Talvez essa resenha eu fale coisa que não devia, mas vamo que vamo.
Se a galera do Pulp Fiction estivesse hoje, bem provavelmente seria um bando de incel que escreve muito bem. Vamos à obra!
Esse é o tipo de coisa que moldou muito do que foi o século XX. Homens musculosos, de poucas palavras, em que cada gesto é um gesto de virilidade e força e que o simples é olhar é suficiente para derreter a mais dura das mulheres. São heroicos, preferindo agir ao invés de pensar, não ligando para "frescuras' e luxos. Enquanto isso isso, as mulheres, mesmo as em posição de poder maior que do homem, são fracas, submissas, facilmente manipuláveis ou manipuladoras. A todo momento adjetivos como "cobra", "ensandecida" e palavras do tipo descrevem um espírito volátil e impossível de entender, já que os homens são simples e brutos.
Eu me pego pensando quanto Robert E. Howard via ele mesmo em Conan. Pode ser também que Robert mostrava nele uma sátira, mas acho difícil, conheço quase nada do autor, se alguém souber me diga. Conan é indestrutível, enfrentando com a pele o aço e fazendo até mesmo de uma faca uma arma de distribuição em massa. Schwarzenegger, Stallone, Van Dame e todos os brucutus que crescemos assistindo só existem porque existiu Conan. E sua influência não deve ter parado por aí. Essa ideia de alfa man tão perpetuada por influencers, coachs e toda essa galera fã de heróis de ação e Peaky Blinders, do "bom era antigamente", "geração mimimi", todo esse povo recorre a figura mítica de um gigante musculoso com uma tanga, longos cabelos, que seduz mulheres simplesmente puxando-as para perto. Visto tudo isso, agora vamos aos motivo de eu gostar tanto.
Rapaz, como é bem escrito. Todas as descrições são primorosas. O que falta de descrição em Lovecraft (contemporâneo), eu encontrei aqui. Muitas vezes criaturas que provavelmente foram influenciadas pelos "Mythos" ou de fontes parecidas (civilizações antigas e civilizações colonizadas por europeus) são tratadas de forma tão magistral que eu me peguei pensando no que seria um Chamado de Cthulhu ou Nas montanhas da loucura na mão do Howard. Quando você suspende sua descrença, um universo inteiro se abre diante da sua mente. E quanto mais se fala desse universo, mais se quer saber sobre.
Essa história só poderia ter sido escrita tão bem, na época que foi. Finalzinho da hegemonia europeia pelo mundo com suas colônias e expansionismo. Todos os povos não europeus eram bárbaros, estranhos, exóticos, mágicos e difíceis de compreender. Várias vezes, depois de muito descrever vilões, Howard apenas fala que "o negro" fez tal coisa, pois naquela época, isso já era suficiente para incomodar europeus e seus filhos preferidos, os norte-americanos. Conan viaja para um passado mítico e longínquo em que esse homem grande, branco e rústico era a última reserva de moralidade em um mundo em chamas. Me pergunto quantos dos incels, no fundo de suas almas, não se enxergam assim, cavalgando por tundras e desertos, levando sua espada e seu pênis enrijecido para os quatro cantos do planeta. Sem impedimentos, o mundo inteiro como um grande parque de diversões para homens que não cresceram.
Vale demais a leitura! E não to sendo irônico. Uma das melhores coisas que já li em questão de fantasia.