”O primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida.”
- Ramalho Ortigão
Admiro muito Eduardo Galeano, mas é a primeira vez que dou 5* plenas a um dos seus livros. “Mulheres” é uma recolha de textos anteriormente publicados noutras obras do autor, que ele próprio supervisionou pouco antes de morrer, todos eles tendo a mulher como mote.
É um bálsamo para a alma ler um homem que cresceu no século XX com uma mundividência e uma abertura destas, com um respeito pelo género feminino que supera o de muitas mulheres, sobretudo aquelas que se vangloriam de não serem feministas, cruzes credo!
Na manhã de hoje, 14 de Novembro de 1889, Nellie Bly encetou a sua viagem, Júlio Verne não acreditava que esta linda senhorita pudesse dar a volta ao mundo, sozinha, em menos de 80 dias. Mas Nellie abraçou o planeta em 72 dias, enquanto ia publicando, crónica após crónica, o que ia vendo e vivendo.
Eduardo Galeano tinha um saber enciclopédico a que aliava um enorme sentido de justiça e de equidade, que fica bem patente nestas 215 vinhetas sobre mulheres esquecidas, branqueadas, vilipendiadas, condenadas à fogueira, ao pelotão de fuzilamento, ao cadafalso, ao exílio, à prisão, ao silêncio.
- Quero saber o que eles sabem – explicou ela.
Os seus companheiros de exílio avisaram-na de que esses selvagens só sabiam comer carne humana:
- Não sairás de lá viva.
Mas Louise Michel aprendeu a língua dos nativos da Nova Caledónia, embrenhou-se na selva e regressou viva.
Eles contaram-lhe as suas tristezas e perguntaram-lhe por que razão a tinham mandado para ali:
- Mataste o teu marido?
E ela contou-lhes tudo sobre a Comuna.
- Ah – disseram-lhe. – És uma vencida. Como nós.
Estamos perante um manancial de textos de carácter biográfico que vão de encontro aos nossos conhecimentos ou os expandem ou nos despertam a curiosidade para pesquisas e leituras posteriores, mas há um que é uma verdadeira carta de intenção do autor, três páginas que expõem o patriarcado desde a Bíblia e Homero, de leste a oeste do planeta, do norte ao sul do continente americano:
“Como também acontece com os índios e com os negros, a mulher é inferior, mas ameaça.”
“Nos países do sul do mundo, uma em cada três mulheres casada apanha pancada como parte da rotina conjugal, como castigo pelo que fez e não fez, ou pelo que poderia fazer.”
“Não há diferença entre ser violada e ser atropelada por um camião, excepto quando depois os homens te perguntam se gostaste.”
Para além daquelas sobejamente conhecidas pelos seus feitos e rebeldia, Galeano oferece-nos um painel de mulheres difíceis que, apesar de serem inspiradoras, causam angústia e revolta por aquilo que tiveram de enfrentar, por vezes infrutiferamente.
A família declarou-a louca e meteu-a num manicómio. Camille Claudel passou ali, prisioneira, os últimos 30 anos da sua vida. Foi para o bem dela, disseram. No manicómio, cárcere gelado, recusou-se a desenhar e a esculpir. (…) O mundo levou anos até descobrir que Camille não havia sido apenas a amante humilhada de Auguste Rodin.
Mulheres reais e ficcionadas. Mulheres modernas e da Antiguidade. Mulheres brancas, negras, indígenas, mestiças.
1927. Nova Iorque.
Esta mulher canta as suas lástimas com a voz da glória e ninguém se pode fingir surdo ou distraído. Pulmões de noite profunda: Bessie Smith, imensamente gorda, imensamente negra, amaldiçoa os ladrões da Criação. Os seus ‘blues’ são os hinos religiosos das pobres negras bêbedas dos subúrbios: anunciam que serão destronados os brancos e machos e ricos que humilham o mundo.
Mulheres que foram artistas, revolucionárias, mães, escravizadas, estadistas, escritoras, dançarinas, pioneiras do feminismo, freiras, deusas, músicas, antropólogas, prostitutas.
Em 1951, uma foto publicada na revista ‘Life’ causou rebuliço nos círculos eruditos de Nova Iorque. Nela apareciam reunidos pela primeira vez os mais selectos pintores da vanguarda artística da cidade: Mark Rothko, Jackson Pollock, Willem de Kooning e outros 11 mestres do expressionismo abstracto. Todos homens, mas, na fila de trás, surgia na foto uma mulher, desconhecida, de casaco preto, chapelinho e malinha no braço. Os fotografados não ocultaram o seu aborrecimento perante essa presença ridícula. Alguém tentou, em vão, desculpar a infiltração, e elogiou-a dizendo:
- Ela pinta como um homem.
Chamava-se Hedda Sterne.