Os dois estão interessados no sobrenatural; não há Dupin e seu ceticismo matemático em seus contos. Ambos os dois regem a vida de personagens condenados e vulneráveis num mundo que não controlam; embora para Machen este mundo se restrinja à Terra. E é neste último ponto que Lovecraft se destaca dos demais: o seu terror não mexe com o que há de supersticioso e cambaleante no leitor, mas com o que se pode comprovar à noite ao se observar o céu: a imensidão desconhecida para além das estrelas, a insignificância do nosso mundo e à nossa dentro dele em comparação a essa galeria negra como que iluminada por pontos referências luminosos de modo a nos sugerir a imensidão desse salão cósmico e do que seus recessos podem abrigar. Essa ciência dos limites do nosso ser e do nosso saber dá forças ao seu recorrente ''inominável'' e o seu trabalho, tomado em conjunto, é na realidade um único corpo: um mesmo mundo pequenino e risível, com um árabe louco, cidades decadentes, matas densas tomadas de olhos observadores e homens nervosos que lamentam o breve relâmpago de consciência que os levaram às raias da loucura.
14/09/2018