Fiel às suas raízes argentinas, Cristina Norton segue a tradição dos grandes contistas latino-americanos. A Vida É Um Tango é uma prova disso. As suas histórias transportam-nos à Argentina, ao México, a França e a Portugal, dando-nos a conhecer um cleptómano que rouba a voz de um grande cantor, uma pintora com uma vida insólita, uma mulher que lê o destino nas folhas de chá, um anão bombeiro, uma menina malcomportada, a perna perdida de uma grande artista, a vingança póstuma de uma sogra, entre outras personagens e coisas memoráveis.
Algumas destas histórias são fruto das vivências da autora, como «A Mãe da Plaza de Mayo». Outras, do seu hábito de observar o quotidiano sob uma perspectiva irónica e cheia de picardia. Como foi o caso de duas mulheres muito parecidas num consultório, onde aguardam a chegada de um homem, episódio que inspirou o conto «O Bígamo». Imagens rápidas como flashes, que levam Cristina Norton a escrever rascunhos, com a rapidez de quem esboça uma paisagem, para depois os trabalhar até atingirem a forma redonda de um conto, serem um relato curto, mas intenso, para levar o leitor a lê-lo de uma assentada.
Estas histórias poderiam ser o «fado» de alguém, a dança da vida ou a letra de um tango.
CRISTINA KACE NORTON nasceu a 28 de Fevereiro de 1948, em Buenos Aires, Argentina. Reside há mais de 30 anos em Portugal e optou pela nacionalidade portuguesa. Fez vários cursos de línguas e literatura. Está publicada no Brasil e no Chile. A sua obra engloba a poesia, o romance e o conto, da qual destacamos os livros O Afinador de Pianos, O Lázaro do Porto, Os Mecanismos da Escrita Criativa, O Segredo da Bastarda, O Barco de Chocolate – contos infantis, Prémio Adolfo Simões Müller, 2002; em 2.ª edição, com ilustrações de Danuta Wojciechowska – A Casa do Sal e agora O Guardião de Livros. Trabalha, desde 1998, em oficinas de escrita criativa dando, com o seu método, cursos de formação a professores, organizados pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, pela Fundação Calouste Gulbenkian e por outras instituições.
The book is excellently written, but each story made me feel terrible. All the characters (or almost all) are flawed and miserable, or cause others to be miserable. The geniality of the Writer is put to the service of stories that leave one feeling nauseated. That is why, recognizing her mastery of writing, I wonder what made her write these particular stories. I have read at least one book from her that was very inspiring. Maybe it is my flaw too, but I much rather have a book that inspires people to be their best possible selves, instead of one that brings about all that is dark in the recesses of the mind. It is true that by bringing that to the light, maybe it still does a service to humankind.
Neste livro de contos, Cristina Norton fala de gente normal, com problemas familiares, de coração, trabalho, que bem podiam ser nossos vizinhos, de tão banais que parecem. E esta normalidade, associada a uma escrita límpida, seduz-me na leitura. O problema é que fico à espera do “twist”, da reviravolta final, capaz de me deixar “Oh, a sério?”
E isso não acontece nestes contos. Mergulhamos na vida das personagens e, depois, saímos dececionados com o seu destino. Afinal a vida banal acaba por ter um final banal…
Numa escrita latina, atenta ao peso dos outros nas nossas vidas, revisitamos as obrigações familiares e o olhar modorrento da sociedade, imbuídos de um sentimento de culpa, típico de quem conhece a força do pecado. O lado solto e corrido da narrativa acolhe as vidas que sobram destes personagens, por vezes, o registo de uma vida inteira cabe nestes contos.