As nossas crianças estão a crescer num perigoso paradigma: a reacção a estímulos constantes substituiu o tempo para parar e pensar. Pais e professores são confrontados com diagnósticos de Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA). Mas quantos são reais? Num país em que, em 2016, foram perscritos 5 milhões de embalagens de psicofármacos para jovens abaixo dos 15 anos, é tempo de parar e pensar sobre a abordagem clínica da PHDA. Como lidar com ela de forma integrada e travar o ciclo de resposta única da medicação? Num ensaio que vai às origens do problema, Pedro Strecht aponta caminhos aos milhares de portugueses que diariamente convivem com a PHDA.
Pedro Strecht, médico de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, trabalhou no Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital de D. Estefânia em Lisboa, foi professor do Ensino Secundário Oficial e Particular e Supervisor da Comissão Regional de Lisboa do Projeto de Apoio à Família e à Criança. Fez breves estágios na Tavistock Clinic, Brent Adolescent Centre, em Londres, e na Mulberry Bush School, uma comunidade terapêutica que acolhe e trata crianças vítimas de privações emocionais múltiplas. Para além da actividade privada, é médico do Centro de Estudos Dr. João Santos "Casa da Praia" e da Cooperativa "A Torre". Colabora na revista "Pais e Filhos". Trabalhou e colaborou com Teresa Ferreira e Daniel Sampaio, entre outros. Começou a publicar em 1993. Dos seus vários livros destacamos Crescer Vazio, Preciso de Ti - Perturbações Psicossociais em Crianças e Adolescentes, Recados do Tempo do Menino Jesus - Histórias de Natal para Crianças, Interiores - Uma Ajuda aos Pais sobre a Vida Emocional dos Filhos e Quero-te Muito - Crónicas para pais sobre filhos.
Uma visão sobre o que proporcionamos aos nossos jovens e o que depois exigimos deles. Recomendado para todos os que se interessam sobre ligações humanas, educadores e pais.
"Pedem-se relações intra e interpessoais mais sólidas, duradouras e representativas, em que para além do «eu» (dentro) se mantenha viva a noção do «outro» (fora). O que olha, mas também é olhado; o que pede, conseguindo dar; o que deseja, tolerando a espera; o que pretende a luz e o sucesso, mas integra a falha e a perda"
"... diante de um desejo, perante uma pulsão, tudo é possível, infinito, e é o próprio quem se regula por uma fonte de excitação imparável («sentir adrenalina») que se instala como padrão de comportamento aditivo"
"... a crença profética numa pílula mágica parece enfatizar uma ideia omnipotente de que tudo é resolúvel da mesma forma, com rápida e segura eficácia temporal, o que mais não é que uma idealização da própria medicina, do ser humano em geral, bem como uma negação da necessidade de dar aos jovens de hoje melhores condições de desenvolvimento: na família, na escola, na cultura, na sociedade e no mundo!"
"Cada ser humano é algo de muito mais transcendente do que um simples somatório de células, órgãos ou sistemas. A infinitude de ligações que o sistema nervoso pode vir a desenvolver e a concretizar, sobretudo nos primeiros anos de vida, a sua evolução ao longo do tempo e em função da estimulação exterior (quantidade e qualidade), bem como a imensa percentagem do seu funcionamento que escapa à perceção consciente de cada qual, é já hoje uma realidade inabalável que as próprias neurociências têm vindo a confirmar de forma objetiva"
"De novo, a PHDA pode em muitos casos ser encarada como mais uma das múltiplas consequências da sociedade do excesso, onde a criança rei ou troféu, e estrutura omnipotente utilizada para exibir ou ser exibida pelos seus dotes, autocentrada e com frágil capacidade de olhar por si, tanto quanto pelo outro (medindo o impacto dos seus atos em terceiros), se ergue como padrão comum, insuflada sem concentração ou crítica das famílias, das escolas e das sociedades onde atualmente cresce"
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«É da natureza humana (ou deveria sê-lo) procurar um modelo de vida singular, que busca um determinado propósito, mesmo que variável ao longo do tempo. Tal facto engloba por si só a existência de confronto e conflito perpétuos: o homem tem por definição a procura de uma utópica harmonia, da construção de um ponto de equilíbrio transitório que se reorganiza antes e depois do caos, como o movimento de uma dança ou a melodia de certa música.»
Um ótimo ensaio sobre aquilo a que se propõe! Bem elaborado, revisita as raízes individuais, familiares e culturais do problema, dando um ótimo insight do que é a PHDA e o seu "rótulo".