Esses textos, que incialmente parecem simples, são de uma grandeza imensa. Falam de uma coletividade cuja infância vem sendo roubada. De pequenos jovens obrigados a decidir como homens, sem terem os valores que alicerçam suas escolhas. Falam de vidas truncadas, estatutos rasgados e futuros esfarelados como a poeira do chão que eles pisam.
O autor consegue nos levar ao clima da Fundação Casa, que de Casa não tem nada, de forma quente e espessa como sangue, que parece escorrer das mãos que escrevem. A linguagem neste livro é seca, dura como a pedra e a dor, que crava fundo em quem o lê.
Só tomamos consciência de muitas coisas quando confrontados diretamente com elas, às vezes isso causa algum tipo de mudança drástica em nós, noutras, o momento passa e voltamos ao dia a dia fazendo do choque uma lembrança arquivada.
Nesses relatos, Lucas traz uma realidade que para muitos de nós é apenas ficção, conhecida dos jornais e televisão ou debates que muitas vezes só apontam e não trazem soluções práticas. Faz você pensar sobre o que significa a palavra PRIVILÉGIO, dá outro sentido, adquire um contexto real em que você passa a valorizar coisas simples como passar manteiga num pedaço de pão um luxo, algo digno dos livros de história.
Lucas não traz relatos romantizados, seria estranho se assim o fizesse porque soaria como algo imaginado e idealizado. Não, ele pode até ter usado certa licença poética aqui e ali mas respeitou os relatos como foram ouvidos, como chegaram a ele usando dos mais variados formatos para dar veracidade ao que muitas vezes parece irreal de tão distante da realidade que vivemos do alto de nossos castelos cristalinos.