"Filho de Rubem Braga com Sam Shepard", crava Gregorio Duvivier na orelha deste livro. A afirmação não é fora de propósito. Se a prosa de Fabrício Corsaletti vive impregnada do humor e do lirismo do primeiro, também partilha da errância e do desamparo do segundo. Vem daí a sede de movimento que impele os personagens inesquecíveis deste Perambule, reunião de sessenta textos recentes, em que o autor alterna crônicas longas com poemas em prosa e em verso, crônicas curtas e microcontos. Andarilho convicto - como fica claro na estupenda crônica de abertura, "Paterson" -, Corsaletti inventa nestas páginas os mais variados trajetos, cruzando ruas de São Paulo, Rio, Paris ou Amsterdã, sobrevoando de drone sua cidade natal, no interior paulista, ou explorando o vasto mundo através do Google Earth, palmilhando o asfalto das metrópoles ou as estradas de terra batida da infância. O que importa, como diz o famoso poema de Blas de Otero, é "Sair/ Deste cárcere espaçoso e triste,/ Aliviar os rios e os sóis,/ Sair, sair para o ar livre, para o ar".
Sobre o autor
Fabrício Corsaletti nasceu em Santo Anastácio, SP, em 1978, e desde 1997 vive em São Paulo. Em 2007 publicou o volume Estudos para o seu corpo, que reúne seus quatro primeiros livros de poesia: Movediço (2001), O sobrevivente (2003) e os então inéditos História das demolições e Estudos para o seu corpo. Também é autor dos contos de King Kong e cervejas (2008), da novela Golpe de ar (2009), dos poemas de Esquimó (2010, prêmio Bravo! 2011), Quadras paulistanas (2013) e Baladas (2016), e das crônicas de Ela me dá capim e eu zurro (2014), além dos livros infantis Zoo (2005), Zoo zureta (2010) e Zoo zoado (2014). Desde 2010 é colunista da revista sãopaulo, do jornal Folha de S. Paulo
Nasceu em Santo Anastácio, no Oeste Paulista, em 1978, e desde 1997 vive em São Paulo. Formou- se em Letras pela USP e em 2007 publicou, pela Companhia das Letras, o volume Estudos para o seu corpo, que reúne seus quatro primeiros livros de poesia: Movediço (Labortexto, 2001), O sobrevivente (Hedra, 2003) e os então inéditos História das demolições e Estudos para o seu corpo. Também é autor dos contos de King Kong e cervejas (Companhia das Letras, 2008), da novela Golpe de ar (Editora 34, 2009), dos poemas de Esquimó (Companhia das Letras, 2010, prêmio Bravo!) e Quadras paulistanas (Companhia das Letras, 2013), das crônicas de Ela me dá capim e eu zurro (Editora 34, 2014), além dos livros infantis Zoo (Hedra, 2005), Zoo zureta (Companhia das Letrinhas, 2010) e Zoo zoado (Companhia das Letrinhas, 2014). Com Alberto Martins escreveu Caderno americano (Luna Parque, 2016), que reúne poemas em prosa dos dois autores sobre a América Latina, e com Samuel Titan Jr. traduziu 20 poemas para ler no bonde, do argentino Oliverio Girondo (Editora 34, 2014). Desde 2010 é colunista da revista sãopaulo, do jornal Folha de S.Paulo, onde publica quinzenalmente crônicas e poemas.
Meu chefe paulistano me recomendou o livro dizendo que, assim como eu, o autor tem um olhar diferente a respeito de São Paulo (por ter vindo do interior). Já na primeira página fui levada de volta ao meu primeiro ano trabalhando na Angélica e daí pra frente só melhorou. Escrita de coisas banais que só quem repara vê. Linguagem sincera e sem esforço que parece conversa de bar. Já li e reli.
Se engana quem pensa que o flanêur ficou relegado às boulevards da Paris do século XIX. Ele sobrevive no século XXI, sendo muito bem representado na prosa (e na poesia) de Fabrício Corsaletti, cronista e poeta paulista, especialmente nos seus textos reunidos em Perambule (Editora 34, 2018). A coletânea reúne 60 crônicas, poemas, poemas em prosa e textos curtos que driblam essas classificações, a maioria publicados entre 2014 e 2017 na coluna quinzenal que o autor assina na revista sãopaulo, da Folha de S. Paulo. Perambule, como o título do livro e a crônica de mesmo nome já indicam, reúne a produção de Corsaletti centrada no ato de caminhar por aí, de observar lugares, pessoas, situações, e nos contar sobre as maravilhas e bizarrices que estão escondidas (ou até mesmo escancaradas) do lado de lá da porta de casa. São textos que trazem imagens do cotidiano, das ruas, dos bares, restaurantes e karaokês de São Paulo (mas também do Rio de Janeiro). O olhar de Corsaletti sobre a metrópole traz à sua prosa um tanto de humor, de admiração e de espanto acerca de coisas tão cotidianas quanto o cardápio do boteco, ou o pote de manteiga do chapeiro. Peço permissão para usar como exemplo um dos textos mais curtos e inclassificáveis que mencionei no parágrafo acima. Se chama Figura: “Adora o prato do dia dos botecos. Segunda, virado à paulista. Terça, dobradinha. Quarta, feijoada. Quinta, macarrão com frango. Sexta, peixe. Sábado, feijoada de novo. (No domingo sofre, trancado no quarto, lendo jornal.) Não que sobreviva à base dessa dieta. Em geral almoça em casa. Mas gosta de saber que ela existe. Que ao meio-dia de uma segunda-feira, por exemplo, milhares de bistecas acompanhadas de arroz, couve, tutu, torresmo e ovo são devoradas pela cidade. Diz que lhe dá uma sensação de ordem, de segurança, de que bem ou mal a coisa toda funciona, de que estamos juntos e no caminho certo.” Entre uma crônica e outra em São Paulo, Corsaletti também perambula pelas ruas e estradas de terra de sua cidade natal, Santo Anastácio, no oeste paulista. A cidade, localizada a 600km da capital, serve como um respiro no livro, uma fuga necessária em meio a tanto caos urbano. Nas crônicas ambientadas nessa Santo Anastácio de Corsaletti, é possível sentir o cheiro dos laranjais, respirar o ar mais leve, tocar a nostalgia impregnada entre as linhas. Como em Escura, uma das minhas favoritas do livro: “É uma loja grande e escura, eu dizia, no centro da cidade onde nasci, e dentro dela me sinto protegido, distante da neurose e dos problemas, sonhando com uma das vidas que não tive e me esquecendo da vida real em que me perco enquanto a atravesso e sou por ela atravessado.” A leitura do livro flui de forma deliciosa, seu estilo despretensioso e tranquilo seduz, como se cada texto convidasse para mais um pouco de caminhada, mais uma rodada por conta da casa, e vamos ficando, ficando. Cronista veterano, Corsaletti (que já pode ser considerado uma reencarnação de Rubem Braga) sabe como manter a conversa rolando até a hora do bar fechar, e ainda nos conta mais alguns causos no caminho de volta para casa. Depois de fechar o livro, a vontade é de sair por aí, caminhar, respirar um pouco de ar puro, ou um pouco de fumaça de caminhão. Não é necessário ir longe, o convite está feito, e o destino depende de onde os pés irão levar. O próprio Corsaletti nos dá o exemplo: “Às vezes, depois de fechar um poema, vou até a padaria como se desse a volta ao mundo.”