Starobinski, que faleceu em março, aos 98 anos de idade, faz ver neste livro todas as suas competências, cultivadas no estudo da literatura clássica e da medicina. Ele foi professor em diferentes universidades, ministrando cursos de história das ideias e da medicina.
A Tinta da Melancolia é um clássico, como ótima tradução para o português. O livro guia o leitor pelas diferentes perspectivas que podem ser lançadas sobre a melancolia, as quais têm em comum o entendimento de que, como as doenças humanas em geral, não se trata de abordá-la como pura moléstia natural:
“O paciente suporta seu mal, mas também o constrói, ou o recebe de seu meio”... “Do lado do doente, como do lado do médico, a doença é um fato da cultura, e muda com as condições culturais”.
Os caminhos propostos pelo autor não apontam para a proposição da melancolia como algo que transcenda a história, existindo desde sempre, o que, de certo modo, está dito nas citações anteriores. Starobinski enfatiza: “a noção moderna de depressão abarca um território muito menos vasto que a melancolia dos antigos”.
A melancolia multiplica-se e desdobra-se em diferentes faces ao longo das páginas, as quais são descritas e comentadas pacientemente pelo autor, sem que elas sejam superadas umas pelas outras, mas, pelo contrário, havendo o movimento de retomada quando isso se faz oportuno ou necessário: o ‘mal de amor’, a nostalgia, a associação com a ironia, a passagem pelos clássicos ou pela mitologia, filosofia e psicanálise, tudo é feito em um ritmo que captura o leitor e o faz querer prosseguir deparando-se, a cada vez, com a acedia, a atrabililis e os diferentes modos pelos quais a melancolia se expressa.
Por vezes, a melancolia é apresentada como a ausência da linguagem, predomínio desmedido de uma ideia exclusiva sobre o espírito, a necessidade de retorno, de reflexão, captura pelo que leva para trás, um voltar-se sobre si mesmo, desaceleração.
***
“Da mesma forma que a melancolia carrega a força do espírito como se fosse um peso, a ironia pega a impotência do espírito com coração leve”.
“Na melancolia, a sensação de teatro nasce dessa defasagem entre o tempo interior e o tempo exterior”.
“Assistimos, primeiro, à criação de uma doença; a história nos ensina que a palavra “nostalgia” foi inteiramente forjada para fazer entrar um sentimento bastante particular (Heimweh, saudade, desiderium patriae) no vocabulário da nomenclatura médica”.
“Baudelaire diz aqui — mais abertamente é impossível — o que Freud elaborará de modo teórico em Luto e melancolia: a acusação que o melancólico dirige contra si não difere daquela que faz, sadicamente, contra o objeto”.
“Pois o típico dos estados depressivos mais “profundos” é desejar a imagem de si sem conseguir obtê-la, é sentir a distância entre si e qualquer imagem possível. Certas fábulas da metamorfose e da disparidade nos falam disso”.
“...escrever, para o melancólico, é transformar a impossibilidade de viver em possibilidade de dizer”.