Adão e Eva no Paraíso, seguido de O Senhor Diabo e outros contos inclui todos os contos que Eça deixou completos e publicou em vida.
Jorge Luis Borges dizia que o conto «serve para expressar um tipo especial de emoção, de signo muito parecido com a poética, mas não sendo apropriado para ser exposto poeticamente, representando uma narrativa próxima da novela, mas diferente dela na técnica e na intenção», e Eça parece antecipar todas as características do conto moderno. Como diria António José Saraiva, para Eça «o conto é geralmente uma tese e uma fantasia; ou melhor, uma tese revestida de fantasia – melhor ainda uma fantasia armada sobre uma tese». Há a promessa de satisfazer o gosto de cada um dos leitores, pois aqui se encontram os temas predilectos de Eça: a impossibilidade de realização do amor, o adultério, o divino, a crítica à cultura burguesa, até o fantástico. Eça explora e tira o máximo partido deste género literário, dando assim asas a uma maior criatividade da sua escrita.
José Maria Eça de Queirós was a novelist committed to social reform who introduced naturalism and realism to Portugal. He is often considered to be the greatest Portuguese novelist, certainly the leading 19th-century Portuguese novelist whose fame was international. The son of a prominent magistrate, Eça de Queiroz spent his early years with relatives and was sent to boarding school at the age of five. After receiving his degree in law in 1866 from the University of Coimbra, where he read widely French, he settled in Lisbon. There his father, who had since married Eça de Queiroz' mother, made up for past neglect by helping the young man make a start in the legal profession. Eça de Queiroz' real interest lay in literature, however, and soon his short stories - ironic, fantastic, macabre, and often gratuitously shocking - and essays on a wide variety of subjects began to appear in the "Gazeta de Portugal". By 1871 he had become closely associated with a group of rebellious Portuguese intellectuals committed to social and artistic reform and known as the Generation of '70. Eça de Queiroz gave one of a series of lectures sponsored by the group in which he denounced contemporary Portuguese literature as unoriginal and hypocritical. He served as consul, first in Havana (1872-74), then in England, UK - in Newcastle upon Tyne (1874-79) and in Bristol (1879-88). During this time he wrote the novels for which he is best remembered, attempting to bring about social reform in Portugal through literature by exposing what he held to be the evils and the absurdities of the traditional order. His first novel, "O crime do Padre Amaro" (1875; "The Sin of Father Amaro", 1962), describes the destructive effects of celibacy on a priest of weak character and the dangers of fanaticism in a provincial Portuguese town. A biting satire on the romantic ideal of passion and its tragic consequences appears in his next novel, "O Primo Basílio" (1878; "Cousin Bazilio", 1953). Caustic satire characterizes the novel that is generally considered Eça de Queiroz' masterpiece, "Os Maias (1888; "The Maias", 1965), a detailed depiction of upper middle-class and aristocratic Portuguese society. His last novels are sentimental, unlike his earlier work. "A Cidade e as Serras" (1901; "The City and the Mountains", 1955) extols the beauty of the Portuguese countryside and the joys of rural life. Eça de Queiroz was appointed consul in Paris in 1888, where he served until his death. Of his posthumously published works, "Contos" (1902) is a collection of short stories, and "Últimas Páginas" (1912) includes saints' legends. Translations of his works persisted into the second half of the 20th century.
Eça de Queiroz - Adão e Eva no Paraíso e outros Contos
Habitualmente, aprecio o género de contos porque a leveza com que são escritos facilita uma leitura muitas vezes entrecortada com os múltiplos afazeres do dia-a-dia. E foi essencialmente falta de leveza o que encontrei nestes contos. Sendo Eça um escritor do século XIX e figura central do realismo português, e um Naturalista como habitualmente é caracterizado, o que se nota nesta coletânea marcada por uma crítica social contundente, um estilo elegante e irônico, e uma prosa muito bem construída, porém, por vezes demasiado pesada e descritiva. E aqui, o meu único desagrado, uma escrita fluente, erudita, mas demasiado marcada pela descrição dos cenários e pormenores, uma descrição por vezes gongórica e quase sempre excessiva. Não gosto do excesso no detalhe e Eça excede-se neste defeito. Já quando o texto quando entra pela ironia fina, pela elegância literária e sarcasmo subtil, Eça não tem par. Frases como “… os grandes aparelhos facilitadores do pensamento – telégrafo, fonógrafo, telefone, o teatrofone e outros ainda, todos com metais luzidios e longos fios …” em Civilização, ou “… nessa noite esfuraquei o ato de José Matias com a ponta de uma psicologia que expressamente aguçara – e já de madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em filosofia, que me encontrava diante de uma causa primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para ele, para mim, ou para o mundo, a ponta do meu instrumento …” em José Matias, são bons exemplos desta arte da prosa, desta ironia tão Queirosiana. Este é o Eça que gosto. A sua carreira diplomática e a influência que teve de escritores franceses como Flaubert, Zola e Balzac, determinaram o seu gosto por uma escrita naturalista da segunda metade do século XIX, uma forma de realismo levada ao extremo em que é tentada a representação da realidade de uma forma científica, determinista e objectiva. Nesta forma de escrita as personagens são fruto do meio e das suas condições sociais. A linguagem é muitas vezes direta com descrição de vícios, doenças, loucura, sexualidade, miséria, corrupção e degradação humana. Tudo é mostrado sem idealizações num mundo apresentado por um narrador frio distante e analítico. Assim descrito tem algum apelo, porém na prática peca pelo excesso. Alguns contos merecem referência particular. O primeiro deles, “Adão e Eva e no Paraíso", é, como o nome indica, localizado no paraíso logo após a criação do mundo e de Adão e Eva. E Paraíso porque ambos vivem numa harmonia com a natureza que Eça satiriza como que a dizer-nos, um Deus inteligente e que realmente gostasse da sua criação não a poderia ter colocado num mundo tão cheio de perigos. Eça utiliza aqui o mito da criação para ridicularizar as certezas das autoridades religiosas que com pompa e circunstância datavam e descreviam com “pormenor” e douto rigor todo o processo da criação do mundo. Neste conto em particular, Eça parece-me afastar-se, ridicularizando o mito da criação, para exprimir antes uma admiração pelo facto de os humanos enquanto espécie terem conseguido sobreviver na difícil luta da adaptação da espécie. Sem nunca o dizer expressamente, parece-me um Eça em apoio da teoria evolucionista que então ia acolhendo apoiantes e detratores. O segundo conto, “O Sr Diabo”, Eça mantem-se dentro deste tema e aborda o mito da criação, o bem e mal com humor e ironia. Um outro conto que me parece justificar uma referência em particular é "A Perfeição". Este é uma narrativa alegórica alicerçada no seu profundo conhecimento da mitologia e literatura grega de onde a partir da Odisseia de Homero usa Ulisses, para outra abordagem do mito da criação e livre-arbítrio humano, repor no Homem e na humanidade o desejo e responsabilidade de ser o próprio a determinar o seu próprio caminho. E nesta ilha, que mais uma vez representa o “Paraíso” o Homem opta por abandoná-la para se entregar aos perigos de um mundo governado por Deuses injustos, invejosos da natureza humana, mas também cientes das suas próprias fraquezas e pecados. Estes são alguns dos escritos que podemos encontrar nesta coletânea de contos onde, para além de uma escrita descritiva, demasiado para mim, podemos saborear o conduto das palavras e o silencio dos espaços que as separam.
A par de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós é um dos meus autores clássicos favoritos. Já li muitos dos seus livros, mas quando chegam novas edições às livrarias, e sobretudo edições como estas, com capas belíssimas e cuidadas, a minha vontade de pegar novamente neles aumenta. Por não gostar particularmente do género conto, Eça de Queirós é difícil resistir.
Adão e Eva no Paraíso é o primeiro conto, que dá inclusive, título à obra. Confesso que não me prendeu, nem este nem o segundo conto: O Senhor Diabo. Talvez devido à temática, acaba por ser um tema demasiado fantasioso, longe do relato mundano que Eça nos habituou. O mesmo digo para A Perfeição e o O Suave Milagre.
Mas o terceiro conto, até bastante conhecido do autor, e considerado o primeiro conto realista da literatura portuguesa, Singularidades de uma Rapariga Loura me prende ao livro e me faz recordar o Eça que li há muito tempo. A rapariga loura que vai ser a desgraça de um homem trabalhador, mas obstinado, que deixa o tio e o emprego confortável para casar com ela, até se aperceber que a sua amada tem uma singularidade que não abona em nada em seu favor.
Reli com prazer esta edição da Guerra e Paz, que no final tem notas sobre as primeiras publicações dos contos, um texto de Raúl Brandão e uma introdução de Ana Castro Salgado. Continuo a preferir O Defunto e O Tesouro, mas reli com especial assombro Frei Genebro: «O anima mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!» (p.160).