Jump to ratings and reviews
Rate this book

Romance da Raposa

Rate this book
O Romance da Raposa (1924) é uma narrativa infantil de requintado virtuosismo estilístico, substituindo as ilustrações a preto e branco que forma utilizadas a partir dos anos 60 pela originais a cores da autoria de Benjamim Rabier numa solução plástica que se adequa na perfeição à fábula.Esta edição de Romance da Raposa é, assim, um regresso à versão original de um livro que gerações e gerações de crianças leram.

176 pages, Paperback

First published January 1, 1924

4 people are currently reading
274 people want to read

About the author

Aquilino Ribeiro

107 books86 followers
Aquilino Gomes Ribeiro was a Portuguese writer and diplomat. He is considered as one of the great Portuguese novelists of the 20th century. He was nominated for the Nobel Literature Prize in 1960.

Natural son of Joaquim Francisco Ribeiro, a priest, and Mariana do Rosário Gomes, he had three older siblings: Maria do Rosário, Melchior and Joaquim. Destinated to priesthood, Aquilino Ribeiro got involved in republican politics, opposing the Portuguese monarchy, and had to exile himself in Paris; he returned to Portugal in 1914, after the Republican Revolution of 1910.

He was involved in the opposition to António de Oliveira Salazar and the Estado Novo, whose government tried to censor or ban several of his books.

He married twice, firstly in 1913 to German Grete Tiedemann (ca. 1890-1927), by whom he had a son Aníbal Aquilino Fritz Tiedeman Ribeiro in 1914, and secondly in Paris in 1929 to Jerónima Dantas Machado, daughter of the deposed President of Portugal Bernardino Machado, by whom he had a son Aquilino Ribeiro Machado, born in Paris in 1930, who became the 60th Mayor of Lisbon (1977–1979).

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
180 (39%)
4 stars
156 (33%)
3 stars
98 (21%)
2 stars
13 (2%)
1 star
12 (2%)
Displaying 1 - 30 of 39 reviews
Profile Image for Rita.
908 reviews188 followers
October 26, 2018
Aquilino Ribeiro dedicou este romance ao seu filho Aníbal.

“As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas — raposeta pintalegreta, senhora de muita treta — contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me ideia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome.”

O Romance da Raposa editado pela Bertrand, em 2012, e com as ilustrações de Benjamin Rabier é um bocado caro (+20€) e enquanto não encontro, num alfarrabista, uma cópia um pouco mais em conta, resolvi pesquisar um pouco e encontrei uma adaptação feita para audiobook pelos pelos Estúdios Raposa.

Como era um romance infantil resolvi ouvi-lo, e em boa hora o fiz.

Foi como se tivesse regressado à infância, àquelas tardes em que para dormir a sesta era preciso uma boa e longa história. Que delícia!

A linguagem, para uma criança, é desafiante. Um texto cheio de humor, com uma mistura de gíria intercalada com uma linguagem mais clássica, rimas, trocadilhos e onomatopeias.
É um daqueles textos que só ganha com a leitura em voz alta.
A ambiguidade moral da Salta-Pocinhas é perfeita. A raposeta é espertalhona, corajosa, hábil e cheia de manhas, mas simultaneamente e por uma questão de sobrevivência é trapaceira, ratoneira, velhaca e egoísta. Adorei a Salta-Pocinhas. 🧡🦊
É engraçado que Aquilino Ribeiro não cai em moralismos, não distorce a verdade e nem tenta dourar a pílula para proteger as crianças. A violência e a morte fazem parte da vida e a moral da história é que a inteligência supera a força bruta.
Uma fábula de encantar.

P.S. — Obrigada Raquel Fontão pela sugestão 😉
Profile Image for Sónia Santos.
182 reviews30 followers
November 16, 2023
Apenas tinha lido alguns excertos deste livro infantil durante a escola, por isso, foi muito interessante ler a história completa da raposa Salta-Pocinhas, mesmo que tenha sido nesta fase adulta. E mesmo que já não olhe para as raposas como animais matreiros, a magia desta história não se desvaneceu.

Aquilino Ribeiro vem, mais uma vez, provar a sua astúcia como escritor. E um pai generoso, por ter escrito e oferecido este livro para o filho, que se tornou num belo presente para todos nós.

Aníbal:
As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas - raposeta pintalegreta, senhora de muita treta - contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me a ideia de as escrever. Além de inspirador, colaborasse com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome. (...)
Aí fica, meu homem, no teu sapatinho de Natal esta pequena prenda. Aceita-a com os meus beijos de pai, que ao Menino Jesus vou pedir perdão do pecado, pois que a raposa é matreira, embusteira, ratoneira, e ele apenas costumava brincar com pombas brancas e um branco e inocente cordeirinho.
Profile Image for Thomé Freyre.
204 reviews6 followers
May 22, 2020
A Salta-Pocinhas foi a primeira personagem da literatura impressa que conheci. Durante os meus cinco anos de analfabetismo, a RTP exibia a série animada baseada no livro, e tinha também uma, hoje anacrónica, cassete com as músicas da mesma.
O "Romance da Raposa" é um livro para crianças que falam português sem igual, pois foi escrito pelo maior cultor desta língua, que o século vinte teve o privilégio de conhecer. Ainda hoje, Aquilino Ribeiro me faz, por vezes, ter que consultar o dicionário.
Quem me dera ter sido "obrigado" a ler este livro na escola...
Profile Image for Mariana Flores.
Author 18 books19 followers
May 12, 2018
O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro (1924) era uma das minhas obras favoritas de infância. Há muitos anos que não pegava no livro, pois nunca cheguei a tê-lo, tinha lido uma edição da biblioteca da escola. Havia um professor com barbas que ficava por vezes de serviço nessa biblioteca e me recomendava livros. Foi graças a ele que fiquei a conhecer as Crónicas de Narnia e lembro-me de ele comentar alguma coisa quando eu ia requisitando o Romance da Raposa. Nunca soube o seu nome, mas aqui fica o agradecimento ❤

Como disse, há muitos anos que não pegava num exemplar do Romance da Raposa. É que eu não queria comprar a edição nova, que me perdoem os autores da nova adaptação e a editora. Queria a edição antiga, com as ilustrações a preto e branco adaptadas dos originais a cores de Benjamim Rabier que tanto me apaixonaram em criança. Andava a namorá-la há uns tempos, mas era tão cara… Assim, quando encontrei o livro por acaso numa feira de velharias, ao preço da chuva, o meu primeiro gesto foi pega-lhe e beijá-lo. Juro que o fiz. O vendedor deve ter achado que era maluca. Trouxe o livro para casa e deixei-o a marinar enquanto terminava outra leitura.

E então tive uma surpresa. A dedicatória. Eu já não me lembrava da dedicatória, com certeza porque não fez sentido para mim em criança. Mas agora, à luz de todos estes anos dedicados a tentar compreender a literatura para a infância, esta dedicatória foi como uma nova prenda, e confesso que me emocionei ao lê-la. Vou ter de a citar na íntegra, porque é em si uma lição.

“Aníbal:

As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas – raposeta pintalegreta, senhora de muita treta – contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me ideia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome.

Ao percorrer estas páginas, nos teus olhos em flor não virão brincar fadas e duendes, bons gigantes e princesinhas. Tão-pouco ante eles se erguerão aqueles palácios encantados, que por serem de ouro e pedras finas, concebidos para satisfazerem a todos os desejos, tão diferentes são dos da terra. Que queres, no reino dos bichos não há nada disto, nunca houve. O doce mundo de ilusões, que o homem criou, reservou-o para figurantes, riscados, sim, pela fantasia, mas sempre à sua imagem e semelhança. Os chamados irracionais ali não têm ordem de entrar.

Em harmonia, pois, com as leis da poesia e da ciência natural, não fiz da raposa princesinha. Personagem histórica, para mais, era meu dever não falsificá-la. Representa, tal como vem da fábula, no guinhol com os outros bichos, a todos os quais dei voz, com licença de mestre Esopo. E dei-lhes voz para melhor manifestarem o que são, e nunca para com eles aprendermos a distinguir bem e mal, aparências ou estados, pouco importa, atribuídos exclusivamente ao rei dos animais, como nos jactamos de ser.

Se ao fim de cada jornada bateres as palmas, dar-me-ei por largamente recompensado. Basta que te recreies, como no jardim zoológico, para ambos não perdermos tempo. Aí fica, meu homem, no teu sapatinho de natal esta pequena prenda. Aceita-a com os meus beijos de pai, que ao menino Jesus vou pedir perdão do pecado, pois que a raposa é matreira, embusteira, ratoneira, e ele apenas costumava brincar com pombas brancas e um branco e inocente cordeirinho.”

Porque estamos perante um livro para crianças, a sua importância pode ser erradamente descartada pelos leitores adultos. Um erro passível de ser cometido apenas por quem nunca leu O Principezinho ou a O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.

Citando W. H. Auden, “There are good books which are only for adults, because their comprehension presupposes adult experiences, but there are no good books which are only for children.”

Sim, este artigo vai ter muitas citações. É que estamos perante algo que adoro, mas que acredito que possa transcender ainda a minha compreensão.

Para melhor compreensão da relevância da obra, vou citar a Bárbara Soares no seu projecto de mestrado “O Romance da raposa: Uma edição anotada para crianças”: “esta permanece uma obra única no panorama literário português para crianças e jovens: pela riqueza do vocabulário empregue, pela variedade de recursos estilísticos usados, pela irreverência da protagonista e pelo animado diálogo que estabelece com a tradição literária fabulística e com os contos populares portugueses.”

A história cativa precisamente porque não é nova. O mundo está cheio de fábulas sobre raposas manhosas. Mas a maneira como está escrita não é apenas familiar, mas também caricata, divertida, por vezes mórbida. Honesta. A morte dos animais não é embelezada ou escondida. As coisas são tratadas como são. Este tipo de honestidade é cada vez mais rara no mundo da literatura infantil e faz as crianças sentirem que estão a ser tratadas com respeito. Que o autor pensou “isto é capaz de ser triste ou pesado, mas eu sei que tu já tens maturidade para lidar com isso.” Fazemos cada vez menos isto às nossas crianças, e por isso têm cada vez mais dificuldades em lidar com emoções negativas ou complexas. Acho da maior importância que este género de história continue a ser contada. Quem sabe, não tentarei eventualmente, aprender com o mestre e escrever uma história também…

O livro termina com duas entrevistas distintas a Aquilino Ribeiro. Concorde ou não com a totalidade das respostas de Aquilino (sou grande defensora dos contos de fadas por achar que têm precisamente as qualidades que lhes nega), estas entrevistas são elas próprias uma lição. Por achar que são dignas de citação, mas não as ter encontrado em lado nenhum pela internet, passo a transcrever.



“Teorias do autor acerca de literatura infantil e dos seus dois livros neste género

Aquilino Ribeiro publicou para as crianças “Romance da Raposa” e “Arca de Noé, 3ª classe”.

– Quais os assuntos que escolhe para os seus livros infantis?

– Os meus assuntos vou buscá-los à história natural, racionalizando-os. Nós inventamos, para explicar a mecânica da nossa inteligência, esta palavra mágica: razão. Ao complexo de fenómenos, de que o nosso cérebro é teatro, preside esta espécie de deusa, ou melhor, fada. Que mais não seja é um expoente. Para os animais, o instinto é a origem e faculdade prima dos seus actos. Mas eu, por experiência, tenho verificado que há actos da vida animal, o homem à parte, que superam o âmbito de tal potência. Ora são estes actos que eu transponho, humanizo, no que imagino tais bichos movidos pelos mesmos móbiles vitais que nos animam a nós. A raposa é uma personagem histórica. No romancinho que escrevi, costeio a sua crónica, o mais livremente e originalmente que posso, não esquecendo as qualidades que lhe são notórias e derivam das condições de luta e dos dons com que a natureza a dotou: ardil, sagacidade, audácia. O meu livro tende a mostrar às crianças a que me dirijo, acima de dez anos, o mecanismo interno da astúcia, um pouco a astúcia de Ulisses, havida, sob determinados aspectos, como boa e sempre admirável, e por extensão a velhacaria social. Prefiro que se conheça a hipocrisia a que nos surpreenda, tal a víbora, escondida num tufo de ervas ou mesmo de flores, quando pomos o pé. Claro que procurei contar a história de tal vivente pela forma mais amena e empregando tons cor-de-rosa: Esta é a história da raposeta, pintalegreta, senhora de muita treta…

Na Arca de Noé, que se dirige às crianças a partir dos sete anos, também me ocupei da bicharada, essa que ocupa a 3ª classe, o grilo, com a sua caixa de música às costas, o saloio e a saloia, o macaco, o cão, o porco, o coelho, o elefante, o burro, o galucho, a vaca etc. etc.

– Quando escreve para as crianças, tem a preocupação da idade delas?

– Sim, tenho a preocupação da idade, e com isso a das ideias, que expendo, e em grau imediatamente inferior a preocupação do vocabulário. Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que sabe o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura duma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora, desde que pertença, bem entendido, ao nosso glossário quotidiano, é um obstáculo que vence penetrando-lhe o sentido por intuição natural. A evolução mental da criança corresponde à evolução mental do homem através das idades, a partir do limpo terciário.

– Qual o seu livro infantil que obteve maior êxito?

– O meu livro infantil de êxito foi o Romance da Raposa. A Jane Bensaúde devo a honra desvanecedora, embora imerecida, de considerá-lo uma obra prima. É evidente que a minha personagem tem este encanto: existir, ser conhecida, e eu pôr à vista a sua relojoaria íntima, engenhosa e arteira, e cada criança admirar nela as habilidades da nossa espécie para subsistir e impor-se na natureza, que não tem simpatias especiais para nenhum dos seus seres.

Os contos de fadas, a meu ver, representam um perigo, neste nosso mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé.

– Dá-lhe cuidados a escolha do ilustrador?

– Tive dois ilustradores extraordinários para os meus livros: um, Mestre Benjamin Rabier, francês, o primeiro lápis de todas as grandes revistas parisienses da especialidade, que expressamente fez os desenhos a cores. Custaram uma fortuna ao meu sempre saudoso e querido editor Júlio Monteiro Aillaud. O outro foi um rapazinho a sair da escola, Jorge Matos Chaves, hoje arquitecto ilustre, que pôs na Arca de Noé tudo o que lhe sugeria a sua imaginação fresca, colorida e original.

– Que pensa das ilustrações dos seus livros?

– Penso muito bem das ilustrações dos meus livros, que suponho sob certos aspectos superiores ao texto.

– Qual a finalidade que o move ao escrever para crianças?

– Não tenho uma finalidade objectiva, restrita, visto que o escopo é múltiplo. Mas, em suma, procurei recrear a criança, educando-a moral e socialmente, sem lhe meter na mão os horríveis compêndios de tais disciplinas. Suponho que escrever para crianças é uma pequena arte, bafejada por um Espírito Santo, pequeno e zombeteiro, que não será benéfico para toda a gente… nem porventura para mim.

***

– O que pensa V. Ex.ª da literatura infantil tal como ela está a ser conduzida no nosso país?

– Estou pouco ao corrente do que se passa neste sector da vida literária. Mas a avaliar pelas montras dos livreiros e pelos anúncios, temos messe grada. Suponho que há duas ilusões a considerar às espaldas desta actividade: que seja rendosa e que seja tarefa fácil. Quanto a réditos, é uma questão de natureza particular e ninguém tem nada com isso; quanto à elaboração literária, muita gente de bem pode ser induzida a erro, perdendo o ensejo de dar melhor emprego às suas faculdades. Nada mais fácil e impressionável que o cérebro da criança. Tudo o que ali tocou fica assinalado para sempre. Para que povoar-lhe a imaginação com coisas absurdas, com coisas sem graça, com cocas e teias de aranha que entenebrecem o entendimento?

– É de opinião que se introduza na literatura infantil o sobrenatural e o maravilhoso, em decalque da forma simples e objectiva como a criança vê a vida?

– O maravilhoso desenvolve a imaginação e as faculdades da alma, mas o sobrenatural é um domínio vedado em que é de boa prudência colocar à entrada este cartel: perigo de morte! Bem sei que todos nós tivemos à volta do berço essa farândola negro-salitrosa de bruxas, lobisomens, duendes, diabinhos e almas penadas. Mas não nos custou pouco varrê-la dos nossos sonhos depois de esvaziada do conceito da realidade.

– Contudo, o maravilhoso e o sobrenatural…

– Bem entendido, que estabeleço distinção entre maravilhoso e sobrenatural, quando os dois mundos se podem reduzir a um só. Seja como for, há o maravilhoso inofensivo e o maravilhoso tóxico. No primeiro instalemos as fadas, as mouras, os gnomos, elfos e anões, em sua maioria importados, que a nossa mitologia infantil é pobrezinha, não é fácil dizer porquê. No segundo, as feiticeiras e os génios maus. Também Anatole France, que escreveu um delicioso livrinho infantil, achava bom que se povoasse o sobrecéu dos berços com divindades risonhas e aladas. Perguntamo-nos se a criança tem necessidade de evasão como as criaturas de idade e batidas pelo uniforme pesadume das coisas. Por minha parte quero crer que o mundo gravita em sonho e mistério. Cada partícula da vida encerra um conto de fadas. Não é preciso inventá-las. Os brinquedos de Nuremberga são de resto tanto mais apreciados pelos meninos quando melhor reproduzem o real: ursos de feltro, cavalos de pau, pintainhos de lata que andam e vão bicando um imaginável grão de painço.

(…)

Eu sou um escritor realista, mas nos contos para os pequeninos aprovo e cultivo o simbolismo.

– Das três modalidades de literatura, poesia, conto e teatro, qual julga mais apta para prender o espírito da criança, realizando o duplo fim instrutivo e recreativo?

– Poesia, conto e teatro são por por igual recomendáveis quanto a formar a psique da gente pequenina. A poesia sob a forma de lengalenga: sola, sapato, rei, rainha vão ao mar buscar sardinha, etc. O conto: era uma vez… simples e claro como arroio da montanha a correr, sem pegos, sem mais profundidade que a que permite ver a areia do fundo, com flores na margem e a sua rã a coaxar, como diversão. O teatro sob a forma de guinhol, o guinhol tosco e informe do tempo do rei que rabiou, com glote mecânica e moca, numa palavra o teatro dos cinco dedos de que fala o autor do “Petit Pierre” antes de lhes desenhar nas polpas olhos, boca e nariz. A imaginação infantil precisa de campo para se desenvolver à vontade, vagos para preencher segundo a tendência própria, linhas para cobrir a sabor da sua retina. É por isso que o Teatro dei Piccoli na sua perfeição deixa as crianças completamente indiferentes, ao contrário do velho e primário Roberto.

– Quando será a literatura infantil enriquecida com nova obra de V.?

– Para os meus dois filhos escrevi: “Romance da Raposa” e “Arca de Noé, 3ª classe”, que em dia de Natal meti no sapatinho de cada um. Acabei para estas alegrias puras. Agora só manipulo drogas complexas para as pessoas grandes. Dizia Mme. de Stael: Si vous voulez que je vous aime rendez-moi l’âge des amours. E é o caso pavoroso.”
Profile Image for Rita Gonçalves.
5 reviews
August 12, 2025
Só depois de ler outras avaliações me apercebi de que é considerado um livro infantil. Para mim, é um livro muito divertido e único, para ler em qualquer idade.
Profile Image for Artur Coelho.
2,603 reviews74 followers
January 17, 2021
Regressar a um texto clássico da minha infância, e perceber que não perdeu o encanto. O regresso foi pro mero acaso, em busca de ideias para uma banal tarefa de iniciação ao processamento de texto para os meus alunos mais novos, pensei, e porque não dar-lhes umas palavras de Aquilino?

Sata-Pocinhas, a raposa fagueria, lambisgueira, e mais uma série de epítetos com que Aquilino a descrevia no seu romance, continua hoje a ser-me tão fascinante como quando a conheci. Ou talvez mais, porque se antigamente as aventuras da raposa me divertiam, hoje consigo perceber que a esperteza implacável da Salta-Pocinhas é uma condição de sobrevivência. É o que lhe permite sobreviver e prosperar num mundo onde imperam os fortes. E tantas das peripécias da raposa são daquelas que mostram os pés de barro dos mais fortes.

Sei hoje, também, em grande parte graças ao Lisboa Triunfante de David Soares, que este aparentemente inocente conto infantil de Aquilino se insere numa tradição europeia que usa a raposa matreira como metáfora para a insubmissão, para o afirmar da liberdade individual face Às pressões de quem exerce o poder. Bem, mas de inocente o conto de Aquilino tem muito pouco. Com mel, ensina-nos a violência das sociedades, o caráter impiedoso da natureza, e a importância de saber usar a inteligência para resolver problemas. E, também, a necessidade de se ser impiedoso face aos outros, para poder afirmar-se como se é.
Profile Image for tiago..
465 reviews135 followers
May 30, 2020
O Romance da Raposa é a história da Salta-Pocinhas, uma raposa cheia de astúcia, manha e coragem, e da sua vida cheia de aventuras, nas quais frequentemente trapaceia os outros habitantes do bosque em que vive. Neste conto de fadas sem fadas, Aquilino usa uma linguagem ao mesmo tempo poética e infantil, dando usas de um apurado sentido de humor. Não sendo um livro inesquecível, é uma leitura agradável.
Profile Image for Filipe Botas.
31 reviews8 followers
October 23, 2023
Leitura muito engraçada e divertida.

Trata-se de um livro escrito para crianças, que conta com uma adaptação em desenhos animados que passou há muitos anos na RTP.

A adaptação está muito bem conseguida e conta com uma banda sonora muito bem conseguida, que vamos relembrando e rindo durante a leitura do livro.

Aconselho a sua leitura bem como a visualização da série adaptada.
Profile Image for diario_de_um_leitor_pjv .
785 reviews145 followers
April 13, 2024
#50livrosparaabril
27/50

“Romance da Raposa”
Aquilino Ribeiro

Porque hoje é o Dia Internacional do Livro Infantil a nossa escolha recaiu sobre um livro infanto-juvenil muito especial: “Romance da Raposa” de Aquilino Ribeiro, aquele que será, para muitos de nós, o primeiro grande clássico da literatura portuguesa para a infância e a juventude.
A obra nasce da vontade do autor de oferecer ao seu filho pelo Natal uma história escrita por si. Uma história que recordasse as tradições orais que Aquilino sentia suas, como pessoa que cresceu numa aldeia no Norte de Portugal e que, por isso, conhecia muito bem os animais que viviam perto dos seres humanos que habitavam o campo. É assim que cria uma personagem única na nossa literatura: a raposa “Salta-Pocinhas”.
A "Salta-Pocinhas" , como personagem encarna as qualidades típicas da raposa das fábulas (Esopo e LaFontaine são influências óbvias de Aquilino), surgindo assim a “esperteza” em contraponto com o carácter bruto e violento dos seus arqui-inimigos. Esta heroína, algo velhaca e trapaceira, mas igualmente arguta e atenta, vai resolvendo todas as questões que se lhe vão sendo colocadas pelas circunstâncias da vida difícil na floresta.

Publicado pela primeira vez em 1924, foi alvo de modificações ao longo das várias edições, sendo que muitas destas foram acompanhadas das belas ilustrações de Benjamin Rabier. Este é um livro que, se hoje não será lido por crianças e jovens, pois a densidade, a coloquialidade e os regionalismos da escrita de Aquilino tornam o texto algo difícil de ler. Pessoalmente, tenho pena que assim seja, pois a múltipla obra de Aquilino merece uma leitura atenta e leitores apaixonados.
PJV

#livro #literatura #leitor #leitores #leitura #literaturaportuguesa #literaturainfantil #literaturajuvenil
Profile Image for Ana Rocha.
142 reviews35 followers
April 25, 2014
A história desta raposa é muito interessante e é dirigida a todas as idades porque coloca problemas que são interpretados de forma divertida pelas crianças e de modo mais profundo pelos adultos. Aliás este livro foi escrito para o filho Aníbal, no Natal de 1924. É um livro muito divertido; além disso, algumas características da personagem principal, como por exemplo, a astúcia, espelham defeitos da sociedade. Para quem goste mais de banda desenhada há também uma versão ilustrada por Artur Correia, que segue muito de perto o texto original. Recomendo o livro a qualquer pessoa que goste de fábulas e que aprecie uma boa leitura!

description
Profile Image for Nathan "N.R." Gaddis.
1,342 reviews1,654 followers
Read
March 26, 2016
Is there any Aquilino Ribeiro in English?

"Not just Baroque but Gongoric was Aquilino Ribeiro (1885-1963), Portugal’s greatest 20th century prose writer, the owner of an inexhaustible word-hoard, who, along his prolix, carefully shaped, hyperbaton-heavy sentences bursting with subordinate clauses, mixed at ease regional obscurities picked up from illiterate farmers with forgotten Latinisms from 17th century tomes no one read anymore save him. Of all living writers, only Alexander Theroux gives me the same pleasure in reading as Aquilino." -- https://theuntranslated.wordpress.com...
Profile Image for Rui.
153 reviews
November 29, 2021
Tendo em conta a criança como público-alvo, acredito que seja bastante difícil escrever um livro infantil. Tem de ser desafiante e cativar, mas pode ser difícil não entrar nos clichés dos mundos encantados e tudo o mais. Nesta obra, esse trabalho foi feito de forma sublime: a raposa (a protagonista) é uma personagem super divertida e com as características que lhe estão comummente associadas (nomeadamente a astúcia, audácia...); e a narrativa desenvolve-se de maneira bastante fluida, permitindo fazer comparações de certos comportamentos e atitudes com aqueles que podemos nós, humanos, observar no nosso quotidiano. Para mim, um bom livro infantil pode ser lido com bastante satisfação e interesse por um adulto. Este "Romance da raposa" é um claro exemplo disso.
Profile Image for Ana Isabel.
6 reviews
February 1, 2024
In this book we discover a literary universe that goes beyond the pages.

The intricate and detail-rich story is a profound exploration of the human condition, the complexity of relationships, and the details of rural life. Ribeiro's poetic prose elevates the narrative, transporting readers to a setting where each word is carefully chosen. The conclusion, without revealing too much, is a deep reflection that lingers even after the last page, prompting thoughts about the nature of existence and the choices that shape our destinies.

An enriching literary experience that surpasses expectations and leaves a lasting imprint on the reader's soul.
175 reviews3 followers
March 18, 2023
Boa maneira de entrar, ao de leve, na obra de Aquilino Ribeiro, este livro infantil. Pelo menos não foi preciso recorrer ao dicionario, como parece que é habitual com os livros de Aquilino. Ficou a vontade de conhecer mais, já estou preparada para ler um dos muitos escritos para os adultos.
Profile Image for Vasco Ribeiro.
408 reviews5 followers
January 3, 2015
Linguagem simples e poética, uma vez que na prosa o autor tem o cuidado de produzir rimas que dão ritmo e embalo ao livro e à história. Livro destinado a crianças, assumidamente, que o autor ofereceu ao filho no natal de 1924.
A vida da raposa (fêmea) salta pocinhas, raposeta pintalegreta, senhora de muita treta. Desde a infância, ou melhor da emancipação, à sua juventude, como arranja uma toca fazendo o lobo D. Brutamontes, vizo-rei das selvas e penedias da beira-alta por mercê de D. Leão, imperador do soldão e terras do preste joão, da libéria e nigéria, etc, matar a D. Salamurdo, teixugo narigudo, barrigudo, alma de besugo.
Ficou com a toca do texugo, mas o lobo sentindo-se enganado deu-lhe sentença de morte e perseguiu-a, mas a raposeta com seus ardis lá resistiu a 2 anos de seca em que o lobo vigiava a única fonte da floresta, e depois o conhecido ardil de quando ele se finge de morto ela sugere que ele dê 3 couces, o que mostrou que afinal estava vivo.
E entre enganos e matreirices lá sobrevive a raposeta. Na 2ª parte já a raposa é mais velha, com 3 filhotes (que após o período de alimentação, nunca mais aparecem), e viúva, pois o seu marido tinha ficado preso em uma armadilha e morto pelo bicho homem. Ou seja é sempre uma personagem sózinha, a lutar pela vida, que engana tudo e todos os animais, desde vítimas crédulas (coelhinhos) a competidores de caça. Volta e meia reconcilia-se com o lobo, volta e meia faz-lhe partidas como a do estômago cheio de água por o fazer beber de uma poça. No fim da história, já velhinha a última artimanha de se fazer passar por um bicbho papão, vestido com saia colorida, que assusta os animais quando já tinham presas na boca. A salta pocinhas diz aos outros animais que destruirá o dito ser, e em paga quer uma velhice descansada. E conseguiu-o, ficando a contar histórias aos animais mais jovens, abandonando a vida de embuste, pois já disso não necessitava.
Profile Image for Pedro.
Author 51 books61 followers
December 1, 2013
Apesar de ser um livro para crianças é uma leitura muito agradável também para adultos. Escrita num género fantástico em que os animais adquirem características humanas, quase em género de fábula. Contudo, não é um género fantástico vulgar do tipo das histórias "Era uma vez...", sendo um romance mais terra-a-terra com traços realistas.

As peripécias da Salta-Pocinhas, onde ela prima pela astúcia e engenho, levam-nos às serras portuguesas, polvilhadas de animais típicos de Portugal. Invoca um passado saudoso em que ainda havia raposas e lobos nas nossas florestas. As ilustrações não se ficam atrás: a dos três lobitos me tinha ficado na memória até hoje. Balanço feito, coloco este livro quase ao nível do principezinho.

No final do livro há a transcrição de duas pequenas entrevistas com o autor, que ajudam os mais crescidos a perceberem a génese da obra.

Recomendo tanto aos mais novos como aos mais velhos! É uma leitura indispensável!
Profile Image for Samuel Tomé.
90 reviews4 followers
July 12, 2016
Era um livro que queria ler há muito, e que comprei recentemente, quando o encontrei com um bom desconto. É uma fábula, com uma escrita rítmica e que rima, em que se "exagera"na adjetivação. Não sei ao certo o que espereva, mas esperava algo melhor...
Profile Image for N_soliloquios.
98 reviews
July 8, 2016
Uma escrita deliciosa e com o seu quê de poética. Uma história da qual se pode tirar algumas lições práticas em que a personagem principal, a astuta raposa, não olha a fins para atingir os seus objectivos o que, muitas vezes pode ser comparado ao próprio comportamento do homem.
Profile Image for Nuno Almeida.
Author 19 books36 followers
March 30, 2010
O meu primeiro livro, tinha eu uns 6 anitos. Feito de vitória e deus.
Profile Image for Manuel Menezes de Sequeira.
Author 3 books22 followers
July 5, 2010
Uma grande obra de Aquilino Ribeiro, que ouvi pela primeira vez na cama, lida pelos meus pais. Foi um enorme prazer reencontr
Profile Image for Filipa.
1,863 reviews308 followers
January 2, 2011
Este livro é mesmo muito giro. Qualquer pessoa devia ler. É pequeno, lê-se muito bem e para mim, foi uma história que tão cedo não quero esquecer, apesar de já o ter lido há anos.
Profile Image for Vanda.
50 reviews2 followers
April 24, 2012
Um conto muito mais para além de um conto infantil. Um conto de 1924 perfeitamente adequado aos dias de hoje. E não terminou como eu pensei! Mas lá está, é um conto infantil...
1 review
November 19, 2013
O livro de infância que ficou na memória. Ja voltei a ler.. A magia continua...
Profile Image for António.
206 reviews3 followers
July 2, 2020
Pequeno tesouro de Aquilino Ribeiro. Tão agradável e divertido de ler como instrutivo nas lides da vida e nas artes do desenrascanço.
O livro foi escrito para crianças (e oferecido ao filho no prefácio), mas não trata de duendes, nem fadas, senão dos bichos, suas amarguras, carências, espertezas e negócios. Com humor nas peripécias e nas artimanhas, consciência no pintar das dificuldades, e seriedade no encarar da labuta quotidiana, vem cheio de verdade em episódios caricatos, e de ternura nos desenlaces mais secos.
A raposa protagonista não é honrada, heróica, nem sequer bondosa ou propriamente corajosa. É sobretudo, como dizia o povo (que por intermédio de Aquilino, tão bem fala), safada: mestra em ardis e esquemas, lá consegue sempre, "untuosa, dengosa, com sua melhor prosa", levar a sua avante.
Melhor prosa é a de Aquilino. Espalha o rico vocabulário popular de que dispõe para deixar o povo a falar como gostaríamos que seguisse falando hoje e sempre. As frases são amiúde musicais, com rima simples e fácil de reter, as expressões são tão reais quanto encantadoras, as orações sempre simples para que a leitura não canse, e o ritmo fácil e com tendência para embalar.
O enredo vive de imaginativos e entretidos episódios de manha e sagacidade, na linha das melhores recolhas populares. A raposa tem sabedoria de Ulisses a roçar a (ou até já a cair na) velhacaria, como o autor diria; a ponto de não ter conseguido evitar, uma vez ou outra, ter pena das suas vítimas (pobre lobo Brutamontes, quase tão palerma como os ineptos coelhos).
Já não encontramos quem escreva no país como Aquilino. As escritas hoje são outras. Ganhamos muitas coisas, mas perdemos em vocabulário, em sabedoria vinda das terras, em consciência crua do que são dificuldades, e de como elas se podem combinar com a arte de contar histórias em tom ameno. Não temos Aquilino, mas temos os seus livros. Valha-nos isso.
Profile Image for Graciosa Reis.
540 reviews52 followers
June 2, 2025
O clássico juvenil 𝑹𝒐𝒎𝒂𝒏𝒄𝒆 𝒅𝒂 𝑹𝒂𝒑𝒐𝒔𝒂 de Aquilino Ribeiro narra as aventuras de Salta-Pocinhas, uma “raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - senhora de muita treta”.

Trata-se de uma leitura deliciosa não apenas para as crianças, mas também para os adultos. A linguagem rica e viva do mestre Aquilino Ribeiro aliada a um ritmo e a uma sonoridade musicais (recurso a rimas, métrica e aliterações) e a um sentido de humor apurado fascina o leitor e agarra, seguramente, as crianças (com mais de 10 anos, segundo o autor) com as travessuras da raposinha.

Li este livro há muito, muito tempo. Já não tinha memória de muitas das suas traquinices. Lê-lo, agora, com outro entendimento, é muito mais prazeroso. Deixei-me conduzir pelas palavras desenvoltas e sábias de Aquilino que usa com mestria a matreirice da heroína para criticar a sociedade da sua época. Ora vejamos, a raposa “delambida, atrevida, mas precavida, vai gerir a sua longa vida com o propósito de matar a fome e alimentar a alma, nem que para isso, tenha de enganar homens e bichos, corromper, assassinar e gabar-se orgulhosamente. Metáforas perfeitas que se ajustam, também, aos dias de hoje.

Apenas, acrescentar que esta edição da Bertrand inicia, em jeito de Introdução, com a carta que o autor escreveu ao seu filho Aníbal (Natal de 1924) a explicar por que decidiu escrever este livro. Ficamos, ainda, a saber que retratou a raposa sem falsificações, tal como vem na Fábula do Mestre Esopo.
Displaying 1 - 30 of 39 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.