Pode a reclusão revelar mistérios da condição da mulher?
O que têm em comum uma colombiana, uma romena, uma angolana, uma venezuelana, uma uruguaia, três brasileiras e nove portuguesas? Para elas, a liberdade é um desejo que carregam na mente, livre para sonhar, com o corpo preso num cárcere, labirinto entre o Rio de Janeiro, o Porto e Lisboa.
São mães, vaidosas, filhas, amantes, sonhadoras, escrevem cartas, leem livros, amam. São barqueiras invisíveis entre dois mundos: o mundo cá de fora e um céu gradeado. Este é mais do que um livro-reportagem, é a intuição subjetiva a partir de conversas com mulheres privadas de liberdade: os medos, os desafios, as conquistas, os desabafos, a ânsia de ser livre.
Das idas a estabelecimentos prisionais guardo o som do portão a fechar-se atrás de mim. Sempre senti este momento como um abdicar temporário do meu direito de ir e vir. E uma manifestação de confiança em quem me recebia ainda que por breves horas: sem razão para ali me reter quando eu quisesse abrir-me-ia a porta para ir embora. Das saídas, consoante os estabelecimento prisionais e as estações do ano, lembro a chuva a cair-me no rosto enquanto me dirigia para o carro, abrindo caminho entre a lama, o regresso ao bulício da cidade ou o sol a atingir-me em cheio no rosto. Das visitas ao interior dos estabelecimentos guardo uma sensação de estranheza. Por pessoas estarem privadas do direito de decidirem os mais pequenos e banais detalhes da vida quotidiana, por o seu espaço físico estar reduzido a um corredor de celas e a um pátio. Por a reclusão significar a criação de um quotidiano novo tão diferente certamente do que cada um tinha quando estava em liberdade. Ala Feminina é um murro no estômago. É dado com delicadeza, porque a autora escreve com tanta objectividade como poesia, convocando escritores amados e livros que nos são queridos para suavizar o golpe. Mas nessa opção está também a capacidade de escolher cirurgicamente em que ponto da alma nos vai atingir. Como sociedade, pensamos muito pouco nos que cometem crimes. Há uma certa tendência para ver os condenados como sendo “eles” e os demais, “nós”, como cidadãos e cidadãs impolutos. Quantas não são as testemunhas e arguidos que lá vão dizendo em seu benefício “eu nunca entrei num Tribunal”, “até hoje nunca me vi nestas coisas” e outras frases do género? Claramente demonstrando que quem ainda a fazer vida nos Tribunais não pode ser boa gente. E se quem por lá anda não pode ser grande coisa, que dizer de quem de lá sai condenado? No entanto, o crime é uma instituição bem democrática, como sabem aqueles que acompanham de perto audiências de julgamento, com gente de todas as classes sociais, orientações sexuais e cores a ser julgada. Mas o preconceito, como todos os preconceitos, deixa marcas. Se só “eles” cometem crimes “eles” têm de ser punidos. E punidos significa para muita gente estranha ao que possam ser teorias dos fins das penas, castigados. De forma exemplar, de preferência. “Eles”, contudo, fazem-nos esta maldade: não são assim tão diferentes de nós na generalidade dos casos. E é isso que o livro de Vanessa Ribeiro Rodrigues mostra: têm família, amigos, amores, sonhos, às vezes minguados porque até nisso a vida foi madrasta. Os relatos recolhidos em Portugal e no Brasil fazem-nos pensar sobre o que são verdadeiramente políticas de reinserção social e o que devemos exigir como cidadãos e cidadãs. E remetem-nos lá bem para dentro da nossa condição humana. O que sentiríamos ao visitar uma mãe num estabelecimento prisional? Ou um filho? E como seria estar presa? De que sentiria mais falta? No meu caso, sei bem o que me pesaria: não poder comer pastéis de nata na minha pastelaria favorita, falar com os meus amores, ver o mar, passear em livrarias. Mas cada um tem o seu itinerário pessoal. As pessoas que Vanessa Ribeiro Rodrigues entrevistou têm o delas, adiado muitas vezes por longos anos. Sendo um livro emotivo, este não é um livro lamechas. Não é um livro sobre crimes. É um livro sobre pessoas que um dia cometeram crimes. Mas que continuam a ser pessoas. Reconhecê-las como tal, como parte do “nós” em que se esteia a sociedade, é a primeira premissa de aplicação de uma pena e a orientação em que se forja a sua reinserção social. Todos o sabemos, mas é sempre bom recordar.
A Autora, Vanessa Ribeiro Rodrigues, visita estabelecimentos prisionais no Brasil e em Portugal e entrevista mulheres neles detidas. Dá-nos a conhecer histórias e vidas de mulheres presas há muitos anos, que esperam sair em breve em liberdade, e outras que ainda ficarão detidas muitos anos. Mulheres que aguardam autorização para uma saída precária. Mulheres que se apresentam como culpadas e outras que estão convictas da sua inocência. Novas e velhas. Portuguesas, brasileiras, angolanas, venezuelanas, romenas... Presas por homicídio, burla ou maioritariamente por tráfico de droga. Mas todas partilham a esperança de uma vida diferente quando saírem e as saudades que têm das mães, dos filhos e, nalguns casos, dos maridos ou namorados. Muitas falam do que aprenderam enquanto estão presas, quer em termos de escolaridade, quer em termos de ofícios. Todas falam de como será a vida quando saírem e do desejo de não regressarem. Da primeira coisa que querem fazer quando saírem: abraçar os filhos, ir buscá-los à escola ou ver o mar. Quantas conseguirão de facto arranjar trabalho com o peso da prisão atrás? Entrevista também uma ex reclusa que continua sem arranjar trabalho porque, como refere, ter estado presa é como carregar uma marca que não lhes permite uma segunda oportunidade. Ala Feminina, com prefácio de Joana Marques Vidal e posfácio de Hugo Cruz, está muito bem estruturado e escrito. Acompanhamos a Autora, Vanessa Ribeiro Rodrigues, nas visitas e entrevistas que realiza, nas viagens que efetua até aos estabelecimentos prisionais e até nas dúvidas que sente quanto à publicação deste livro.
Assim que peguei neste livro soube que iria emocionar-me. Foi uma aventura ler este livro, apesar de não ser muito o meu género consegui adorar a leitura. Adoro a escrita da Vanessa Ribeiro Rodrigues. É deveras sensacional, e fluí perfeitamente. Temos um grande impacto neste livro de diversas mulheres, o livro é todo dedicado a elas. Apesar de ter uma certa noção do que acontecia nas prisões, nunca tinha tido a oportunidade de explorar a ideia mais a fundo. Principalmente, numa prisão de mulheres onde muitas delas foram lá parar por culpa de outros.
O livro é constituído por diversas entrevistas a mulheres que viram a sua vida a mudar tragicamente ou por más decisões ou por confiarem nas pessoas erradas. As entrevistas não são muito detalhadas, temos aqui presente o mais essencial. Notámos que as prisões tinham um certo cuidado a não deixar passar demasiada informação, e a autora mostra-nos isso. Deixou-me muito triste ver que muitas destas mulheres com sonhos, com família tiveram este imprevisto na vida que lhes mudou os planos todos. Mulheres que pensaram que tinham o tempo todo do mundo para viver, e a vida trocou-lhes as voltas.
Conseguimos sentir aquilo que elas sentem, desde solidão, perda, tristeza, pouca esperança, etc. Vemos o quanto aquele tempo na prisão as mudou, algumas deixaram a felicidade e os sonhos, e tornaram-se pessoas que nem elas próprias reconhecem. Tudo fruto do encarceramento, de falta de contacto com o mundo cá fora. É como se estivessem noutro planeta. Vemos que muitas estão desanimadas com a vida lá dentro, não se preocupam em contar os dias porque parece que o tempo não passa. É realmente outra perspetiva das prisões. Tinha uma vaga ideia, mas com este livro fiquei a perceber muito mais do assunto. Agora vejo este tema com outros olhos.
São testemunhos de partir o coração, acompanhamos a história de várias mulheres que perderam aquilo que tinham e agora vivem dentro da prisão. Mulheres que tinham tudo, e ficaram sem nada. Viver presa, sem contacto com família, sentir que o tempo parou, que erramos em tudo e não há mais nenhuma saída. Um livro que realmente vale a pena ler, ninguém vai-se arrepender.
Li "Ala Feminina" em dois dias e fiquei profundamente tocada pela forma como dá espaço às histórias das mulheres em reclusão — às suas fragilidades, aos seus sonhos, às contradições e forças que tantas vezes permanecem invisíveis. Há uma honestidade rara na maneira como a Vanessa entra na vida destas mulheres, sem nunca ocupar o lugar que é delas, e uma delicadeza na forma como revela aquilo que tantas vezes não se vê quando se fala de prisão. É um livro urgente, necessário e belíssimo, que continua a ressoar muito depois de o fecharmos.