A 4.ª edição que agora se apresenta preserva as características notáveis da edição anterior (revisão profunda, aparato crítico e capa com fotografia de Paulo Nozolino) saindo agora com uma magnífica encadernação.
«regressa do túmulo dos mares do sul enterra os dedos na penumbra que separa o dia da noite das cidades recorda o restolhar das serpentes a seiva lívida do loureiro estremecendo ao sentir o rosto da criança que foste contra o tronco
na tua memória já não existem paisagens de ossos nem pássaros nem punhais de luz dentro da insónia a criança que em ti morreu crescendo usou sapatos com atacadores e gravata pela primeira vez foi ao cinema sozinha com o olhar turvo de melancolia anda por aí à procura de quem a queira»
Al Berto, pseudonym of Alberto Raposo Pidwell Tavares, was a poet, painter, editor and cultural worker.
He was born in an high class burgeois family (with english origins from his grandmother). A year later he moved to Alentejo and in Sines he gets through all his childhood and teenagehood until his family sent him to the arts school António Arroio in Lisbon.
14th of April 1967, he went to study paiting in Belgium at the École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels, in Brussels.
After getting his degree, he decided to abandon painting in 1971 and get dedicated exclusively to writting. He comes back to Portugal at 17th November 1974 and at that time, writes his first book entirely in portuguese, Á procura do Vento num Jardim d'Agosto".
O medo, an anthology of his work from 1974 until 1986, is edited for the first time at 1987. It became his most important masterpiece and his definitive artistic testemony.
He left some incomplete texts for an opera, for a photography book about Portugal and "a false biography, as he called it.
For more information, in portuguese, go to: Wikipedia.
Al Berto é um Deus! Há tanta agonia na imensidão do mar... "...a dor de todas as ruas vazias". Medo!!! "...sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca- bar comigo mesmo". "...a dor de todas as ruas vazias". "...gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados". Pernoitas de que lado do coração? Do sagrado? "...é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro." "...a dor de todas as ruas vazias". "...sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca".
"...a dor de todas as ruas vazias". Poemas! O mar. A imensidão. E nunca mais voltar! ~~~ já não necessito de ti tenho a companhia nocturna dos animais e a peste tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração não, não preciso mais de mim possuo a doença dos espaços incomensuráveis e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto deixei de estar disponível, perdoa-me se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
**** silentes paredes onde a beleza cruel do néon escorre ao fundo... a porta de madeira um dia será pintada e do outro lado dela a misteriosa sala vazia cheia pelo contínuo barulho de aço do exaustor
lá fora começou a chover parece ter anoitecido de repente... e o Escuro com o seu brinco de adesivo corre para as crianças esse cão que detesta gente fora de ritmo
belíssimas paredes nuas estantes de livros sobre mesas de madeira espessa que os dedos reconhecem nalgum sonho de Lisboa...
dos cachalotes, é o espermacete que me embriaga a adolescência o olor quase insuportável de tenebrosas orquídeas bordadas aos alicerces ancestrais da casa a vegetação meticulosa, com suas seivas lentas, onde o corpo ou um inocente desejo se escondem os tanques onde lavam roupa e os répteis esquivos parecem devastar o sonho inundando-me a boca com densos venenos nas pálpebras, interrompe o musgo seu minúsculo crescimento respiram bolores enquanto as polposas flores chamam a si as zelosas abelhas
apesar de tudo o corpo prepara-se para o grito é-me dolorosa a memória daquele lugar de água luminosa só os dedos sujos de terra e visco aprenderam a peregrinar sobre os intermináveis mapas percorreram sobre a mesa a rota dalgum albatroz perdido espremeram frutos, que têm sabor a noite e trazem demorados amores
A minha edição não é a 4ª mas a 3ª (2005); não obstante, mesmo sem as revisões acrescentadas aquando da 4ª edição, "O Medo" é um dos livros mais fantásticos que já li. Criei uma relação muito viva e rápida com a obra de Al Berto: durante anos a fio foi um companheiro fiel nas minhas noites de insónia, se houve autor e obra que estivesse sempre presente nessas fases turbulentas de cansaço, inquietude e de inspiração, esse autor foi certamente Al Berto. Todas as sensações carnais se tornam etéreas na escrita de Al Berto... Li tantas vezes estes poemas que certas páginas parecem ter as minhas impressões digitais nas margens, tanta foi a força, tanta foi a atenção que lhes dediquei, como um súbdito, como um crente, como um monge copista lentamente copiando (para dentro de si) as palavras de uma escritura sagrada...
"vou partir como se fosses tu que me abandonasses"
No início não foi fácil. Na verdade, não foi fácil até ao fim, mas o início é extremamente denso, praticamente impenetrável para mim, pior que os textos em francês, que ao menos esses, tratavam as coisas pelos nomes, forte e feio. Eu achei que depois das 900 páginas da Sophia e das 800 da Maria Teresa estava preparada para estas 700, mas enganei-me. Andei ali um certo tempo a digerir o começo. É preciso coragem e resiliência para enfrentar o medo. Foi avançando assim que a densidade se dissipou na paisagem do litoral alentejano e já era a minha praia, ou melhor, a que eu reconheço com umas décadas a menos. Gostei dos poemas sobre pinturas e esculturas, estranhei não ver nada de Caravaggio, pintor que influenciou o retrato do autor na capa. Uma enorme variedade de estados de espírito, do delirante ao deprimente, passando pelo brilhante. Poesia com muita prosa.
Entre o erotismo e um certo teor de metafísica, Al Berto revela-se um dandy da poesia -- munido do seu casaco de fato, mas com a camisa propositada e elegantemente desapertada
um barco tremeluz nas cortinas do quarto. o horizonte é negro. a luz do dia extinguiu-se subitamente. as mãos com que te toco, luminoso afogado, não são verdadeiras nem reais - porque o tempo todo talvez esteja onde existimos, embora saibamos que nesse lugar nunca houve tempo nenhum.
A 1ª edição d'o medo (não aquele tijolo da assírio & alvim que durante uns anos andou na mesinha de cabeceira da pseudo-intelectualidade metida ao alternativa), li aos 16. Edição da Contexto se não estou em erro, o Al Berto estava ainda a uns anos de ter o relativo reconhecimento que teve, é como dizer, a uns anos de morrer num horto de incêndio. Não tive medo, tive bem acompanhado. Pena ter devolvido o livro à biblioteca. Saudades do Al Berto, o rebelde vivo da minha adolescência. "Enquanto seguido serei sempre um fugitivo". Sangue, é preciso sangue para se escrever e para se ler O MEDO.
Nunca demorei-me tanto em um livro de propósito e possivelmente o luto literário perdurará uns anos daqui em diante. O medo, uma das maiores delícias que coloquei na boca. Cada verso. Cada pulso se abrindo. Cada palavra. Ah, Al berto... foste e sempre será um dos grandes nomes. Que obra magnífica.
já não necessito de ti tenho a companhia nocturna dos animais e a peste tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras [galáxias, e [o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração não, não preciso mais de mim possuo a doença dos espaços incomensuráveis e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto deixei de estar disponível, perdoa-me se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo"
Um livro denso, difícil, excelso. A minha bíblia. A verdadeira prova de que a poesia é a arte mais envolvente de sempre. Um conjunto de obras magníficas que tive o privilégio de ler e aprender.
“Sinto que há uma estranha eternidade/naquilo que amámos e foi destruído”
Não saberia como avaliar este livro. Em si contém tanto e tantos universos dentro de uma vida poética. Rapidamente descobre-se que antes de ser poeta, Al Berto era pintor, pois as suas palavras são pedaços de tinta na tela que são os seus poemas; são imagens sob imagens que retiradas do contexto podem perder o nexo, mas quando embrenhado na poesia o leitor terá como suas companheiras nesta viagem por entre símbolos e imagens que é esta poesia. Há aqui uma sensação cronológica que é interessante, pois no início sente-se muito a morte e a decadência a rondar a essência dos poemas e no final sente-se mais algum tipo de vida ou de remoer da memória, mas menos apego à poesia, quase que um final com medo da poesia e das suas consequências. Também é por si interessante que os poemas quase todos vão escoar ao tema do corpo, quase a uma sensação poética de sensualidade corporal. Normalmente está envolta em restos humanos, em marcas no corpo, em ilustrar um corpo consumido pelo mundo, entregue à poesia. Uma carnalidade mundana e por vezes metafísica que clama por um mundo poético de modo a escapar ao telúrico, ou como expressão desta fuga. Há muito a retirar deste livro que, na verdade, é um conjunto de livros e espero revisitá-lo ainda muitas vezes ao longo da minha vida. Capturar mais alguma imagem perdida ou alguma palavra que marque. É um trabalho um pouco transcendental e abstrato em várias instâncias e ao ler há pouco tempo o ensaio The Poet de Emerson li esta frase: "I think nothing is of any value in books, excepting the transcendental and extraordinary.". Talvez tenha sido isto que me aproximou deste livro também esta curiosidade e fascínio por este extraordinário e transcendental. Porém, ao mesmo tempo, quando sentia que não resultava para mim também me fazia afastar dele. Por vezes, as imagens produzidas eram como traços demasiado abstratos que não se encontravam num quadro incompleto. Por vezes, a mesma imagem é repetida e invocada vezes sem conta para diferentes poemas e sensações, quase que para valor de choque, para um certo abstracionismo que roça a pretensão. Por vezes, senti um certo desconforto com a violação da finitude de uma imagem, com a compreensão dos seus limites, como se houvesse necessidade de estender uma imagem criada para lá dos seus limites. Estou certo que de cada vez que revisitar este livro terei mais mil pensamentos a acrescentar a estes.
"Fui jantar à vila e voltei ao anoitecer. Nestes últimos dias mal suporto o contacto com os outros. Vê-los, ouvi-los e estar com eles cansa-me, dá-me náuseas. Amanhã, voltarei a precisar deles. Odiar-me-ei com a mesma força com que os odiei."
"Mantenho-me imóvel. Penso que gostaria de falar comigo mesmo em voz alta, mas tenho receio de me acordar."
"Palavra a palavra escondo-me com medo da minha própria voz. Habito os jardins duma memória antiga, aflijo-me ao pensar que poderia ter destruído teu corpo, substituindo-o por palavras."
Uma profunda e indelével viagem ao mais sensível da condição humana. Uma cartografia do Eu em palavras que se misturam com o corpo num sonâmbulo errar do mais misterioso que solidão oferece. A noite iluminada pelo mais obscuro e sublime da poesia.