O Reino Animalia é particular de entre todos os outros por, sem querer parecer egocêntrico, integrar esse suprassumo da sapiência que é o bicho-homem. Contundo, contrariando a teoria da evolução das espécies, este caval(h)eiro tomou o trono deste reino, sem para isso dar provas de ser o melhor. Aliás, ao que parece, quanto mais se relacionam entre si, mais corrompidos se tornam, numa salga dos solos impossível.
Numa historieta dilacerante dos brandos costumes que deveriam orientar a banal conduta humana, Voltaire tenta delapidar um diamante em bruto que, mais que ingénuo, é apenas literal naquilo que percepciona. Demonstra, assim, como a sociedade mesquinha e tacanha consegue transmutar quem caia na esparrela de se envolver no ambiente tóxico que ela promove. Simultaneamente, num paradoxo, aponta valores que poderão ser apreendidos através navegação pelos mares das letras, caindo no exagero da enumeração assaz de obras que nobrificam a essência de quem com elas se cruzam – e faz por as entender!
Apartando-nos dessa característica que pode retemperar o gosto pelo embrenhar nas páginas, a escrita é fluída, sem grandes marcas do tempo, levantando o véu das perversidades e da corrupção que, geradas nos mais elevados altares da sociedade, intoxicam os restantes. Saberemos destrancar esta grilheta que corrói o apaziguamento garantido pela genuinidade?
"Que fluído desconhecido é esse cuja existência é certa, que mais rápido, mais activo do que a luz boa em menos tempo do que um pestanejar de olhos por todos os canais da vida, produz as sensações, a memória, a tristeza ou a alegria, a razão ou a vertigem, lembra com horror o que se quer esquecer e tanto faz de um animal pensante um objecto de admiração como um motivo de piedade e de lágrimas?" (pág. 86)