Trazem o que lhes restou: um caderno, um brinco, fotografias, a t-shirt do filho que morreu, um bebé a crescer na barriga, o barulho do seu quarto a ruir. Atravessado o mar, ergue-se o obstáculo inesperado: o muro construído pela hostilidade, esquecida dos que sucumbiram sem refúgio em território europeu, há menos de um século. À porta do muro alastram os campos de refugiados - chão de pedras, ratos, tendas fustigadas pelo sol, pela neve, pelas quezílias.
De todo o mundo acorrem os que ajudam. Levam as mãos para amparar, mimar, oferecer e cozinhar, os olhos para ver e entender.
As histórias são mais que mil e uma. A de Amina e Omid, os fugitivos, a de Dimitris, o grego cercado pelos seus próprios muros, as de Ann e Saud, Juan e Eleni. Vidas suspensas, à beira do muro, à porta da Europa.
Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1976-81), frequentou o Centro de Estudos Judiciários em 1983 e foi magistrada em Montemor-o-Novo entre 1985 e 1988, em Torres Vedras entre 1989 e 1994 e em Cascais, entre 1994 e 1998. É magistrada na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa. Publicou o seu primeiro romance, Juízo perfeito, em 1996. Colabora regularmente em revistas literárias e jurídicas. Foi Prémio Máxima de Literatura em 2000 com o romance À tua espera e, em 2009, recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores/Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas 2008 pelo romance A terceira mãe.
Que obra. Que livro importante. Por muito que leia sobre refugiados, todos os bons livros me deixam de rastos e este foi mais um… será um bom livro para ser lido por todos aqueles que apontam o dedo aos recolocados que chegam a Portugal e que não se conseguem integrar ou que, em podendo, partem rumo à “Europa”.
Um livro que nos "atira à cara" o egoísmo da Europa face a quem nos procura em busca de abrigo. Um livro ao mesmo tempo tão difícil e tão fácil de ler! Um livro a ler, pelo menos, para tentar compreender os outros, como o interprete Juan.
Podia escolher milhentas citações mas, no 30º aniversário da queda do Muro de Berlim, fica apenas esta: "Vemos os muros erguerem-se ao largo da fronteira. Há quem se sinta seguro assim. Até que pedras do muro comecem a cair, sobre eles e sobre nós. É o destino de todos os muros: serem derrubados, depois de fazerem muitas vítimas." (pág. 108)
Mais uma fantástica leitura sobre um dos temas mais difíceis, mas necessários, dos tempos atuais: os requerentes de asilo que chegam à Grécia nas mais terríveis circunstâncias, após uma travessia arriscada, neste caso, vindos da Turquia.
Julieta surpreendeu-me pela forma esclarecida, pujante e ousada como recriou este ambiente de espera e desespero, num campo de refugiados, onde foi voluntária.
Gostei dos parágrafos mais politizados, mais ensaísticos, mas está em questão aqui uma narrativa ficcional baseada na sua experiência e penso que a autora acertou em cheio nesse intento.
Senti, no entanto, um certo cansaço a partir de uma das personagens finais e o livro ganhou uma dimensão um pouco mais plana, o que me transmitiu uma sensação grande de frustração. Penso que era esse o propósito.
"Para os ocidentais é estranho, poucos pensam que aguentariam um só instante esta indignidade, e ainda bem. Mas aguentariam. A promiscuidade e os bichos à noite, o registo, o número de registo, a bicha para a comida, a fome, a sujidade das casas de banho, os ratos, a falta de água quente, as pedras debaixo do corpo, o desprezo. Tudo isso seria suportável para quem fugisse à guerra."(p.225)
Tenho sentimentos ambíguos em relação a este livro. Custou-me entrar no modo de escrita da autora e senti que o fio de ligação entre as diferentes personagens foi um pouco forçado. A sensação que tenho foi que a autora primeiro criou as personagens e depois criou uma história para unir as personagens, mas eu teria preferido a opção por histórias independentes, sem fios de ligação. Inicialmente, as frases curtas, num estilo demasiado jornalístico para um romance, incomodavam-me mas acabei por me habituar. É um tema forte que não deixa nenhum leitor indiferente. Podemos ter as mais variadas opiniões sobre o assunto, mas numa coisa todos concordam: estes campos de refugiados são incomportáveis.
"Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos." Mia Couto
Um Muro do Meio do Caminho é um livro realmente bom, que recebeu o Prémio Fernando Namora, em 2019.
Como refere a autora “Este é um livro de ficção. Nenhuma das personagens corresponde a uma pessoa real.” Ainda assim, a ficção foi criada a partir de conversas que a autora teve na ilha grega de Chios, numa viagem de aprendizagem pessoal feita em 2016 como voluntária, na qual contactou com as condições deploráveis no acolhimento de refugiados da Síria e do Afeganistão, desde a falta de casas de banho, de água, de eletricidade, de condições de saneamento e esgotos, lamentando profundamente o desprezo a que foram votados. O acolhimento por outros países da Europa constitui o sonho das jovens mulheres de hijab, dos rapazes mais rebeldes, das mulheres que tudo perderam, das crianças sem família e de todos os que lutam por eles, por melhores condições de vida ou apenas as previstas na convenção dos Direitos Humanos. Os que conseguiram trazer alguma coisa, o que terão escolhido e porquê? De que forma poderão sair daquela “prisão”? Quem poderá prestar-lhes auxílio? Serão livres para, por exemplo, irem ao encontro dos maridos que já estão algures na Europa? Quais as dificuldades por que passa quem tenta ajudar? Será possível prestar auxílio sem que se envolvam emocionalmente?
Este é um livro literário que incomoda, que denuncia, que questiona, que choca e que abana até os menos sensíveis a estas questões. É impossível ficar-se indiferente.
Deixo dois excertos para que fiquem com a noção da forma como a temática é abordada.
“O mundo dos desejos está reservado aos que moram no continente de marca, tanto mais altivo quanto mais se afasta da pobre costa sul. Aos que querem lá entrar exige-se que deixem à porta as ilusões e, se teimarem, ao menos que tomem o lugar de pessoal menor que lhes foi reservado à nascença”.
“O que seria do mundo sem as armas? O que seria a raiva, sem a possibilidade de eliminar o semelhante? Se o dinheiro desaparecesse por magia, o que fariam os homens à cobiça? Se as terras se unissem num único lugar, o que fariam os homens às disputas? Se os espelhos desaparecessem, o que fariam os homens à vaidade? O que fariam os homens à compaixão?...”
O que fazer quando procuramos fugir a uma guerra sem nexo, atravessamos um mar de preocupações e de riscos extremos, achamos que no fim no caminho temos a nossa vida de volta, mas afinal encontramos um muro no meio do caminho que não nos deixa prosseguir? Este livro é um verdadeiro murro no estômago! Deve deixar-nos envergonhados daquilo que somos enquanto sociedade e enquanto continente privilegiado! Julieta Monginho conta-nos as histórias de alguns refugiados sírios presos nos campos de refugiados gregos da ilha de Chio, uma "... prisão disfarçada de paraíso." Através de 8 capítulos dedicados cada um a sua personagem (de ficção, mas que poderiam ser qualquer uma das milhares de pessoas presas naqueles campos) apresenta-nos a triste realidade que se vive às portas da Europa. Um livro que me deixou uma imensa tristeza! 😔
Após a sua visita à ilha de Chios no verão de 2016, uma das ilhas gregas usadas como porta de entrada para a Europa, Julieta ficiona de forma tão dura quanto poética sobre as interações das e com as vidas migrantes ali detidas.
“A sua tragédia tinha ficado lá atrás ou estaria ainda a viver o segundo ato?” - p.75
Em setembro de 2015, um frágil barco, sobrelotado de migrantes clandestinos, provenientes da Síria com destino à Grécia, naufragou no Mar Egeu. Numa praia turca, um dos passageiros mortos, um menino de nome Alan Kurdi, jazia de rosto na areia, numa solidão e abandono atrozes. A imagem perturbadora tornou-se num símbolo do drama dos refugiados, correu mundo, nas primeiras páginas da imprensa, e fez notícia de abertura nos telejornais. De imediato, reacendeu-se o debate em torno dos migrantes, em fuga desesperada da guerra, e do papel da Europa no seu acolhimento. Políticos, organizações independentes e escritores têm transformado a palavra em arma para denunciar a maior crise da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial.
A escritora e magistrada Julieta Monginho socorreu-se da experiência como voluntária num campo de refugiados em Chio, na Grécia, em 2016, para elaborar o novo romance, Um muro no meio do caminho. Nas suas palavras, o centro de acolhimento é “uma ilha que oferece pouco mais do que o chão sem cadáveres e o céu sem explosões” (p. 40). Ali, interagiu com quem tudo perdeu e aguarda, com a vida em suspenso, por uma autorização para atravessar o muro da burocracia, racismo ou indiferença. O resultado é um relato ficcionalizado, mas verosímil, e um alerta para o sofrimento de quem veio da Síria ou do Afeganistão, e atravessou o terror da bacia mediterrânica em busca da paz.
Logo nas primeiras páginas do romance, a narradora descreve os refugiados num estilo onde ressuma a preocupação com o mot juste e o ouvido atento ao ritmo frásico. Neste âmbito, recorre a enumerações para sugerir o caos e o perigo gerados pela guerra, e também para relatar sumariamente a fuga — primeiro, através de uma terra devastada pelo conflito bélico e, depois, durante a travessia mediterrânica, não raras vezes fatal:
"Fugiram do inferno, como figuras de um painel que tivessem furado a tela e corrido, em passos estropiados, uma maratona de obstáculos: o chão com o seu entulho pulsátil, arestas, balas perdidas, sangue escorregadio; a noite e os seus gemidos, armadilhas, vultos disformes, negócios sussurrados; a distância e os seus caminhos escusos, solavancos, vagões superlotados, casas perdidas em campos de cardos; a fome e as suas patas que esgaravatam primeiro o estômago, a seguir os ouvidos no choro miudinho das crianças, depois o coração e todo o corpo escravizado; o céu e a sua chuva contínua de negror; o mar e a sua índole caprichosa, a altercação com os ventos e as correntes, os seres que se escondem na fundura densa, a ausência de sons, do mínimo sinal na noite líquida." (p. 13)
Nas páginas de Um muro no meio do caminho, Monginho não perspetiva esta multidão como uma amálgama de indivíduos anónimos, tipificados, como os que quotidianamente surgem nas imagens transmitidas pelos telejornais. Pelo contrário, a romancista explora, com sensibilidade, as experiências singulares e as múltiplas esperanças que acalentam. Para tanto, humaniza as dramatis personae que elegeu, pertencentes a múltiplos grupos étnicos, géneros e faixas etárias. Por exemplo, Amina é a jovem apaixonada cujo namorado faleceu no bombardeamento de um hospital; Ashmah é uma mulher grávida, desejosa de se reunir com o marido, na Alemanha; Saud é o rapazinho de olhos inocentes, mas melancólicos, que não se despediu dos pais, etc.
Existe uma caraterística incontornável da narrativa literária, por oposição à histórica, plasmada neste livro. Um romance permite narrar a vida privada de um indivíduo anónimo, que não se distinguiu por qualquer feito heroico ou memorável. Assim, cada figura de papel e tinta, produto da imaginação, pode ser tão verosímil quanto uma pessoa real, ao condensar em si as caraterísticas, por exemplo, de numerosas crianças órfãs de guerra, levadas para um campo de acolhimento.
Para explorar a vivência dos refugiados, a autora recorreu essencialmente a quatro estratégias narrativas, que analisarei nas páginas seguintes: cria um introito em todos os capítulos; atribui a cada personagem um objeto caraterizador; concede voz aos vários actantes, num registo que evoca entrevistas orais; por fim, estrutura a narrativa como um conjunto de relatos interligados.
A primeira estratégia consiste em apresentar, no início de cada capítulo, um introito motivador. Este é sempre breve, rondando uma dúzia de linhas; redigido num estilo permeado pelo lirismo, próximo à prosa poética; com uma mancha tipográfica que a diferencia do texto principal. Tal introito conduz às páginas seguintes, centradas na história de uma determinada personagem, seja ela um refugiado ou, mais raramente, um voluntário.
Um excelente exemplo encontra-se no capítulo sobre a experiência traumática de Shayma, a mulher angustiada que perdeu os filhos, o marido e os pais, num ataque de mísseis. A dificuldade em fazer o luto e o ostracismo das restantes refugiadas, que a ferretearam como mãe negligente, conduziram-na à demência:
"Não sei quando enlouqueci, sei que não serviu de nada. Continuo a pensar e a pedir ajuda.
Não me importo de sentir a cabeça retalhada por lâminas de luz, nem de caminhar entre nuvens de sangue. Os corpos dos meus filhos mortos regressaram ao meu corpo e aqui gelaram. Gosto de sentir os seus dentes morderem-me o coração, a voz, o pensamento.
E de embalar a t-shirt repleta do sangue de Shiar, não trouxe mais nada.
O que me perturba é a cara apavorada. A boca que não vigia o grito. Os olhos acesos, mendicantes, ainda vivos.
A cara viva, no espelho." (p. 67)
Outra estratégia narrativa, aplicada em todos os capítulos, reside em associar cada personagem a um objeto aparentemente banal, mas significativo: um brinco sem par, uma t-shirt ensanguentada ou um simples maço de cigarros. Tal item permite caraterizar um indivíduo, aludindo a episódios de um passado traumático ou evocando traços perenes da sua personalidade.
Por exemplo, no início do romance, Amina é apresentada ao leitor como a rapariga que desenha sonhos no seu inseparável bloco, espécie de diário terapêutico:
"O caderno era o seu mundo precioso, continha os sonhos, continha tudo: o que perdeu, o que desejou, o que deseja, o que recorda. Explicou que o tinha trazido no barco, e antes do barco, nas carrinhas e nas caminhadas da fuga, escondido no bolso invisível. Imaginei-a a preenchê-lo sob luzes diversas, ou sob luz nenhuma, a não ser a das estrelas aparentemente imperturbáveis; sob luares que sendo iguais aos da terra de partida, a incomodavam como estranhos." (p. 19)
A terceira estratégia para introduzir cada personagem consiste em dar-lhe voz, através de pequenas entrevistas, grafadas a negrito, onde os refugiados ou os voluntários confidenciam à voluntária portuguesa os receios e expetativas. Tais narrativas por encaixe concedem ao romance verosimilhança, pois transmitem a sensação de testemunhos recolhidos no decurso de uma entrevista. Embora a autora esclareça que esta é uma obra de ficção (p. 245), é possível inferir que os relatos de guerra, fuga e sobrevivência têm contraponto em situações da mais crua realidade.
Escolhi para exemplificar a estratégia da entrevista o depoimento de Omid, impulsionador de uma ONG (Fundação para o Amor Universal), e defensor da intercompreensão e pacifismo, que relata à voluntária o término do seu projeto:
"Acredito numa sociedade baseada no amor: no amor livre entre as pessoas, sem fronteiras, sem barreiras, sem discriminações. Na minha terra, quem não tem religião é como se as tivesse todas. Choviam ameaças de todos os lados. Mais do que ameaças, agressões. Estava a pôr a minha família em perigo. Fugi para o Curdistão. Durante algum tempo, consegui lá espaço para trabalhar na minha causa. Grupos de amigos, dispostos a trabalhar comigo. Registámos a nossa ONG, mas não tardaram a recomeçar as perseguições. (…) Ninguém me dava trabalho. Não tinha que comer. Passei dias escondido em buracos, subsistia com o pão que me dava um padeiro meu amigo." (p. 158)
A quarta e última estratégia relaciona-se com a estrutura do romance: ao invés de seguir uma ou mais linhas narrativas, espraiadas por cada capítulo, a narradora optou por contar numerosas crónicas de amor, luto e sobrevivência, experienciadas tanto pelos refugiados como pelos voluntários. Transforma-se, assim, numa espécie de Xerazade dos tempos modernos, sempre com um novo relato, apresentado em tom compassivo, mas nunca patético. O resultado é uma “composite novel”, expressão inglesa para designar um romance onde cada capítulo apresenta uma história que pode ser lida independentemente, mas se associa, de forma mais ou menos subtil, às restantes que integram o volume. Robert Lucher usa, de forma feliz, o termo “sequência” para designar cada capítulo, implicando, desde logo, uma relação entre a parte e o todo.
Naturalmente, todas estas secções apresentam traços comuns, que contribuem para a coesão. No caso do romance de Monginho, tais elementos unificadores correspondem à presença subjetiva da narradora, que conduz o leitor através dos meandros do enredo; a algumas personagens que reaparecem em diversos capítulos; ao espaço (o campo de acolhimento grego) e ao tempo da história (a época atual). Este expediente reifica uma história feita de histórias, aludindo à multiplicidade polifónica das narrativas decorrentes da mais trágica diáspora deste século.
Um muro no meio do caminho consagra-se como um romance interventivo e urgente, escrito num estilo que oscila entre o discurso diarístico de uma voluntária num campo de refugiados e o testemunho dos migrantes em fuga da morte. Em apenas três linhas, a narradora sintetiza este drama que vivenciou na primeira pessoa, mas a que assistimos apenas no conforto distante do lar, em frente à televisão ou folheando as páginas da imprensa: "Não lhes bastava serem fugitivos, haveriam também de ser cativos. As pessoas livres não fogem, deslocam-se. Os que fogem regridem à categoria de seres para o desespero, não para a vida" (p. 91).
A autora apela, assim, à vocação humanista e à hospitalidade que se encontram no cerne da identidade europeia e podem aliviar o terrível drama destes migrantes involuntários, cativos nas malhas da história. Porque, nas sábias palavras de Terêncio (195 a.C.-185 a.C.), "Sou um homem: nada do que é humano me é alheio".
Mancelos, João de. "Um muro no meio do caminho, de Julieta Monginho (recensão)". Revista Portuguesa de Humanidades (Universidade Católica Portuguesa, Braga) 25 (2021): 395–398. ISSN: 0874-0321.
Este é um livro ficcional, baseado na experiência da autora como voluntária num campo de refugiados da Grécia. Um retrato muito rico da crise humanitária do nosso século.
Se o tempo não fosse um bem tão precioso e a leitura não implicasse entrega e paixão, eleger um livro não seria um risco. Avesso a sinopses, desconhecendo praticamente tudo acerca da autora e da sua obra e apenas com a imagem de capa a estimular a minha curiosidade, foi assim que parti à descoberta de “Um Muro no Meio do Caminho” como o faço sempre: O coração desarmado, à espera de me surpreender, de me espantar, de me deixar afectar pelo que leio. Devo confessar, porém, que estava longe de imaginar que Julieta Monginho me iria confrontar com um relato emocionado das vivências de “J., uma entre muitos”, voluntária portuguesa num campo de refugiados na ilha de Chios, na Grécia, sublinhando os contornos mais sombrios dessa crise humanitária que mantém milhares de refugiados às portas da Europa, reféns de agendas políticas e de interesses refractários ao drama e à dor.
Apesar de ser este um assunto merecedor das minhas maiores preocupações, a nota de surpresa inicial deu rapidamente lugar à inquietação e à dúvida no que respeita à escolha do livro, sobretudo porque este é o género de leitura que exige um tempo e uma atenção “de qualidade”, ou seja, maior disponibilidade emocional e dedicação plena. Também uma maior condescendência, que isto de escrever com o coração está provado que raramente resulta em grande literatura. Certo é que as primeiras páginas pareciam confirmar os meus piores receios, muitas emoções à flor da pele, muita lágrima à espreita, o “cor de rosa” a dominar as histórias da “rapariga que desenhava sonhos”, da “rapariga grávida” e da “mulher que ficou só”. A autora haverá de emendar a mão a partir do momento em que desvia o foco dos refugiados, fazendo-o incidir sobre si própria e sobre aqueles que, como ela, estão ali em missão humanitária. Então, aquelas “pessoas encalhadas no pesado tempo que lhes coube” começam a ganhar espessura e tornam-se reais, como real se torna o abanão que cada página passa a acarretar.
Fazendo assentar a ficção em factos reais, Julieta Monginho revela-se eficaz na forma como passa a mensagem de uma Europa que, no melhor dos casos, vota os refugiados ao esquecimento e, no pior – cada vez mais vasto –, ao desprezo. Face à incerteza, totalmente vulneráveis, estas pessoas confrontam-se com uma insustentável falta de condições, serviços de saúde precários, alimentação inadequada, Organizações Não Governamentais manietadas na sua vocação auxiliadora e muita gente a lucrar com tudo isto, para vergonha de todos. É isto que, através de dez histórias de vida, a autora nos conta, ao mesmo tempo clamando pela aplicação dos instrumentos de direito internacional que assegurem a protecção dos refugiados e o direito à reunificação familiar. Talvez não possamos falar de grande literatura quando falamos de “Um Muro no Meio do Caminho”, mas há um dever de gratidão para com Julieta Monginho, pelo uso da palavra como arma de denúncia e combate. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.