Em boa hora, a “Guerra e Paz Editores” deu à estampa a tradução para português de uma das obras mais importantes do século 19, aquela que, muitos intelectuais, se referem como um documento que está na génese da Revolução Russa de 1917.
Segundo Joseph Frank - estudioso da literatura americana e especialista em vida e obra do romancista russo Fyodor Dostoevsky – “o romance de Tchernichévski, mais do que “O Capital” de Marx, forneceu a dinâmica emocional que eventualmente desembocou na Revolução Russa” revelando no autor russo o papel fundamental de um escritor de construir história.
O Que Faze? configura um relato carregado de utopia e de boas intenções para um futuro melhor, para uma época que se previa, derivada de uma enorme necessidade do contexto social, uma alteração de mentalidades, da forma social, da distribuição dos ganhos e dos lucros, numa sociedade oprimida, profundamente agrícola, mas que via da figura do Czar – etimologicamente este termo deriva da palavra latina Caesar - Alexandre III, o seu imperador, pai dos povos, contudo absolutista. No sentido temporal da narrativa, vivia-se uma época em que o líder da população russa oprimia o seu povo uma vez que as reformas internas levadas a cabo por seu pai, Alexandre III optou por reverter as políticas liberais que foram, até então, implementadas.
Mas esta narrativa traz uma nova conceção de vida e de trabalho comunitário. Traz também uma nova configuração das relações afetivas entre os casais e, dentro dessa perspetiva, considero uma dinâmica muito à frente do seu tempo.
Vamos por partes:
- a ação começa apresentando-nos Vera Pavlova, jovem que vivia em casa dos pais sem nunca se ter identificado com a conceção de vida dos seus progenitores … a única saída consistia na fuga desse ambiente pernicioso para a sua forma de encarar a vida e o mundo. De forte personalidade, é a própria Verothka que sê-nos dá a conhecer. “Chama-me sonhadora, pergunta-me o que eu quero da vida. Eu não quero dominar nem ser dominada, não quero enganar nem fingir, não quero seguir a opinião dos outros, ir atrás do que os outros me recomendam, mas das quais não preciso. Eu não me acostumei com a riqueza, não preciso dela. Porque eu teria de procura-la apenas porque os outros pensam que ela é agradável a todos e, por isso, deveria também se agradável para mim? Eu nunca fiz parte da boa sociedade, não experimentei o que é brilhar socialmente, nunca me senti atraída por isso (…). Eu que nunca sacrificarei nada por alguma coisa que não me é necessária: não, não me sacrificarei nem a mim nem ao mais pequeno capricho. Quero ser independente e viver a minha própria vida. Estou pronta para fazer sacrifícios pelas coisas que me são realmente necessárias”. O extraordinário desta postura, é o seu contexto social e político da Rússia da segunda metade do século 19. Mais parece de que o autor está a caracterizar-me, eu que vivo neste primeiro terço do século 21.
Mas essa postura de liberdade e auto estima não fica por aqui. Continuando com a caracterização da sua personagem, Tchernichévski alimenta a construção de uma pessoa única: “Não quero ficar a dever nada a ninguém, de modo que ninguém possa vir até mim e dizer-me que tenho a obrigação de fazer algo por si. Quero fazer apena aquilo que desejo. E que os outros também possam fazer apenas aquilo que desejam. E não quero exigir nada de ninguém. Não quero atrapalhar a liberdade de ninguém, e quero ser livre também”.
Embora extensa, foi necessária esta caracterização da personagem de Vera Pavlona pois será à sua volta que todo o enredo e a sua importância se desenvolverá.
- Verinha, dentro dessa forte personalidade, sente necessidade de sair de casa de seus pais pois, dentro de um conflito de personalidades, principalmente, com a sua mãe, procura encontrar um caminho onde o pensamento principal residia na máxima: ”Eu não tenho medo, tenho carácter”. Casando por amor, Vera junta-se a Dmitri Lopukov, estudante de medicina e professor de seu irmão Fedor. Entre os dois, surge uma atração e uma forma muito peculiar de viver a noção de casamento: com independência física, mental e intelectual. Será esse o segredo de uma união eficaz? Estou em crer que sim. O que o casal pretendia era ter a noção de que “quando se tem a obrigação de em relação a alguém, por alguma razão especial, a relação entre os dois já está em tensão”. Nada mais certo! E quando Vera Pavlona sentiu uma atração por Kirsanov, amigo íntimo do deu marido, este optou pelo suicídio para deixar a sua amante prosseguir o seu caminho com a pessoa que passou a ocupar um lugar no seu coração, numa altura em que divórcios não faziam parte da estrutura social.
- A protagonista casa-se, então, com o médico Kirsanov que surge muitas vezes na narrativa como Alksandr, Satcha ou Kirsanov e a partir daqui é que começamos a compreender não só o que é amar alguém que “significa ficar alegre com o que é bom para o outro, ter prazer em fazer tudo o que é necessário para que o outro fique melhor. O que é melhor para ti faz-me feliz. Mas és tu quem deve decidir o que é melhor para ti. Ficar triste para quê? Se estiver bem, eu também estarei”. E mais à frente, confidencia-nos que “felicidade completa não existe sem independência completa. Pobres mulheres, somente algumas de vocês têm essa felicidade”.
- Mas a parte mais importante no contexto daquilo que Tchernichévski nos quis introduzir foi o modelo segundo o qual “o desejo de livrar-se do tédio”, entendido como o motor das nossas ações, o que levará Vera a criar um atelier de costura e será esse o fundamental aspeto, que este livro de Tchernichévski, será considerado como uma inspiração para a Revolução de 1917.
- Tendo em conta que o trabalho livre e voluntário confere “satisfação, felicidade e prazer”, Vera Pavlovna cria a melhor conceção de ciência económica em que os lucros são distribuídos por todas as trabalhadoras dos seus ateliers, em que as compras conjuntas resultam de uma redução dos preços dos bens necessários à vida, assim como formas de alojamento coletivo que levam à construção de uma ideologia económica em que todos saem a ganhar.
É muito difícil reduzir a apropriação desta excelente narrativa a uma ou duas páginas. Ela é muito mais complexa – as metáforas, as simbologias utilizadas pelo autor -, muito mais haveria a acrescentar mas deixo a quem se interessar pela leitura deste extraordinário romance, a descoberta destes e outros elementos também eles de extrema importância para a compreensão global deste romance único na história da literatura.
Deixo apenas mais quatro refelxões que me parecem fundamentais para a compreensão de “O Que Fazer? e que podem merecer a sua leitura por parte de quem ficou interessado:
- foi escrito por Tchernichévski, entre 1862 e 1864 enquanto estava em exílio na Sibéria, no qual ficaria até à morte;
- a página 345 oferece-nos uma belíssima definição sobre o que é a paixão: ”todo o ser sente extraordinário frescor e leveza. É como se a própria atmosfera que a pessoa respira mudasse. É como se o ar estivesse tornado mais puro e rico em oxigénio (…);
- a forma como o autor interage com o leitor, questionando-o sobre o desenvolver da narrativa;
- a galeria de personagens: excetuando aquelas que já foram assinaladas, uma menção muito especial para Rachmetov, talvez o avatar de Nikolai Tchernichévski e a belíssima Katerina, Kátia, Vasilevna que tudo assimilou, compreendeu e partilhou.
-