“Estaríamos ficando cada vez mais doentes? Ou estaríamos a cada dia ficando mais saudáveis, já que gastamos mais com saúde?” Os autores partem desse questionamento para discutir a problemática da medicalização, sobretudo no que se refere ao sofrimento psíquico. Eles chamam atenção para o fato de que experiências comuns e naturais da nossa existência têm sido consideradas passíveis de serem 'tratadas' e 'resolvidas' com medicamentos. As consequências individuais e sociais desse problema são analisadas pelos autores, que também fazem um alerta sobre os prejuízos causados por uma nefasta aliança entre a psiquiatria e a indústria farmacêutica. Com linguagem acessível, esta obra objetiva ampliar o debate sobre a medicalização do sofrimento psíquico, incluindo, em especial, aqueles que sofrem com ela.
Livro para quem se propõe ao cuidado responsável e ético na área da saúde, mas especialmente para todos que buscam entender o impacto da medicalização na contemporaneidade, o poder da psiquiatria e, sobretudo, o da indústria farmacêutica. Apresenta linguagem acessível, críticas contundentes, análise histórica e de casos, bem como dados interessantes. Os autores não tratam de dizer que não existem problemas ou doenças mentais reais, mas que a forma de tratamento muitas vezes posta como a única possível ao paciente – pela via das drogas psiquiátricas, não é a mais adequada, efetiva ou mesmo necessária; pelo contrário, ela pode virtualmente causar efeitos iatrogênicos e colaterais muito maléficos, além da dependência e da piora após o abandono do uso (como em muitos antipsicóticos), ou não causar efeito propriamente por causa de seus "poderosos" ativos, mas por causa da crença neles – o chamado placebo. Nesse sentido, o que se verifica é que, na mesma medida em que surgem novas classificações de transtornos para os mais ordinários comportamentos e sentimentos humanos, que antes podiam ser entendidos como comuns à vida, parte das experiências humanas de aflição, angústia e sofrimento, surgem também medicamentos que prometem nos oferecer, de forma mais imediata e a nível fisiológico, bem-estar e resolutividade de nossos problemas – o processo de medicalização. Nota-se, assim, a aliança da indústria farmacêutica com a psiquiatria, pautada em interesses muito mais lucrativos do que efetivos, e calcada na hipótese do "desequilíbrio químico" de neurotransmissores, por exemplo, como causa última para os transtornos mentais, mas que se mostra frágil em suas bases e em sua comprovação. A prescrição banal desses medicamentos por médicos, por assim dizer, como terapêutica exclusiva, retira-nos muitas vezes a autonomia para decidir e dialogar sobre o nosso próprio tratamento, sobre nossa forma de viver e sobre a possibilidade de elaborarmos nós mesmos, nossas dores. E isso é muito danoso, porque nem sempre o médico, ao qual conferimos a legitimidade do saber, sabe ou considera o que é melhor para o paciente; na maioria das vezes, o saber biomédico se encontra comprometido com a ideologia persuasiva e dominante da indústria.
"A expansão do mercado da psiquiatria e da indústria farmacêutica parece não ter limites, na medida em que a são inúmeras as experiências humanas que podem ser convertidas em doenças mentais."
A obra trabalha muito bem aspectos relacionados à medicalização além de ser extremamente fundamentada. Uma ótima introdução ao tema para uma compreensão dos problemas gerados por esse fator presente na contemporaneidade.
O livro aborda e conta sobre o contexto histórico em que os manuais de diagnóstico de transtornos mentais foram feitos e como, além de uma discussão sobre o que é a ciência e como isso é denominado e o impacto da indústria farmacêutica que lucra bilhões anualmente com o crescimento de psicofármacos. Conteúdo imprescindível para quem trabalha com saúde mental.