Mérimée pode muito bem cavalgar ao contrário na mesma avestruz em que cavalgam, também ao contrário, os ilustres Maupassant, Tchékhov, Poe ou Hoffmann. A avestruz pode parecer uma visão um tanto disparatada mas a expressão "Sentar-se à mesa com" implorou-me, com lágrimas nos olhos, para que fosse deixada em paz. Lamentou-se que tinha as orelhas a arder a toda a hora, que estava farta de ser evocada. E neste momento está a passar tempos difíceis na ilha de Formentera. Apaixonou-se por um tal de Juanjo - andaluz estrábico mas bonito, infatigável como um touro - que a deixou na noite em que apostou com o Chicho que conseguia nadar até ao Brasil. Desapareceu, a esbracejar como um louco, gritando que a amava."Sentar-se à mesa com" ficou no areal a chorar durante dois dias, agarrada ao colar daltónico que ele lhe deixara, até que a namorada do José Luiz lhe foi dizer que a aposta tinha sido uma brincadeira e que Juanjo estava naquele momento em Chefchaouen a regatear bolotas com os marroquinos. Mostrou-lhe uma imagem do facebook: ele numa gilaba, com as montanhas detrás, ao lado de dois berbéres, com um archote aceso na boca. Foi duro. Deixemo-la amamentar a sua dor.
Os contos são todos soberbos - tinha-os lido há mais de uma década e agora reparei quanto os tinha cauterizados no cérebro.
Alguns requerem alguma inocência, algum abandono intelectual, por parte do leitor (La Vénus d'Ille é o melhor exemplo, mas também, talvez, o melhor conto). Não que os contos tenham envelhecido mal ou tenham falhas. Simplesmente, a noção ocidental de paranormal mudou as vestes, evoluiu numa direcção distinta. Contudo, mesmo esses contos mais exigentes, passados quase duzentos anos, estão frescos e deliciosos. Mérimée é um mestre irrepreensível.
Eu prefiro os contos assim. São quadros como aqueles que os avôs pintam nas mentes dos netos que se aninham debaixo de mantas ou diante de lareiras. São contos que se ouvem das bocas desdentadas dos pastores que nos abrigam em noite de temporal em aldeias perdidas da Córsega. São contos daqueles que contamos na gruta de Rennes-les-Bains, numa noite de chuva, sozinhos com o nosso amor, depois de termos enrugado à luz da vela nas águas quentas à beira rio, e então constatamos com um sorrisso que a tempestade se aproxima, e apertamo-nos debaixo das mantas e continuamos o conto. Bebemos e damos a beber as palavras com um furor apaixonado, não porque queiramos impressionar ou algo assim, mas porque sabemos que estamos a participar num ritual antiquíssimo, sagrado, que consiste em partilhar os mundos, as paixões e os medos que trazemos dentro.