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Karen

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Romance português vencedor do Prêmio Oceanos 2017. Uma engenhosa trama sobre personalidade, memória e casamento de uma das mais notáveis escritoras portuguesas contemporâneas. Uma mulher prestes a fazer 25 anos acorda numa cama que não reconhece, numa casa que não lhe parece íntima, entre pessoas que a "conhecem" mas afirmam entender sua confusão momentânea. Chama-se – ou pelo menos é como a chamam – Karen. Ela é casada com um escritor de família arruinada, está com alguns ferimentos porque, assim lhe dizem, arriscou-se para o outro lado escorregadio e pedregoso de uma cascata. Seu presente, assim com o próprio passado, parecem fruto de uma alucinação.

106 pages, Kindle Edition

First published July 15, 2016

5 people are currently reading
260 people want to read

About the author

Ana Teresa Pereira

60 books90 followers
ANA TERESA PEREIRA nasceu a 30 de Maio de 1958 no Funchal, onde vive. Frequentou um curso de guia intérprete, actividade que abandonou aos vinte e cinco anos para estudar Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Contudo, no final do segundo ano, abandonará também a Filosofia e regressará ao Funchal, onde se dedicará exclusivamente à prática da escrita tendo uma já longa e variada carreira literária.
Desde o seu primeiro livro tem vindo a publicar regularmente. A singularidade da sua temática e a concisão da sua escrita dão a Ana Teresa Pereira um lugar próprio na literatura portuguesa actual.
Tem colaboração nos jornais Público e Diário de Notícias (Funchal) e nas revistas Islenha e Margem 2.
Ao longo da sua carreira recebeu os seguintes prémios: Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB (2011), o Prémio Literário Edmundo Bettencourt (2006; 2010), o Prémio Máxima de Literatura (2007), o Prémio PEN Clube Português de Narrativa (2005); o Prémio Caminho de Literatura Policial (1989); o Prémio Revelação de Ficção APE/DGLB (1989) e o Prémio Oceanos de Literatura Portuguesa (2017).

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Community Reviews

5 stars
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155 (35%)
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44 (10%)
1 star
11 (2%)
Displaying 1 - 30 of 67 reviews
Profile Image for Célia Loureiro.
Author 31 books969 followers
January 6, 2023
Foi a primeira vez que li um livro da autora Ana Teresa Pereira, uma das favoritas da DGLAB para atribuição de bolsas e prémios. A história é intrigante, bastante interessante - julgo que com laivos de Rebecca, ou daquilo que julgo que será essa obra de Daphne du Maurier.

Trata-se da história de uma pintora que de repente desperta numa casa no interior de Inglaterra, longe de Londres, do seu apartamento e das galerias que costumava frequentar. É-lhe atribuído outro nome e outro passado, e descobre que já não sabe dançar nem consegue pintar, como se fosse outra pessoa apesar de se recordar desse outro passado na capital. Está rodeada de estranhos e é informada de que sofreu um acidente relacionado com uma cascata local.

A linguagem é simples, a escrita fluida, o mistério vai-nos mantendo presos às páginas. Tem passagens realmente belas, tais como:

(...) e as gotas de orvalho de manhã cedo em todas as folhas e todos os ramos de um bosque onde ninguém passa, e o som da água é o som do universo, o som que também está no fundo de nós, misturado com o vazio e a escuridão.


De salientar um ponto de que não gostei e que me parece ser bastante recorrente num certo círculo de autores portugueses: o pedantismo de despejar referências artísticas, musicais e literárias umas atrás das outras, a cada página uma nova exibição da sua formação cultural. É desnecessário e diria até pouco credível escrever-se sobre pessoas comuns que vivem em águas-furtadas com grande simplicidade, mas estão sempre prontas a citar os "grandes".

(...) como as ruazinhas, as pontes, os canais, do filme de Luchino Visconti, como o mosteiro e o vale profundo do filme de Michael Powell e Emeric Pressburger). Uma rapariga casada que vinha a Londres uma vez por semana, ver um filme ou uma peça de teatro, e trocar um livro na biblioteca, livros de Dorothy Whipple, Richmal Crompton, D.E. Stevenson, Winifred Watson. E Francis Burnett.


Não me parece também que o retrato psicológico da personagem principal, esta Karen prestes a completar 25 anos, faça sentido perante estas referências. Uma jovem de 24 anos que vive sozinha em Londres, bebe vinho e ouve música antiga, pinta a óleo e visita galerias e faz caminhadas na natureza e vai ao teatro. Acho que é uma idealização de pessoas de outro tempo, sem raízes na realidade atual.
Profile Image for Adriana Scarpin.
1,748 reviews
August 28, 2018
Há de qualquer coisa relevante num livro que começa e termina citando Visconti e Powell & Pressburger. Ledo engano basearmos a atmosfera desses cineastas (mais especificamente com Le notti bianche e Black Narcissus) nas experiências gótico-abstratas que estamos a testemunhar a partir de então, estas mais calcadas em Cornell Woolrich, que a própria autora de Karen nomeia por um dos seus pseudônimos, William Irish, ou então Daphne du Maurier.
Esse livro é cinematográfico até a medula, portanto o que mais esperamos dele é justamente se transformar numa obra em movimento, pena Truffaut ter nos deixado tão cedo, é nas mãos dele que este livro ganharia força cinemática com a devida homenagem ao estilo hitchcockiano.
Profile Image for Gabriela Ventura.
294 reviews135 followers
July 22, 2018
Eu estou comemorando a chegada de Ana Teresa Pereira no Brasil porque, até então, essa autora tem sido uma paixão solitária na minha vida. Eu devo tê-la conhecido lá pelos idos de 2010, li uns 3 romances e um compilado de livros de contos até então... e ela não deixa de me assombrar.

É uma escrita profundamente esquisita. A Ana Teresa é uma autora que parece estar sempre reescrevendo a mesma história. Casarões decadentes, mulheres com uma vida interior riquíssima, mas sempre muito confusas, homens sedutores e potencialmente perigosos e referências anglófonas o suficiente para esquecermos que estamos lidando com uma autora portuguesa. As histórias dela me parecem que ficam em algum lugar entre o gótico vitoriano e algo que poderia ter sido filmado pelo Hitchcock.

Karen não é diferente. Li em algum lugar um comentarista qualquer comparando Karen a Rebecca, de Daphne du Maurier. Achei graça porque essa pessoa claramente compartilha dessa minha tentativa de inserir a Ana Teresa numa tradição. Rebecca, afinal, virou filme do Hitchcock, e o livro de Daphne Du Maurier é tradicionalmente comparado a Jane Eyre, de Charlotte Brontë.

Não sei se é uma história para todo mundo, mas certamente é uma história para quem gosta dos ecos fantasmáticos criados por esses interseções.
Profile Image for Lúcia Fonseca.
305 reviews53 followers
September 20, 2018
Este livro é sinistro. Acho que é o adjetivo que melhor o descreve. Não conhecia a autora nem a sua escrita. Mas adorei. Só não gostei mesmo do final abrupto que teve, mas talvez um livro deste género tenha que acabar assim para ficarmos a pensar. Ainda assim não é o tipo de final que gosto.
Quero ler mais obras da autora sem dúvida!
Profile Image for Henrique.
10 reviews
Read
June 15, 2019
Pequeno romance sobre o velho tema do duplo e da metamorfose. Uma mulher atravessa uma cascata, cai, e perde a memória. Ao retornar a casa nada mais é o mesmo, as recordações não coincidem com o desejo, a realidade transforma-se em irrealidade, nada bate certo: o marido está mais interessado na herança dela e em escrever romances do que nela, poderá inclusive ter tentado matá-la. As referências cinematográficas e literárias (com Henry James à cabeça) abundam, mas curiosamente não há referência a Persona do Bergman, que partilha da trama filosófica essencial. O ambiente social, replicando James, é o do classe alta, o tom é do policial. Não estou certo de ter gostado, mas quiçá um dia alguém me dê uma mocada na cabeça, eu perca a memória e ao retornar a casa acabe por gostar.
Profile Image for Andre.
53 reviews2 followers
October 4, 2019
Após tudo isso, me pergunto quem é Karen?
Profile Image for Lukáš Palán.
Author 10 books234 followers
March 26, 2022
Bom dia.

Jelikož umím ronaldovsky, rozhodl jsem se, že s podívám na to málo co se k nám přeloží, ale raději jsem se měl podívat třeba na hrnec, nebo traktor. V tomhle díle se jedna čmafíta probudí a není ten stejný člověk jako předešlého večera. Toto se mi stává dost často o víkendech. Na rozdíl ode mě se čmafíta probudí do bytu, kde není puštěná plotna, spálenej hrnec a poblitá koupelna, takže vyrazí očekovat okolí. Má nějakýho nabíječe, služky a hezkej barák, takže si nestěžuje, drží kušnu a přemýšlí o svém minulém životě. Trochu jsem doufal, když se hlavní hrdinka jmenuje Karen, že dojde k nějakému drama, jakože třeba půjde do Starbucks a pak tam po obsluze začne házet kelímky nebo se vykadí na pokladnu, ale bohužel, nic dalšího se v podstatě nepřihodí. Z velmi neoriginálního nápadu tak vznikne jen stylistické cvičení na téma "tohle nejsou moje gatě a kde to jsem?" a já si jdu dát další Negroni.
Profile Image for Vera Sopa.
757 reviews72 followers
April 25, 2025
Um mundo encantado onde reina uma personagem, Karen que, não é a personagem que reside lá com amnésia. Um casarão isolado e cuidado, em que uma mulher recorda uma outra existência, livre e artística, em Londres enquanto é confundida com Karen. Alter ego ou sonho?

Os livros de Ana Teresa Pereira, e este não é o primeiro que leio, têm um efeito balsâmico, ainda que muito enigmáticos e misteriosos. Suaves, envolvem o leitor numa atmosfera mística, muito no género Rebecca de Daphne du Maurier, igualmente viciantes.
Profile Image for Roberto Almeida.
24 reviews7 followers
May 10, 2018
Uma distração de duas horas. Como exercício de suspense, um quase. Divertido pela cafonice.
Profile Image for Cristina.
15 reviews5 followers
May 22, 2020
Uma grata surpresa na primeira leitura da autora. Um ambiente que lembra o gótico, sufocante perspectiva narrativa introspectiva. Lerei o que encontrar da Ana Teresa Pereira.
Profile Image for Graciosa Reis.
546 reviews53 followers
Read
April 15, 2023
Parti com grandes expectativas para a leitura deste livro porque as recomendações eram muitas e boas. Fiquei um pouco desapontada com o final, pois temo não o ter bem entendido. Ou será que o final fica em aberto para manter a ambiguidade existente na identidade da personagem?

Quanto ao enredo até funcionou bem e gostei. Uma rapariga que cai numa cascata e perde a memória. É ela que nos conta a sua história vivida no presente, imaginada, recordada “ Imagining… no, remembering… estava a tornar-se difícil separar o que imaginava do que recordava”. Esta dificuldade passou bem para o leitor que se deixa envolver neste mistério e que permanece na dúvida em relação à identidade de Karen. É mesmo ela ou há uma outra?
Como gostei da escrita, vou ter de dar outra oportunidade à autora, mas com outro livro e talvez até volte a este.
Profile Image for Sónia  Pinto .
116 reviews11 followers
November 19, 2023
Por vezes confuso, mas parece ser esse o propósito! Escrita simples e bonita! Muito bom!
Profile Image for Dario Andrade.
748 reviews24 followers
August 7, 2020
Esse Karen é uma novela, ou um breve romance, que se apoia na tradição do romance gótico do século XIX, como Henry James ou as Irmãs Bronte. Aqui, uma mulher acorda sem reconhecer a si própria em uma propriedade no interior da Inglaterra. O seu corpo lhe é estranho. Tampouco sabe onde está ou quem são as pessoas à sua volta que lhe chamam pelo nome de Karen.
Esse estranhamento de si própria – elemento do plot que me atraiu para ler o livro – pode ser simplesmente resultado de uma queda que ela sofreu dias antes ao se aventurar em uma cachoeira. Pode ser, porém, algo a mais. Talvez uma conspiração dos personagens que a cercam, talvez uma transmigração de almas, talvez seja só esquizofrenia mesmo.
Junte-se a isso o aniversário de 25 anos que se aproxima e que a tornará uma rica herdeira, casada com um escritor aspirante que insiste em lhe dizer a todo o tempo que se casou com ela apenas em razão da expectativa de vê-la milionária ao atingir o vigésimo-quinto aniversário.
Narrado pela própria Karen, o estilo é exemplar do narrador inconfiável. Como apenas conhecemos a sua versão da história, tudo pode ser só expressão da sua insanidade ou talvez haja realmente algo de estranho, sobrenatural, incompreensível, algo que o cérebro humano esteja incapaz de entender por completo.
Um livro breve, com algumas ideias interessantes.

Profile Image for Nara.
717 reviews7 followers
January 15, 2022
"... e sim eu sei o que é viajar num comboio vazio durante a noite, meu amor.

"Imagining... no, remembering."
Quantas vezes somos enganados por algo que achamos que são lembranças e que na realidade estamos apenas imaginando? Ou vice versa? Quão tênue pode ser essa linha onde se divide a realidade daquilo que queremos que se torne realidade?
Karen é um livro incrível, daquele tipo de livro que você sente cheiros e até o rústico das pedras da casa!!! Eu amo livros que me afogam com palavras que parecem se tornar minhas próprias lembranças.
Favoritado!
Profile Image for Duarte Cabral.
194 reviews21 followers
Read
December 29, 2023
Sobre o carácter cíclico que nos prende a ficções, ao conforto de repetições repetidas ad nauseaum, das quais podemos fugir a qualquer momento. Tal implica um escapismo dum ser esbatido no espaço e tempo, e um retorno ao Eu Aqui e Agora. Porque na vida não há ciclos, só espirais que têm de ser vistas dessa forma. Belíssima forma de terminar um ano de leituras, sim senhora.
Profile Image for Esforçonulo.
151 reviews3 followers
Read
April 1, 2025
li na cama de barriga para baixo, com os pézinhos a dar a dar.

aos estúpidos incomodará a aparente simplicidade. é, e sempre será, uma pena.
Profile Image for Adéla.
268 reviews59 followers
May 30, 2023
Karen uklouzne, spadne, udeří se do hlavy a pak má pocit, že žije život jiné ženy, nepoznává lidi kolem sebe, všechny podezřívá, že jí ukradli její pravý život. A vy se společně s Karen či ne-Karen snažíte zjistit, kde leží pravda. Nebudu samozřejmě prozrazovat, jak to celé dopadne.
Minimalistická kniha plná vjemů, pozorování a literárních aluzí.
Profile Image for Alysson Oliveira.
387 reviews47 followers
December 9, 2018
Noir bucólico encoberto de neblina


A cascata soturna da capa da edição brasileira de “Karen” é uma imagem relativamente recorrente ao longo da novela da portuguesa Ana Teresa Pereira, primeira mulher a ganhar o Prêmio Oceanos, em 2017, por essa obra. A narradora pode ou não ser a mulher que dá o título ao livro. Talvez ela não seja Karen, mas uma outra pessoa envolvida numa trama ardilosa, tanto que a certa altura, confessa “[às] vezes, tinha pesadelos, todos [moradores da aldeia vizinha] sabiam quem eu era de facto, todos faziam parte de uma conspiração.”

A narrativa já começa repleta de referências cinematográficas, evocando o preto-e-branco de “Noites brancas”, de Visconti, e o colorido extravagante em Tecnicolor de “Narcisos negros”, de Powel & Pressburguer. São nesses dois extremos – pendendo mais para o primeiro – que a trama irá transitar. Karen é uma personagem de noir, sua dúvida de identidade persiste. Ela supostamente sofreu uma queda durante um passeio na cascata, e foi tomada por amnésia – é quase um motivo de telenovela. Ela mora numa casa de campo com o marido, o escritor Alan (com sobrenome mas sem dinheiro), e uma governanta, Emily. Todos podem estar envolvidos num teatro fazendo a narradora acreditar que é Karen, pois, afinal, esta ao completar 25 anos (dali a poucas semanas depois do acidente) receberá uma herança.

A literatura noir é recorrente nas páginas de Pereira também – tanto na forma de narrar, um tanto oblíqua, mas estilisticamente trabalhada. A narradora não é nada confiável – nem para ela mesma. Seria esse um noir chic? Cornell Woolrich é citado mais de uma vez em seu pseudônimo William Irish. E a evocação das paisagens e da casa beiram o gótico:

“A vereda agora descia, e tornava-se mais íngreme em cada curva, havia degraus talhados na rocha, e um vago corrimão de madeira que surgia de vez em quando. O bosque estava mergulhado em si mesmo, senti-me que éramos intrusos ao atravessarmos.”

A protagonista se vê enredada entre a memória e a ficção, e, não menos de uma vez diz, em inglês mesmo, “Imagining... no, remenbering.” O que lhe é mais confortável? A identidade que lhe impõem de Karen ou aquela da qual supõe se lembrar? É nessa lacuna que se dá a sua jornada interior. Encontrar uma simbiose entre a mulher que fora e aquela na qual se transformou depois do casamento talvez seja sua necessidade.

A graça na obra está, então, na combinação entra a chamada alta literatura, a investigação psicológica à Henry James, aliada às formas consideradas mais populares, como o noir, o pulp. O resultado que Pereira mira e alcança é cinematográfico. Não apenas pelas referencias que abundam – “Rebecca”, de Hitchcock (a partir do romance de Du Maurier) é sorrateiramente evocado o tempo todo – mas como o enredo se apresenta. “Karen” é uma novela implorando para ser adaptada para o cinema.
Profile Image for Carla Coelho.
Author 4 books28 followers
January 29, 2019
Quem é Karen? Essa é a pergunta que fica depois de concluir a leitura desta obra de Ana Teresa Pereira. Como em quase todos os livros desta escritora conhecemos as personagens sobretudo pelo universo que elas habitam: os seus livros, discos, filmes e paisagens. Só que nesta obra tais escolhas não surgem como reconfortantes perante as dificuldades da vida e não servem para unir. Pelo contrário, são os gostos distintos que separam de forma mais evidente Karen e a protagonista sem nome.
Num primeiro momento, recordei um outro livro de Ana Teresa Pereira, O Verão Selvagem dos teus Olhos, uma reinvenção de Rebecca de Daphne du Maurier contado pela perspectiva daquela personagem. Mas neste Karen fiquei com muitas dúvidas. Será que Karen e a narradora não são uma e a mesma pessoa? A história narrada na primeira pessoa torna-nos cúmplices da perspectiva da narradora. Podemos, então, desconfiar de tudo o que nos conta, como sendo produto de uma leitura parcial e subjectiva. Ou pelo contrário, a narradora substituiu Karen? Mas se assim foi, quando e porquê? Este livro tem um gosto de policial e thriller psicológico. A escrita concisa e fluída da autora prova, mais uma vez, que não são necessárias centenas de páginas, nem o recurso à suspeita de almas do outro mundo, vampiros ou entes fantasmagóricos, para criar um ambiente de tensão que torna o livro uma experiência tão inquietante quanto estimulante.
Profile Image for Felipe.
Author 9 books64 followers
June 2, 2018
Uma checada na orelha confirma a suspeita que se desenvolve ao longo das poucas páginas desta novela da portuguesa Ana Teresa Pereira: o clima gótico e os ecos de Henry James e Hitchcock são o forte da autora, e Karen é aparentemente um dos melhores exemplos de seus exercícios de estilo. Trama hipnótica sobre uma mulher que se descobre refém numa vida que não percebe como sua, Pereira desvela o psicológico de Karen sem pressa nem pretensão policialesca. O destino dessa mulher pode se tornar óbvio rapidamente, mas se prender ao mistério não deveria ser o foco aqui. O quebra-cabeças que cada um de nós precisa -e nunca tem certeza de como- montar para nos sentirmos como nós mesmos é o que mais intriga.
Profile Image for Marcos Faria.
234 reviews14 followers
September 20, 2019
O desafio de resenhar já começa quando tento dizer sobre o que é esse livro. É sobre uma mulher chamada Karen, que sofre de amnésia. Não, é sobre uma mulher que acha (sabe?) que foi posta no lugar de outra mulher, chamada Karen, a qual provavelmente foi assassinada pelo marido. Não, é sobre uma mulher que não é Karen mas aos poucos se torna Karen. Não, é sobre... É sobre a angústia de não pertencer ao mundo em que querem que nos encaixemos. É sobre a recusa a interpretar papéis sociais, e a possibilidade (ou impossibilidade) de escapar deles e de reinventar a própria vida.
Profile Image for Bruce.
26 reviews17 followers
May 2, 2019
(Observações sobre Karen, de Ana Teresa Pereira)

1 - Mais um livro que me cai no colo em abril - minto, comprei ano passado - e que questiona papeis de identidade e papeis de gênero usando o gênero literário como ferramenta para tal.

2 - A história envolve uma moça desmemoriada que acredita estar sendo convencida por uma conspiração que se chama Karen e é herdeira de uma fortuna. O romance transita entre a suspeita e o papel introjetado, mantendo o leitor em questionamento perpétuo sobre a verdade.

2a - Interessantemente a verdade é o que menos importa em quaisquer dinâmicas interpessoais se as lemos como meras narrativas. Vistas de fora, a suspensão de descrença se impõe mesmo sobre a realidade quando o inesperado vem à tona.

2b - Hum, parece que Pereira já captava os problemas advindos da era da pós-verdade.

3 - O tom do romance remete ao sulista gótico, sua principal referência o filme de Hitchcock, A Mulher Inesquecível, baseado no romance Rebecca, de Daphne Du Maurier, plagiado de A Sucessora, de Carolina Nabuco. (Sim, a teia de feitura da obra já renderia uma obra à parte.) Mas eu ouso ir além:

3a. Um dos filmes mais aclamados de Alfred Hitchcock é Um Corpo que Cai, onde James Stewart interpreta um detetive obcecado por uma mulher que andava seguindo e que acabou morrendo. Conhecendo uma mulher semelhante, ele começa a fazer com que ela se vista tal como a falecida. Há na personagem de Stewart um misto de assombro e necessidade de projeção satisfatória - e é um típico caso de machismo de molde, mas divago. O ponto que muitos críticos enxergam no filme de Hitchcock é a projeção do ideal feminino pelo homem.

3b. A obra de Hitchcock não é autorreferencial, mas dá abertura para o questionamento. O texto de Pereira é. Tal como A Abadia de Northanger, de Jane Austen, a referência de gênero e o constante embate entre autonomia e papel de gênero literário se apresenta. Os filmes e séries policiais que a Não Nomeada/Karen consome apresentam pistas, mas também são elementos de investigação que podem não levar ao resultado correto. E ainda assim, mesmo que a verdade se apresente, pode não haver satisfação a extrair dela.

3b1. I can't get no satisfaction... (adoro a versão do Devo.)

4. A ideia da cachoeira como o início da narrativa apresenta duas possibilidades: a) um batismo, onde a protagonista, a partir de agora, deve desempenhar um papel que lhe é apresentado tal como um novo cristão; e b) o espelho das águas que revela sua verdadeira identidade. Entretanto, a possibilidade "a" entra em choque com a crise existencial da protagonista pois introjetar um ideal é muitas vezes ir contra seus instintos, enquanto que a possibilidade "b" pode ser ampliada à questão das águas turvas, o espelho de seu ser sendo justo aquele obscurecido de que fala o apóstolo Paulo em I Coríntios 13.

4a. Isso me lembra que há momentos em que a protagonista se questiona se deve abraçar mesmo o que lhe projetam. Bom, "ainda que eu tivesse fé tal que movesse montanhas, sem amor nada seria".

4b. Nada de citar Legião Urbana aqui, ok?

5. Há dois mistérios então que percorrem o livro (percorrer? que clichê!): a) os verdadeiros interesses de quem a chama e a conhece como Karen, e b) o que houve antes da cena da cachoeira? O leitor, tal como Karen, é jogado em cena de vez tal como a vítima de um crime em Law and Order: Traffic Department. O suspense todo vem da sensação de se estar suspenso - esse é o horror de não saber em que narrativa podemos nos encontrar.

6. Que eu saiba até hoje ninguém sabe o que aconteceu com o motorista da limusine em O Sono Eterno, de Raymond Chandler, e é um clássico.

7. Karen tem todo potencial para ser um clássico.
Profile Image for Carlos.
Author 13 books43 followers
April 14, 2021
A inesquecivel mulher esquecida

O texto abaixo é parte do roteiro da resenha completa que pode ser vista neste vídeo no canal Admirável Mundo Livro:

https://www.youtube.com/watch?v=TkwEW...

Certa noite, uma mulher sem nome acorda numa cama estranha na casa suntuosa de um desconhecido. Não é o resultado de uma noite tórrida de “intimidades com estranhos”, como ela mesma costuma definir as vagas memórias de uma vida sexual intensa. Ela tem dores, e o homem, ao falar com ela, manifesta preocupação porque, num impulso, ela tentou atravessar as águas de uma cascata e feriu-se numa queda. A protagonista, que todos chamam de Karen, tem lembranças difusas disso, e não guarda nenhuma recordação do estranho, Alan, que se apresenta como seu marido.

Durante sua recuperação, é tratada com deferência e distância pelo suposto marido e pela governanta Emliy, ambos empenhados em trazer à tona suas recordações como senhora da casa. Estudante de literatura, Karen apaixonou-se por Alan, um aristocrata arruinado após ler o único livro publicado por ele, um volume de contos. Casaram-se rápido e ela se mudou para a mansão localizada nas proximidade de uma aldeia em Northumberland.

O problema é que isso não bate com as recordações de Karen, que tem memórias nítidas de ser uma mulher solteira, aspirante a pintora e residente em Londres. Aos poucos, a confusão vai dando lugar à paranoia de que ela não seja Karen, e sim uma vítima aleatória escolhida para substituí-la. Embora tenha o tipo de enredo aparentado com o molde de uma dezena recorrente de thrillers, do clássico Rebecca, de Daphne du Maurier ao Antes de Dormir de S.J.Watson, com acenos ainda a filmes de Hitchock e à obra do romancista policial William Irish, pseudônimo do clássico autor do gênero Cornell Woolrich, Karen rejeita a categorização fácil. Sua prosa é narrada em capítulos curtos e elusivos, atenta menos a fatos do que a uma atmosfera de sensações de perigo.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews39 followers
February 20, 2021
Este é um livro que ilustra na perfeição a ideia, mil vezes repetida, de que “quanto mais simples é uma história, maior é a arte de a contar”. Porque “Karen” é uma história simples – um leque reduzido de personagens, espaços perfeitamente demarcados, uma mulher com amnésia após um acidente, aquilo que se insinua como um triangulo amoroso – e porque consegue, através duma escrita engenhosa e particularmente visual, envolver completamente o leitor e obrigá-lo a prolongar o livro para lá da derradeira linha.

Carregando o livro de referências cinéfilas, Ana Teresa Pereira faz questão de nos mostrar ao que vamos logo nas páginas iniciais. Se os nomes de Deborah Kerr, Kathleen Byron, Maria Schell ou Marcello Mastroianni colocam a tónica no cinema, os romances de autores da primeira metade do século XX ou as séries policiais indiciam o carácter misterioso da história. O resto é isso mesmo, a história. Uma bela história, centrada na figura desta mulher que toda a gente trata por Karen mas que rejeita, intimamente, todas as evidências, ao mesmo tempo que assume uma duplicidade perturbadora. É para “Noites Brancas” e Visconti ou “Quando os Sinos Dobram” e Powell e Pressburger que a autora explicitamente remete, mas na realidade é na sombra de Hitchcock e de Daphne du Maurier que seguimos.

Lançado no campo do “thriller”, “Karen” é, todo ele, um manancial de pistas. Constantemente deparamos com apontamentos breves nos quais já tínhamos “tropeçado” algumas páginas atrás. É então que a sensação de “déjà-vu” se torna avassaladora, nela se identificando o leitor com a personagem principal do livro. Página após página, o romance vai-se construindo ao mesmo tempo que a estranheza e a inquietação se vão sedimentando. A dúvida cede lugar ao medo. Levando a tensão ao extremo, Ana Teresa Pereira remata com um golpe de génio, um flashback onde se reforçam semelhanças e percebem diferenças. Terminado o livro, consegue o leitor resistir ao apelo de voltar ao início?
Profile Image for David Pimenta.
378 reviews19 followers
February 10, 2019
Este Karen da Ana Teresa Pereira foi um livro extremamente curioso para mim. Não me posso esquecer de que as expectativas estavam elevadas (afinal, para mim o Anunciações da Maria Teresa Horta devia ter levado, pelo menos, o segundo lugar na premiação Oceanos em 2017...), mesmo antes de iniciar este livro. Não existir qualquer sinópse esclarecedora ou uma biografia "activa" da escritora também é um aperitivo para mergulhar neste livro.

Tenho a dizer que as expectativas não foram alcançadas. A história do livro é encantadora e sinistra, de certa forma. Uma rapariga de nome Karen (se bem que nunca sabemos se é realmente este o seu nome, da rapariga que nos relata a história) desperta na cama de um casarão inglês, sem se recordar de como foi ali parar. Com a (suposta) "queda" numa cascata perto de casa, os pormenores da sua vida ficaram nublados.

E este é o ponto de partida para uma história simples, recheada de referências cinematográficas e literárias. Não foi a escrita em si que me chamou a atenção ao longo da leitura, mas a sensação proporcionada. Ambiente cinematográfico? Provavelmente seja essa sensação que mais retive. Mas como foi a primeira obra que li da Ana Teresa Pereira, não posso dizer que fiquei apaixonado. A ver vamos se tudo muda com mais livros lidos, no futuro.

3/5
Profile Image for Estefania Xavier.
7 reviews2 followers
October 16, 2020
Imagine acordar em uma certa manhã, depois de sonhos inquietos e perceber que não lembra quem você mesma é. Você tem um vislumbre, uma memória lá ao longe que te acena. Mas todos dizem que você agia de modo diferente do que você se lembra. Será que aquilo tudo é uma lembrança ou uma imaginação? Você foi quem queria ser ou projetou tudo de maneira tão forte que agora nem sabe mais diferenciar realidade de projeção? .

Ler Karen é entrar nas águas geladas e profundas da cascata que permeia a narrativa de Ana Teresa Pereira. Você precisa estar preparada para se molhar e para se deixar levar pela correnteza. Seria a vida rio no qual não podemos nos banhar duas vezes, seguindo Heráclito? Ou será que tudo é um ciclo e você volta para a estaca inicial? .

A personagem principal do livro é um mistério a ser desvendado por ela mesma e por quem a lê. E no final das contas não somos nós mesmos aqueles a serem perscrutados todos os dias? .

Ler "Karen" é uma experiência sensorial e psicológica que vale a pena. Terminar a leitura em um dia chuvoso foi agradavelmente especial.
Profile Image for Raphael Santos.
Author 11 books4 followers
November 13, 2025
A escrita da autora não é ruim, mas a história deixa a desejar. O livro gira em torno de uma pintora que acorda em uma casa desconhecida, cercada por pessoas que ela nunca viu antes — e todas a chamam de Karen. A premissa é interessante: acompanhar a protagonista enquanto tenta descobrir quem são aquelas pessoas, o que está fazendo ali e, principalmente, quem é Karen. No entanto, a trama se desenvolve de forma vaga. As perguntas são levantadas, começam até a ser exploradas, mas não chegam a um desfecho claro ou satisfatório. A impressão que fica é a de que a obra tenta provocar uma reflexão existencial sobre identidade e autoconhecimento, algo mais simbólico e subjetivo. Mas, ao menos para mim, essa intenção não foi bem executada. Faltou profundidade ou talvez um pouco mais de direção para realmente impactar.
Profile Image for Bruno Grandchamp Rodilha.
12 reviews
June 14, 2018
Realismo fantástico ao melhor estilo latino-americano, carregado pela atmosfera misteriosa que só pode acontecer na Europa. Uma boa leitura do gênero e uma ótima porta de entrada para essa autora portuguesa que vem se consolidando no cenário há bastante tempo.
No entanto, mesmo com um mistério empolgante e uma personagem cativante, todo o ambiente que a circunda parece se perder ao longo da novela. Talvez isso seja uma indicação do porque esse tipo de narrativa (fantástica) deve se ater a poucas páginas (ou parágrafos), evitando ao máximo que o leitor perca o choque durante uma leitura excessivamente longa.
No geral, é uma ótima leitura para quem gosta do gênero, mas não é uma narrativa tão genial como poderia ter sido.
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