«´Um Quarto em Atenas´ é uma sequência de poemas quase narrativos ou quase cifrados, intensos, irónicos, descontentes. Escritos em cidades estrangeiras, observam Portugal desdenhosamente (há qualquer coisa dos ´loca infecta´ de Jorge de Sena, e também temos uma ´Madrid revisitada´ que lembra as alegrias e amarguras de Ruy Belo). O registo é instável, nervoso, passa-se da bílis dos jovens poetas à ideia de ´civilização´ depois do Holocausto, da crise grega ao melodrama sofisticadíssimo. E, à sombra de Kafka, o amor parece-se com um desencontro entre a inteligência e a vontade. Especialista em Estudos Clássicos, Tatiana Faia transporta para os seus versos personagens, situações, deslocamentos. Fedra aparece, mas para aulas de natação; Telémaco está ´burocratizado´; e ´Sophia entre os constitucionalistas´ não é uma figuração abstracta da sageza, mas a escritora homónima, sentada na Assembleia Constituinte como se o poeta fosse o legislador não reconhecido da Humanidade.» —P.M.
Há um toque de descrença em determinadas observações, mas também é fascinante acompanhar a importância e o significado que atribui às pequenas coisas. Utilizando uma linguagem comum, próxima, mas sempre atenta ao que inquieta o (seu) mundo, tece uma manta com múltiplas referências: nem todas transversais, muitas delas a conseguirmos enquadrar no nosso quotidiano, até porque nos implicam. O mais interessante é que pode ser por as sentirmos na pele ou por só termos curiosidade.
Um Quarto em Atenas reserva-nos uma vista privilegiada para vários pontos. E é como se, todos os dias, pudéssemos abrir a janela e encontrar uma nova paisagem.
“ninguém aqui alguma vez dirá que das decisões a tomar muitas serão sempre entre duas coisas erradas e não é provável que o resultado final seja feliz”