Portugal, primeira metade do século XX. Entre os males que assolam um país isolado e retrógrado, a tuberculose ressalta como uma das principais causas de morte. Ainda sem recursos farmacológicos para combater a doença, os médicos recomendam aos infetados o internamento em sanatórios instalados em zonas de altitude. Na serra do Caramulo, outrora uma região pobre e agreste, cresce uma estância sofisticada que, no auge do seu funcionamento, chega a acolher milhares de doentes.
Entre o edifício do Grande Sanatório do passado - onde o drama do jovem Armando se cruza com o dos outros pacientes -, os escombros do presente, visitados por uma rapariga que coleciona histórias de escritores tuberculosos, e as páginas escritas pelo misterioso «R. N.», movem-se almas de todos os tempos: Eduardo, Natália, Carolina e Ernest, mas também Soares de Passos, Júlio Dinis, António Nobre e tantos outros atingidos pela febre das almas sensíveis.
Combinando o registo histórico e a toada fantástica que produziram a magia de Rio do Esquecimento, neste novo romance, finalista do Prémio LeYa, Isabel Rio Novo recupera a memória de uma doença esquecida, que marcou a sociedade de uma época e o nosso imaginário romântico.
Isabel Rio Novo nasceu no Porto, onde se doutorou em Literatura Comparada. Leciona Escrita Criativa e outras disciplinas no âmbito da literatura, cinema e outras artes, sendo autora de diversas publicações académicas nessas áreas. Integrou os júris de prémios literários e de fotografia. Os seus textos de ficção estão presentes em várias antologias, com destaque para a primeira coletânea de contos do Centro Mário Cláudio (O País Escondido, 2016). É autora de O Diabo Tranquilo, a partir de poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, da novela A Caridade (2005, Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes), do livro de contos Histórias com Santos (2014) e dos romances Rio do Esquecimento (2016, finalista do Prémio LeYa e semifinalista do Prémio Oceanos), Madalena (inédito, Prémio Literário João Gaspar Simões) e A Febre das Almas Sensíveis (2018, finalista do Prémio LeYa).
Cada era foi malfadada com um evento cataclismo que dizimou a espécie reinante do tempo. Aguardando o embate de um meteorito fulgurante ou de uma gélida idade que congele mentes já paralisadas, a própria espécie humana já foi confrontada com enormes catástrofes que quase impediam a sua continuidade no Mundo. Actualmente mais contidas (por quanto tempo, não se sabe), as ditas pestes de outrora putrificaram muitas carnes e contiveram algumas genealogias, numa clara alusão à selecção natural de Darwin.
Entre a paleta de cores que as coloriu, a ofertada à consumptiva tuberculose foi o branco quiçá pela candura característica, nascida do défice de fluxo sanguíneo, que coraria, caso existisse, as maçãs do rosto, daqueles que dela padeciam. Sem se impressionarem pela falta desse sinal externo que permite a outrém percepcionar esses sentimentos ululantes, muitos escritores românticos atribuíam aos tísicos um estado de altivez sentimental quase divinal, a tender para a hiperestesia. Fruto dessa arcaica percepção, nasceu a famigerada expressão “ouvido de tísico”, para designar alguém capaz de escutar como ninguém. No entanto, tal é uma ideia errónea sucessivamente repetida e, por isso, demasiado credível – de facto, os estímulos nervosos não são mais rápidos nestes doentes. Esta concepção está, porventura, relacionada com a segregação para sanatórios, a que eram obrigados; isolamento esse que permitia contactar com aspectos da vida que, até então, estavam vedados do império dos sentidos.
Ofertando um mergulho nesse lago hipnotizante de sensações, a autora pinta um tríptico envolvente, com três arcos interligados pela maldição de Panaceia. De cada lado da peça central, temos dois elementos que imiscuem passado e presente. O primeiro apresenta um conjunto de breves notas biográficas de escritores que, do alto da sua genialidade literária, definharam ao sabor da praga branca. O segundo acompanha as visitas esotéricas de uma rapariga, sem nome, a estes locais de segregação, onde se depara com uma resma de memórias enfermiças (algumas transcritas abaixo) e que enfermam quem delas queira tirar conclusões. Emoldurado por estas portadas não menores, surge a representação de uma família que, quebrando alguns dos preconceitos assentes na sociedade de outrora (tão branda em costumes como tacanha em pensamento), encara as agruras da vida e saboreia o pão que o Diabo amassou.
Uma das frases utilizadas em epígrafe é transcrita d’ “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann (cuja escalada tem de ser reagendada, pelas queimaduras prévias). Na verdade, as comparações entre estas duas obras são banais associações que os leitores tanto amam – ambas descrevem o ambiente salutar dos sanatórios, onde a par da morte em potência existia uma vida de tangência, num ambiente a exigir repercussões góticas, com um toque de misticismo. Isabel Rio Novo utiliza, de forma sublime, a enumeração que, ao invés de enfadar, imprime à narrativa um ritmo frenético, ao mesmo tempo que desenha as missões, experiências e relações que orientam a existência humana, entre temas como a saúde, a morte e as famílias disfuncionais que elas fermentam. Conquista sem melar, envolve sem asfixiar – numa relação pejada de aspectos culturais. Longe de se restringirem ao campo literário, garantem sinestesias inebriantes de que é exemplo a fantástica representação escolhida para a capa da obra: um fragmento d’“A Separação”, de Munch, onde corpo e alma se apartam, como tantas personagens ao longo da narrativa.
A reflexão sobre a morte, como mera etapa da vida, está vincada na minha mente – este desfile, com uma carapaça terrena, é uma mera passagem; daí que o tenhamos de aproveitar, ao máximo ("Carpe diem", diriam alguns). E o medo que associam ao cerrar dos olhos, é-lhe injustamente atribuído porque, no fundo, o temido é o sofrimento em vida. O mesmo que senti ao terminar esta obra por não entender exactamente o que faltava. Por fim, percebi o que era - nada. Os grandes livros não contam tudo e deixam espaço a um leitor mais sedento para ele próprio, imaginar a continuação de uma história que o sensibilizou.
"(...) a humanidade assemelha-se a uma árvore que não conhece o inverno e cuja folhagem seca e brota ao mesmo tempo. Não somos a folha que cai, mas a seiva em permanente fermentação. Logo que cai, a folha é uma estranha árvore. Ouçam bem: logo que cia, a folha é uma estranha árvore." (pág. 44)
"Os movimento exteriores das paixões podem ser reais ou simulados; reais, se têm origem no coração; simulados, se têm origem no cérebro; pois no primeiro são involuntários, e no segundo dependem da vontade" (pág. 75)
"E o homem que assim foi, é e será disperso aos quatro elementos funde-se na natureza, na vida póstuma que é realmente larga, expansiva e eterna. Onde está a morte, a destruição, o aniquilamento que tanto temes?" (pág. 151)
"Não há nada mais humilhante do que esta dissociação cruel entre a mente ainda viva e um corpo moribundo. (...) Morrer não custa, o que custa é este sofrimento lúcido." (pág. 194)
Ao ler o segundo livro de Isabel Rio Novo, encontrei desde logo o mesmo registo e as mesmas técnicas narrativas que em “O Rio do Esquecimento”, o que me leva a crer que não voltarei a esta autora. Isabel Rio Novo é uma escritora competente, que pesquisa muito bem o tema que quer explorar, mas acho o seu estilo narrativo pueril. Se eu pegasse num excerto para que alunos do secundário o analisassem, conseguiriam situá-lo no tempo e no espaço, conseguiriam traçar o retrato físico e psicológico das personagens, conseguiriam fazer um resumo da acção, porque a autora escreve como manda o figurino, tudo muito certinho, dizendo e não mostrando, não exigindo nada de mim enquanto leitora. A não ser paciência, claro. Mais uma vez, o narrador é demasiado presente e expressa-se naquilo que creio que tenta ser uma recriação da mentalidade e do estilo de escrita da altura, como já fizera no livro anterior, para dar um certo colorido que, para mim, acaba por se tornar bacoco.
De mais a mais, e como se foi revelando, era uma boa rapariga. (...) Não se pintava, era asseada, engomava e sabia ter uma casa arranjada, com um lugar para cada coisa.
Isabel Rio Novo parece-me uma escritora que dá valor sobretudo ao tema dos seus livros, mas por tanto querer explorá-los e transmitir a pesquisa exaustiva que fez, cria tramas muito ténues e personagens transparentes como papel vegetal, que têm como único intento debitar a informação ao leitor sob forma de ficção, ou servir como antagonistas porque é suposto haver um vilão em todas as histórias. É o caso da mãe da família, que é descrita como “devassa” e é gratuita e descabidamente má sem que nunca se perceba o motivo.
Sem apresentar justificações válidas, Alice opôs-se ao casamento. Ao jantar, perante a insistência de Armando, que esgrimia o argumento da sua maioridade, as instâncias de Eduardo, que pedia justificações para o desacordo da mãe, e tomada de posição de Manuel, que, ou exercitando a preferência pelo filho do meio ou decidindo confrontar a mulher, concordara logo com o enlace, irrompeu num acesso de fúria, que assinalaria também a dissolução do seu próprio casamento. “Pois muito bem. Assim o querem, assim o têm. Desde hoje deixarei de ser vossa mãe. Para mim morreram todos, ouviram? E não me façam essa cara de espanto. Nem mais um tostão do meu bolso. O vosso pai que vos pague a renda e as despesas da casa. Todas. Mais as que eu fizer. Tenho esse direito. Hão de passar fome negra, digo-vos eu. Oh, o que me hei de rir.”
Nunca pensei que um livro sobre "a febre das almas sensíveis", vulgo tísica, pudesse ser tão absorvente. Comecei a lê-lo ontem à noitinha e está terminado. Gostei muito de seguir este romance, talvez também ensaio, sobre a tuberculose. Uma doença que levou, entre outros escritores da época, o meu amado Julinho.
"Tenho a idade indefinida dos fantasmas." É muito triste este primeiro livro de Isabel Rio Novo que leio e que não será certamente o último. Apesar de muitíssimo triste, repito. Sempre me fascinou a melancolia contida num doente com tuberculose. Toda a aura romântica que reveste a doença é perturbadora. Eram corpos novos apanhados aleatoriamente por um bacilo e sentenciados a uma morte cruel num qualquer sanatório. Eram vidas ceifadas por uma infeção que se tratava loucamente com repouso e bons ares. Foi ontem, ainda há quem conte histórias. Amanhã diremos o mesmo de outras doenças: como era possível estarmos tão enganados, como lutamos tão obstinadamente com as armas erradas e nos iludimos na expectativa de uma cura que jamais chegaria. A vida de Armando não foi gloriosa. É ele o fantasma que conta a história da família e, em particular, do irmão Eduardo, que se fez médico, de Natália, dos amigos de infortúnio. Este livro é muito triste não porque incide sobre a doença, mas porque reflete sobre o que fica de nós quando a morte vem. Lê-se como um murro
Segunda obra que leio desta autora. Contém um dos capítulos iniciais mais belos que li nos últimos tempos. Embeveci com a parte mais histórica e não-ficcionada da obra, mas decepcionei-me com a sua trama e a construção das personagens.
3.5 ⭐️ “É difícil apagar o sofrimento dos homens que se sabem condenados à morte.”
Este livro relata a história de uma família devastada pela tuberculose e das cicatrizes que esta fez carregar naqueles que sobreviveram. A narrativa é intercalada com pequenas biografias de escritores clássicos portugueses que também foram fustigados por esta doença, factos que desconhecia e que, mais uma vez, enaltecem o estilo da autora neste género literário. É de salientar a escrita cuidada e rebuscada da escritora, contudo achei a história, em si, previsível e sem grande proeminência.
"A Febre das Almas Sensíveis", de Isabel Rio Novo, é um romance que se centra na história de uma família, em meados do século XX.
Um narrador não identificado, mas cuja identidade se vai descobrindo à medida que a narrativa avança, conta a história de três irmãos, mas também observa o trabalho de pesquisa de uma jovem na actualidade. Este trabalho incide sobre uma doença, hoje esquecida, a tuberculose, que se dizia ser a febre das almas sensíveis. A tuberculose foi associada inicialmente à sensibilidade artística e fragilidade psicológica, por ter dizimado poetas e escritores. É neste contexto que são introduzidos ao longo da narrativa, pequenas biografias de poetas e escritores de finais do século XIX.
Mas depressa se percebeu que essa associação era um mito. A tuberculose era uma doença de multidões e mais se propagava quanto piores fossem as condições de vida. Em Portugal, um país miserável em pleno Estado Novo, tornou-se na principal causa de morte. Não havia medicamentos eficazes no seu tratamento e surgem os sanatórios, onde os doentes eram internados para evitar o contágio, que se localizavam em zonas de montanha ou junto ao mar. Neste caso, é nos dado a conhecer, com algum detalhe, o dia a dia dos doentes no Sanatório do Caramulo.
Uma história interessante, bem contada e que me faz querer descobrir outros livros da autora.
(…)o número de tuberculosos internados aumentou de tal forma que, a partir de 1933, o imóvel passou a chamar-se Grande Sanatório. A Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial afastavam os tuberculosos abastados dos grandes sanatórios europeus e traziam-nos para a serra portuguesa.
Portugal, início do século XX, uma época marcada pela peste branca. Em pleno Estado Novo a história de uma família tocada pela tuberculose. Dos três irmãos rapidamente sabemos que a má sorte saiu a Armando.
A tuberculose não era, afinal, a febre das almas sensíveis. Era a doença das multidões operárias das cidades, trabalhando mais do que o permitido por lei, amontoadas em mansardas sem esgotos, exaustas e mal alimentadas. Era a doença dos sobreviventes das guerras, estropiados, desnutridos, desprovidos de tratamento, deambulando pelas ruas com quadros graves de primoinfeção. Era a doença das sociedades miseráveis. E Portugal era uma sociedade miserável.
Crianças, mulheres, homens, pobres, ricos, civis, militares, todos igualados na sua condição, jazendo como despojos humanos, imagem triste de um país atrasado, analfabeto, faminto, onde os funcionários públicos recebiam misérias, a velhice não era protegida, as escolas e as universidades debitavam um saber obsoleto, as mulheres se desentranhavam a parir, o sarampo, a disenteria e as bexigas matavam as crianças antes de estas largarem o peito das mães e a tuberculose crescia, crescia sempre.
Tal como Hans Castorp da Montanha Mágica, Armando interna-se na Estância Sanatorial do Caramulo onde o tempo perdia a sua grandeza matemática para se equiparar a uma estranha espécie de medida biológica. É nesta antecâmara da morte que ficamos a saber um pouco mais desta doença, dos seus contornos mais desagradáveis, e da forma como a sociedade olhava para estes infelizes. As crendices e superstições aliadas à ausência de cura resultam numa rejeição daqueles que estão doentes e daqueles que conseguiram curar-se.
Gostei muito da rapariga que vai surgindo na narrativa com as suas «Considerações sobre a morte, alinhavadas por R. N.».
É uma viagem pela nossa História, por um país que não tinha meios nem recursos para combater uma pandemia como a tuberculose.
O último doente deixou a estância do Caramulo em 1986.
"Na vida de todos nós há acontecimentos cruciais, de índoles diversas, mudanças, viragens, sobressaltos, que marcam e pontuam o nosso destino. Não espanta que os romancistas prefiram estes aos outros, os que perfazem a massa anódina do quotidiano."
Foi a primeira vez que li algo da Isabel Rio Novo e confesso que fiquei rendida. Um livro extraordinariamente bem escrito e envolvente que li de uma penada!
Intercalando a estória de uma investigadora que estuda os antigos sanatórios do Caramulo, entrecruza a narrativa principal com as histórias de algumas das mais conhecidas vítimas de tuberculose em Portugal. Pelo meio, temos a estória de uma família atingida pela doença, num relato dorido e sentido de um drama pessoal e de um País afectado por uma doença mortal e praticamente incurável.
As estórias que nos são contadas levam-nos, muitas vezes, às nossas próprias histórias de família no século passado, onde tantos sucumbiram à peste branca. No meu caso, remeteu-me para a história do meu Avô materno, que também esteve no Caramulo, e para a partida recente do meu Pai. Não é um livro fácil, mas a fantástica escrita da autora praticamente que "minimiza" temas dolorosos. Ao mesmo tempo que me incomodou, em muitos momentos da leitura, também, simultaneamente, me manteve agarrada, não me sendo, de todo, possível largar a leitura!
Fiquei absolutamente fã. Mais uma autora que seguirei fielmente.
Muito bem escrito, embora se leia com a sensação de ter nas mãos um livro escrito no início do séc. XX, e a história seja melancólica demais para o meu gosto.
Mas bem vistas as coisas, se tivermos em conta o tema, provavelmente não poderia ser de outra maneira.
Não me fez sentir aquilo que estava à espera, não sei se por culpa da época em que o li. Porém, reconheço que a escrita é muito boa, muito bonita, e a forma como a autora retrata a tuberculose é um ponto muito positivo. Gostei das personagens principais, das escolhas difíceis que têm de fazer ao longo da vida, e gostei de conhecer o narrador, uma bela surpresa. Embora não o tenha apreciado como outras pessoas, não é todo um livro mau, é muito bom. É maravilhoso ver uma autora portuguesa escrever tão bem sobre a nossa História.
Finalista do Prémio Leya de 2018 mantém uma estrutura semelhante ao livro que li da mesma autora mas escrito muito mais cedo - Madalena.
Intercala na mesma história a ficção com casos reais para escrever sobre uma doença esquecida, a tuberculose que mais gente matou na primeira metade do século XX.
Usou a mesma técnica do livro anterior : Na história de Armando, Gilberto e Eduardo durante os anos 40/50 do século passado a autora vai metendo , quanto a mim um tanto “à pressão “ pequenas biografias de escritores e poetas que morreram de tuberculose nos finais do século XIX (Cesario Verde, Júlio Dinis , Castro Alves, etc, etc)
Vivi de perto a época dos pneumotórax e dos cortes de costelas para tratar a doença e também do início da cura da tuberculose e a erradicação do mal , pois o meu Pai foi sub- director de um dos Sanatórios portugueses.
Parece-me que IRN se documentou bem e estudou bastante mas exagera algumas situações caricatas que descreve do que se passava no País.
A autora põe a tónica da gravidade da doença no atraso e miséria do País e a falta de salubridade das habitações e de higiene da população.
O problema era a falta de conhecimentos científicos que permitissem reconhecer e tratar a doença o que apenas ocorreu primeiro com a descoberta do bacilo de Koch em 1882 e depois com a descoberta da estreptomicina em 1944 para o debelar, além do equipamento necessário a um diagnóstico precoce como o que temos hoje em dia .
A parte final é um tanto atrapalhada e confusa dando ideia que não sabia bem como acabar o livro .
Longe, muito longe de Thomas Mann e da sua Montanha Mágica .
A Febre das Almas Sensíveis, escrito pela portuense Isabel Rio Novo lê-se num ápice. É absolutamente viciante! Ousaria começar com uma passagem da obra: “A quase todos nós, filhos do tempo, a eternidade inspira uma angústia involuntária, e o infinito, um medo misterioso. Talvez por isso gostemos das histórias de assombrações, que escutamos com um misto de arrepio e espanto.” Foi com este misto de “arrepio e espanto” que adentrei nesta leitura. Intercalando uma narrativa de primeira pessoa com uma de terceira, surgem-nos personagens distintas e uma teia de histórias que se cruzam e se fundam na própria História, em que a tuberculose, doença das multidões operárias das cidades, mal alimentadas e consumidas pelo excesso de trabalho, dos sobreviventes das guerras, dos estropiados, dos desnutridos, dos miseráveis. Essas eram, na verdade, as almas sensíveis. Assim, é-nos contada a história de um “estranho” agregado familiar das Fontainhas, a par da visita a um sanatório em ruínas por uma jovem, que aí descobre umas páginas escritas e outros objetos, que funcionam como uma espécie de apontamentos que vai recolhendo, e ainda um outro narrador de terceira pessoa, que vai recordando vários tuberculosos famosos que foram vítimas desta doença, de entre médicos, professores e, essencialmente, poetas. E, essencialmente poetas, pela sua condição de almas sensíveis e frágeis, de quem mais facilmente a doença se poderia apropriar. De entre estes escritores, são referidos Walt Whitman, as irmãs Brontë, Anton Tchekov, Balzac e, entre nós, Cesário Verde, António Nobre, Júlio Diniz, Soares de Passos, Sebastião da Gama, José Duro, entre outros. Uma narrativa engenhosa, extremamente bem escrita e cativante. A história que mencionei no início é a da família de Alice e Manuel, cujos filhos foram nascendo em diferentes localidades de Portugal: Figueiró dos Vinhos, Peniche, Buarcos, tendo vivido ainda em Vila da Barca, Figueira da Foz, Coimbra, uma vez que Alice era professora e não tinha colocação efetiva. O pai dividia-se entre “vários sonhos e a frustração de nunca os ver concretizados”. Certo era, que não havia grande amor naquela casa, com uma mãe ausente e um pai que “oscilava entre a ternura e a severidade”. Eduardo assumia perante os irmãos, Gilberto e Armando, as responsabilidades dos pais ausentes. No meio desta desestruturação toda, Alice começa a trair o marido com outro homem. Quando Armando apresenta a futura esposa à mãe, esta rege mal e, perante a afronta que sente quando Manuel se coloca do lado do filho, Alice decide que, a partir daquele dia, deixaria de ser mãe deles e nunca mais queria vê-los sequer. Gilberto foi o único que ficou com a mãe. Quando a mãe diz a Eduardo que nunca conseguirá concretizar o seu sonho de ser médico, este promete a si mesmo que o há de conseguir. Armando acaba por casar com Natália e têm uma menina, a Laura. A criança é a primeira a morrer vítima de tuberculose. Armando acaba por ser internado num sanatório, no Caramulo. É incrível a descrição minuciosa que é feita da vida de Armando no Sanatório, os amigos que faz, o que observa, a solidão que enfrenta, a morte a que assiste. É tudo de um realismo e, ao mesmo tempo, de uma poeticidade (um decadentismo romântico) que nos enternecem a alma. Impressionante também é conseguir encontrar-se um ideal de beleza feminina nas feições marcadas por esta febre que tanta gente matou: “A palidez dos olhos húmidos, as faces enrubescidas e a rouquidão da voz sublinhavam a languidez dos corpos, a alvura dos dentes e a tonalidade dos cabelos, tornando os anjos tísicos modelos da estética feminina cultuada pelos românticos”. Ter-se-á Armando curado e regressado a casa, para junto de Natália? E Eduardo, conseguiu ele formar-se? E Alice, conseguiu ela cumprir a sua promessa de nunca mais querer ver os filhos? Certo é que é de forma febril que se lê este livro, absolutamente intenso e brilhante!
«As tragédias são sempre individuais. Cada uma é o mundo inteiro a sós. Não o ignoro, e, por isso, a minha história e a história do meu irmão Eduardo são tão interessantes como outras quaisquer.»
É este o mote para um livro em que as histórias de vida e morte de figuras da literatura portuguesa que conhecemos são postas lado a lado à história de gente comum que viveu no século XX.
Gostei muito da forma de escrever desta autora portuguesa, de quem nunca tinha lido nada anteriormente. Ainda assim, tive pena que a autora não tivesse optado por escrever o livro todo na primeira pessoa. Não sei bem porquê, mas isso baralhou-me um pouco. A meio do livro já me tinha esquecido dos primeiros capítulos e, dessa forma, esquecera-me de quem era o narrador "fantasma" e só mais para o fim (e com a releitura dos capítulos iniciais) é que consegui juntar as peças do puzzle e lá desfiz o nó.
Estamos habituados a ver a tuberculose como a doença "romântica" por excelência (não só em filmes, como por exemplo a loucura fantasista de Moulin Rouge de Baz Luhrmann, mas também em livros como Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett), mas verdade seja dita que nunca tinha tido oportunidade de ler em livro a descrição de como a doença ataca o corpo humano e o quão nefasta foi em Portugal, já em pleno século XX. Também foi algo "chocante" para mim descobrir (ou relembrar) que tantos autores portugueses (Eça de Queirós, Cesário Verde, António Nobre...) sofreram desta doença, tendo mesmo sucumbido devido a ela!
No ar, ficou o derradeiro "mistério" sobre quem seria a rapariga cujo interesse (mórbido?) pela tubercolse a leva a recolher histórias sobre a doença... Talvez seja a própria Isabel Rio Novo a inserir-se a si própria no livro que escreveu...?
Uma boa surpresa, a da escrita de Isabel Rio Novo. Gostei de tudo: do tema, das opções narrativas, da escrita aparentemente fácil e fluída, mas na verdade reveladora de um perfeito domínio da língua. Em breve "atacarei" o "Rio do Esquecimento"!
Neste romance Isabel Rio Novo conduz o leitor até meados do século XX, época marcada pela problemática da tuberculose. Em Portugal, esta doença era a principal causa de morte e como não havia ainda fármacos para a combater, foram construídos sanatórios instalados em zonas montanhosas.
É neste contexto que a acção ocorre e nos é contada, na primeira pessoa, por um narrador cuja identidade será revelada numa fase já bem avançada do enredo. Através de uma escrita que nos agarra, como se de uma febre padecêssemos, a autora descreve-nos a degradação, a rejeição, o sofrimento e o isolamento dos tísicos sejam eles poetas, professores, médicos ou outros. Concretamente, vamos acompanhar a vida do jovem Armando, e da sua família, nesta caminhada que o levará à morte no sanatório do Caramulo para onde foi conduzido como infectado.
Um tópico interessante mas relativamente mal conseguido. É-nos apresentado um rol de personagens fictícias, todas com mais defeitos que qualidades, e um outro rol de “personagens” reais que faleceram de tuberculose e cujo contributo para o livro em si é muito baixo. Por serem poucas páginas, a história acaba por ser abordada de um modo superficial. Meia estrela a mais pelas várias citações bastante bem escritas ou ideais para refletir sobre a patologia central ao livro e o seu impacto em Portugal.
Este foi o primeiro livro que li da autora e achei que escreve de forma fluida e sóbria. O tema é forte, o livro é pesado nas descrições da doença e dos procedimentos médicos. Algumas entradas relativas a poetas e outras pessoas com tuberculose parecem-me um pouco forçadas ao longo dos capítulos. Achei original termos, em certas partes, um narrador que tinha sido personagem e está agora morto. De destacar a capa desta edição e a originalidade do título.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Quando o propósito é reflectir sobre aquilo que nos legam certos livros, virada que foi a derradeira página, casos há em que importa alguma cautela, não vá a emoção, qual febre, toldar-nos o entendimento. “A Febre das Almas Sensíveis” é um desses livros. Pelo muito que diz e pela forma como o faz. Poderia ser lido de um fôlego, mas naquilo que, de mansinho, vai pondo a nu, no que convoca de dor e coragem, de sofrimento e resignação, de vida e morte, há matéria demasiado substantiva para se dar o leitor a pressas. Numa escrita límpida, pessoas, lugares e coisas são-nos apresentadas com tal dose de exactidão e elegância, que é de coração apertado que vemos colarem-se-nos à pele, página após página, aqueles quadros, unindo-nos agora pelas mesmas causas, animando-nos nas mesmas (pequenas) vitórias, provando-nos impotentes face à mesma miséria, separando-nos dos outros e de nós próprios nas mesmas tragédias.
É curioso perceber como o livro se relaciona com a imagem de capa, “Separação”, pintura de Edvard Munch, um homem que acreditava que as sombras eram a fonte da sua arte. É com linhas suaves, detalhadas, impressivas, mas com uma paleta reduzida aos tons mais sombrios, que Isabel Rio Novo “pinta” este seu livro. Uma pintura feita de camadas e que resulta num quadro tão belo quanto amargo; sobretudo quando vemos que é da tuberculose em Portugal na primeira metade do século passado que nos fala o livro, sendo a “febre das almas sensíveis” apenas um eufemismo para designar esse flagelo que matava 20.000 pessoas a cada ano. E que não se resumia a atingir apenas as “almas sensíveis”, os poetas, antes “era a doença das multidões operárias das cidades, trabalhando mais do que o permitido por lei, amontoadas em mansardas sem esgotos, exaustas e mal alimentadas. (…) Era a doença das sociedades miseráveis. E Portugal era uma sociedade miserável”, conforme pode ler-se a páginas tantas.
Mas voltemos às pinturas, às camadas, às analogias. A mais superficial é precisamente a tuberculose e a forma como marca, de forma brutal, uma família entre tantas outras. Há depois uma segunda camada, justificada por um tempo outro, o tempo presente, onde a figura duma jovem investigadora se mostra determinante para conhecermos, ainda que ao de leve, algumas dessas “almas sensíveis” a que o título alude: Cesário Verde, António Coelho Lousada, Soares de Passos, Júlio Dinis, António Castro Alves, António Nobre, Casimiro de Abreu ou Sebastião da Gama. Mas é precisamente através da jovem investigadora e da transcrição dum manuscrito descoberto no que resta dum sanatório, “Considerações sobre a morte, alinhavadas por R.N.” (de “Reis Novo” / “Rio Novo”) que acedemos à camada mais íntima, intemporal, à essência deste livro e, atrevo-me a dizê-lo, ao coração da escritora. As reflexões condensadas em breves excertos constituem uma visão inspirada e profunda sobre a vida e a morte, a imortalidade e a existência de Deus. Não há como o negar: são simples apontamentos, mas com uma lucidez e uma força que obrigam o leitor a recolocar-se perante a vida, a sua própria vida. Sem receios, deixemo-nos contaminar por esta “febre”. É benigna e trata-se com a leitura, o melhor de todos os antídotos.
Que leitura espetacular, bravo! Acabei o livro a bater palminhas de contentamento, literalmente!
É um livro que aborda um tema que está intrinsecamente ligado à história da minha família, a tuberculose, ainda que numa fase diferente. Neste caso, somos convidados a seguir uma saga familiar, num Portugal atrasado da primeira metade do século XX. Este é, por assim dizer, o tempo predominante da narrativa. Existem outros tempos narrativos como o alusivo ao século XIX, com referência a vários nomes ligados à literatura (Eça de Queiroz, Júlio Dinis, Cesário Verde, Machado de Assis, etc.), e a um tempo presente em que uma rapariga vai revisitando as ruínas dos sanatórios do Caramulo.
Vamos encontrar retratos tristes e cruéis de uma doença que afetou e levou tanta gente. Só temos a agradecer os avanços da medicina e da farmacologia por virem reduzir drasticamente este e outros flagelos que numa ou noutra altura se fizeram sentir tão violentamente.
Numa escrita cuidada, repleta de factos muito bem documentados, estamos perante uma obra inesquecível. Já há muitos anos que não passo no Caramulo e fiquei ainda com mais saudades de lá ir novamente. Não dá para transmitir o quanto gostei desta leitura. Vai ficar para sempre dentro do meu coração.
Geralmente “fujo” de livros que abordam doenças e morte pois, muitas vezes, exagera-se no enredo para provocar a lágrima fácil no leitor. Porém, Isabel Rio Novo conseguiu prender-me com a sua obra sobre tuberculose durante o período da Ditadura.
Há várias histórias nesta grande história. Nos dias atuais, temos uma investigadora que vasculha as ruínas dos antigos sanatórios à procura de pistas sobre quem lá sofreu e que nos vai apresentando diversas figuras históricas que padeceram da doença – poetas, escritores, como Júlio Dinis ou António Nobre. Achei curioso estes pequenos apontamentos, que vão acompanhando a história principal, narrada pelo fantasma Armando, um jovem cheio de vida que se viu confinado num sanatório no Caramulo, que mais não era do que uma sala de espera para a morte.
É um livro sobre um tema pesado, que retrata pormenores do tratamento da tuberculose que arrepiam e assistimos à agonia de quem vai deixando, aos poucos, de respirar. Mas o horror descrito não é deslocado ou “metido à pressão”, é importante para o nosso envolvimento na história, para a nossa compreensão… e o resultado é uma leitura preciosa!
Recebi este livro através de uma actividade do BookCrossing.
Numa era em que os cuidados de saúde eram especialmente precários, uma doença assombrava toda a população, nomeadamente as franjas mais pobres da comunidade. Essa doença, a "Febre das almas sensíveis" é a tuberculose. Neste livro a autora romanceia a doença, colocando-a no corpo de um homem que depois se dirige a um sanatório para se curar. Entretanto, há um triângulo amoroso e coisas que tais, mas nada digno de nota.
O que mais me chateou neste livro é que a autora, em vez de se focar no desenvolvimento das suas personagens e de lhes dar riqueza e uma personalidade forte, utiliza o espaço literário como uma enumeração de todas as figuras histórias que padeceram desta doença.
É incompreensível para mim qual será o interesse de saber, de forma romanceada, pouco realista e por vezes pouco respeitosa, quem morreu de tuberculose no passado, por mais famoso que tenha sido.
Assim, este livro torna-se aborrecido e um pouco irrelevante.
A Febre das Almas Sensíveis fala-nos da Tuberculose, essa febre tão romantizada num Portugal do século passado.
O livro intercala duas narrativas. Por um lado, pequenas biografias das vidas de escritores e poetas lusófonos que foram afectados pela doença. Por outro, a vida de uma família comum e suas vivências.
Tive alguma dificuldade em empatizar logo com esta família, mas a história vai evoluindo e dando gradualmente mais espaço, profundidade e interesse à história da família.
O livro revela um cuidado na pesquisa histórica e gostei particularmente da descrição da vida no sanatório do Caramulo, da suspensão da vida em busca de uma salvação. Daquilo que me marcou mais foi uma curiosidade para saber mais sobre a doença, os sanatórios, os tratamentos, …
Dei por mim a pesquisar mais sobre os tratamentos da doença, quem padeceu dela e mais importantemente a ver imagens do Caramulo.
Fiquei com vontade de descobrir mais sobre a obra desta autora.
Um livro extraordinariamente bem escrito e envolvente que li de uma penada. Entrevalando a história de uma investigadora que estuda os antigos sanatórios do Caramulo, e entrecruza a narrativa principal com as histórias de algumas das mais conhecidas vítimas de tuberculose em Portugal, com a história de uma família atingida pela doença, é um relato dorido e sentido de um drama pessoal e de um país afetado por uma doença mortal e praticamente incurável. Recomendo muito a leitura quer pela qualidade da escrita quer pelo interesse da história.
Estruturalmente original, apresentando uma alternância entre o fio narrativo principal - que assenta no drama de quem viu a sua vida cedo interrompida pelo flagelo da tuberculose - e um conjunto de relatos históricos sobre escritores que foram fatalmente atingidos pela doença, "A Febre das Almas Sensíveis" revela um discurso sedutor e absolutamente competente, que nos enreda e prende até à última página. Gostei muito.
Existe uma imensa solidão nestes pacientes, forçados a um isolamento asséptico, como se o exercício dos afetos fosse uma perigosa forma de contágio. Prepare-se leitor deste romance para uma febre que o aprisiona e para a qual não existe cura.