Apresentação Do amor – o dia em que Rimbaud decidiu vender armas Por Francesca Cricelli
O que permanece em nossa escrita com o passar do tempo? Quanto da prosadora e poeta navegada Ana Rüsche se presentifica nesta novela de amor? Há um núcleo em nós, como no alinhavado das palavras, que perdura, pois contém em si o passado e o futuro. É como o nascimento de um botão de tulipa – o caule leva tempo para espichar mas nele já há o prenúncio da flor que não é mais tubérculo.
O amor habita todos os tempos. É aquático, fluido, molda-se aos querubins da noite paulistana mid-2000, viaja para Harar, na Etiópia, espera na livraria Cultura, salta com as palavras pela tela. O amor está no bombom, na boca e no celofane.
Tudo perpassa mas não se desarticula do olhar atento e inserido no mundo, o olhar político da autora e de sua narradora que já em 2007 colhiam – demasiado contemporâneas – os prenúncios de uma crise e obscurescência do país.
Alma lírica e política a da Rüsche, com ecos de Goethe, Baudelaire, Blake, Milton, Pepetela, Virginia Woolf, Raúl Zurita e seu amor pegado a las rocas y a las montañas.
Uma novela que conduz e seduz pela prosa e seus enxertos de poesia, pelos recursos brechtianos, uma ficção que é ensaio e história e não coloca em plena luz nem o oculta – o mistério – que completa o título.
La Rüsche nos carrega da sua Augusta a Harar, onde Rimbaud vendeu armas, para repensarmos com ela quando e se iremos depor as armas do amor e juntarmo-nos ao poeta rebelde.
Há escritas como esta que encarnam todos os tempos pois atravessam uma década carregando o quinhão do eterno, aquele grão de areia que se apega à palma, aquele do qual não se abre mão.
106 pages, Impressão em linotipo. Costura artesanal.
Adoro ler ficção científica, fantasia, poesia, dá para deduzir por minhas estantes.
Sou escritora, meu último trabalho é "A desconexão telepática e seus abalos sísmicos" publicado na revista seriada Mafagafo #2.2 e a novela Do Amor: o dia em que Rimbaud decidiu vender armas, edição caprichadíssima pela Editora Quelônio (2018). Ainda em prosa, publiquei o romance "Acordados" (2007).
Publiquei também 4 livros de poesia - meu primogênito recebeu tradução e publicação no México, Rasgada; o segundo foi republicado recentemente pela Editora Patuá, Sarabanda, o terceiro, Nós que adoramos um documentário recebeu o apoio do Proac, Gov. do Estado de São Paulo; o quarto eu mesma publiquei e fiz uma grande festa, o Furiosa, que também recebeu uma edição novayorkina.
Um livro escrito em vários tempos, que fala francamente sobre o processo de amar e o processo de escrita. Que nos faz entender que tudo tem o seu tempo, e que no final, nada vai ficar perfeito nunca. E tudo bem. Um livro bem construído, por dentro e por fora. Só não deve lê-lo quem tem medo de se olhar quando está olhando o outro.