A história do final da primeira república italiana tem início, para Marco Damilano, com o rapto de Aldo Moro, o presidente da Democrazia Cristiana (DC), o “partido-estado”, em 1978. Este livro é muito importante para compreender esse momento histórico e fá-lo, permitindo ao leitor entrar efetivamente no contexto cultural italiano das últimas décadas.
Convocando a experiência pessoal de Marco Damilano, logo no início do livro, percebemos a importância daquele dia 16 de março de 1978 na vida da criança que frequentava a escola num local muito próximo daquele onde se deu o sequestro de Aldo Moro pelas Brigade Rosse e o assassinato dos seus agentes de segurança, bem como a mudança que, sem os italianos suspeitarem, se operaria a partir daqueles 55 dias de cativeiro. A ação decorre, por isso, convocando diversos elementos e, para tanto, foi muito o trabalho de campo e de investigação efetuado: são citados jornais do dia, é revista correspondência de Moro e são feitas entrevistas (por exemplo, aos filhos do que viria a ser presidente do Conselho Craxi, do partido socialista italiano, caído em desgraça e no exílio, após condenação por corrupção).
Somos também recordados do assassinato (igualmente mal explicado) de Pasolini uns anos antes (e da opinião do autor de Pasolini e Moro serem as duas pessoas que verdadeiramente compreendiam Itália), dos sucessos e insucessos da DC (quer a nível eleitoral, quer na incapacidade para reformar o país) e os sucessivos acordos partidários que se procuravam estabelecer. E justamente aqui está o centro da história: o “compromisso histórico” que o presidente da DC desejava com o secretário-geral do maior partido comunista do Ocidente e segunda força política italiana, Berlinguer. A ideia de reformar o país por esta via não agradava às bases, não agradava aos partidos, não agradava aos EUA (e Kissinger, em especial, desconsiderava completamente Moro) e não agradava à URSS. O sequestro doloroso e a morte após 55 dias apresenta-se, para o autor, com golpes shakesperianos, sobretudo da parte da DC e do Governo. O presidente da DC é completamente abandonado, num contexto em que, sabemos, o Ministro do Interior (e futuro presidente do Conselho e presidente da República) Francesco Cossiga vinha sendo aconselhado pela inteligência americana. Para Damilano, Itália padece de “culpa coletiva” por ter permitido a morte de Moro, após sequestro de 55 dias, sem nunca o ter libertado.
O título, muito bem conseguido, convoca parte de uma carta impressiva de Moro, durante o cativeiro: “O que peço ao partido é um esforço de reflexão num espírito de verdade. Porque a verdade é maior do que qualquer lucro. Dai-me, de uma parte, milhões de votos e tirai-me, da outra, um átomo de verdade e eu ficarei a perder de qualquer forma. Sei que as eleições pesam em relação à clareza e à objetividade dos juízos que o político é chamado a formular. Mas a verdade é a verdade” (p. 262, tradução minha).
Infelizmente, ainda hoje, as zonas de penumbra permanecem e a verdade não se conhece de modo completo. Sabemos – isso sim – que por no mínimo incúria e no máximo “razão de Estado”, Moro foi morto, após tentativas de união e reforma do seu país que não mais foram tentadas e que levaram, nos anos 90, à derrocada do sistema partidário e ao surgimento de um ambiente cultural e político completamente diverso.