"Em 'Partidas', a luta começa antes, a luta está no cotidiano e, em consequência, a literatura já não é o veículo que doma e embeleza o evento. Isso significa que, ao destaque do cotidiano, passa a corresponder, neste livro, um gesto de extrema coragem. A coragem de dizer a perda, sabendo que ela não se perde menos por ser dita — 'as dores não duram mesmo que as reguemos aflitivamente'. A coragem de reconhecer falsas as promessas de amor eterno, pronunciadas mesmo no instante da despedida — 'quieto, quieto, não és meu semelhante. Iguaizinhos entre são os lados de um quadrado: a geometria é uma abstração'. A coragem de saber ainda que o acerto não passa de uma pausa entre erros — 'situações certas são o vazio admitido entre duas situações erradas'. Não se trata, porém (...) de um pessimismo sistemático, que, em vez de apresentar douradas pílulas, optaria pelas amargas. (...) Trata-se, sim, da disponibilidade em conhecer o instante, em saber que um pedra nunca é apenas uma pedra. Nem o nome apenas um nome. É mesmo por efeito desse corpo-a-corpo com o cotidiano que os 'contos' da autora tanto se diferenciam dos contos, antes se deixando atravessar pela alusão a fábulas infantis e se aproximando da alegoria."
Vilma Arêas (Campos dos Goytacazes, 1936) é uma escritora e ensaísta brasileira.
Estreou como ficcionista em 1976, publicando o livro de contos Partidas. Ainda como contista, escreveu A terceira perna (1992, vencedor do Prêmio Jabuti da categoria), Trouxa frouxa (2000) e Vento sul (2011, prêmio Alejandro José Cabassa da União Brasileira de Escritores). É autora também do livro infantil Aos trancos e relâmpagos (1988).
Professora do departamento de teoria literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, é uma estudiosa da obra de Clarice Lispector, sobre a qual escreveu Clarice Lispector com a ponta dos dedos (2005, prêmio APCA na categoria Literatura).