«Quem não estivesse habituado alarmava-se com a reviravolta e com o baque subsequente na areia. Passado o período de adaptação e admitindo como incontestáveis as minhas explicações (de que o sobressalto activava a circulação e era um adicional de energia para as suas entediantes existências), os aderentes ao meu método revolucionário tornavam-se entusiastas da cambalhota provocada e aguardavam com indisfarçada impaciência que os mandássemos ao ar.» Alface
«A diversidade é a alma deste livro, construído em regime de restrição sentimental. Move-se entre a narrativa breve, o conto brevíssimo, o microconto, fábulas curtas a que o autor chama «fanadas», flashes discursivos, em jeito de ensaio microscópico, como se se procurasse ensaiar as possibilidades e os limites de um formato narrativo exigente e complexo com poucos cultores em Portugal.» Teresa Carvalho, in Prefácio
Num belo conjunto de contos e microcontos, Alface recorre sempre ao humor negro, ao sarcasmo e à ironia, todos pouco habituais em Portugal. O conto «Pombinhos» é claramente superior a todos os restantes.
Embora muito frequentado pela ressonância dos títulos que deu aos livros juvenis (um pai porreiro ganha muito dinheiro), que nunca li, tenho andado longe do autor, sobretudo por estimar que isso compreendesse dedicar-me à obra conjunta com Manuel da Silva Ramos (recentemente reeditada), para a qual, confesso, ainda não ganhei coragem. Mas estes contos (ou algo assim) têm a entusiasta inventividade que a ficção portuguesa poucas vezes soube extrair do surrealismo e ao mesmo tempo o jeito para manter juntos os fios da narrativa, impedindo a balbúrdia pastosa em que por vezes vemos transformadas certas experiências exclusivamente linguísticas. A capacidade de juntar variações em pouco espaço, sem perder a graça, atinge níveis históricos sobretudo nos primeiros contos, de que se deveria destacar o antológico Edelweiss, que faz centrar uma distopia nas voltas de um confessionário. Dos contos muito breves, mais para o final, fiquei menos cliente e arriscaria ser injusto dizendo que denotam alguma desistência. O prefácio desta edição usa da liberdade e do apuro do livro e fica-lhe muito bem. Sim senhores.
Um livro surpreendente, uma escrita muito inteligente e divertida, mas de uma ironia acutilante, por vezes cruel. Os textos são curtos, para ir lendo... E são para quem gosta de ver e pensar de maneiras outras. Muito bom, mas nada recomendável a quem prefere a hipocrisia e o faz-de-conta à crueza do "pois, é a vida!". Como diria o autor: Cá p'ra mim, vale a pena, mas quem sou eu?
Depois de me ter surpreendido positivamente com o seu único romance "Cá vai Lisboa", fiquei ainda mais entusiasmado com este "Cuidado com os Rapazes", pequeno livro de crónicas muito curtas em que o autor ironiza com especial acutilância e bastante humor, alguns aspectos da sociedade e da realidade portuguesas. Pena que Alface, nos tenha deixado tão cedo...