"(...) Muana Puó uma estória de amor num fundo de luta. Era ainda em abstracto, eu nunca tinha visto guerra na minha vida, por isso arranjei a simbologia com a máscara. Vi a fotografia de um cartaz para um espectáculo da Miriam Makeba, com a Muana Puó... e fiquei fascinado. Foi amor à primeira vista. Fechei-me uma semana no quarto, todo branco, com o cartaz à frente e comecei a escrever sem saber o que ia escrever. (...)"
A metáfora começa na máscara e estende-se pelos morcegos, corvos e mel. No início, pensei que falava da guerra colonial, depois percebi que pode ser qualquer guerra. Amor em tempos de guerra, suficientemente abrangente para qualquer pessoa se poder rever, poder usar a clandestinidade da máscara. Para quem quiser ler a história da civilização contada por um mestre, com aquele toque africano.
Pepetela é dos escritores que ultimamente mais me tem surpreendido pela positiva. Os seus livros mais recentes são muito bons e as suas obras mais antigas são surpreendentes. Cada vez o acho mais versátil na forma como escreve, sem medo de evoluir. Muana Puó é o seu primeiro livro e é diferente de todos os que já li dele. É uma obra cheia de metáforas, onde Pepetela conta uma história de amor, uma história de sonhos realizados e esquecidos. Uma história inquieta, de luta pelos sonhos, de luta por uma vida digna e pela felicidade. A realização de uma utopia, que nas palavras de Pepetela parece ao alcance de qualquer ser humano.
Muana Puó relata a dura subida ao topo da montanha, levada a cabo pelos morcegos, e a conquista de um lugar que, desde o início dos tempos, era pertença dos corvos. Nesta parábola, os morcegos produzem o mel que os corvos consomem e, alimentam-se dos excrementos dos mesmos. Dos corvos apenas é esperado que grasnem, e isto apenas se eles o quiserem. Numa relação que pouco ou nada tem de simbiótica, os morcegos oprimidos pela soberba dos corvos, revoltam-se e iniciam uma luta pelo direito de verem o mundo aos seus pés, do topo da montanha. Paralelamente a esta luta entre oprimidos e opressores, Pepetela relata a história de amor de dois jovens morcegos que participam na subida à montanha, na caminhada que mudará o mundo. Ao mesmo tempo que tentam lidar com os sentimentos confusos que os assaltam, tentam encontrar o seu lugar no mundo, mesmo que isso signifique cada um seguir o seu próprio caminho.
Muana Puó é um livro que se lê num piscar de olhos, não só por ser pequeno, mas principalmente porque a história, quase um conto, não convida a interrupções. Tem um ritmo muito próprio e que custa a quebrar quando se tem de deixar o livro de lado. Está escrito numa linguagem muito africana e com momentos de verdadeira beleza literária, a fazer lembrar um pouco Mia Couto, não tanto na reinvenção da língua, típica deste escritor, mas na atmosfera de sonho que consegue criar com as palavras.
Gostei e recomendo, não só por ser do Pepetela, mas porque é um livro que continua tão actual como no ano em que Pepetela o escreveu, em 1969. Uma obra intemporal de um escritor que não pára de me surpreender. Vale mesmo a pena reservar umas horinhas para leitura deste livro!
Маска Муана Пуо використовується в обряді ініціації і ніби втілює в собі предків. Ця коротка поема в прозі, назвімо її так, розповідає про боротьбу кажанів і круків за мед – це алегорія на тубільців і колонізаторів. Зрештою кажани перемагають і перетворюються на людей. Двоє з них, впізнаючи одне одного з часів свого кажанячого життя, колихають свої лямури-тужури.
É fascinante como uma simples máscara tchoukuê pode servir de metáfora para uma história de amor e liberdade. Pepetela nos leva pela mão por um mundo onírico de morcegos que se transformam em seres humanos cujo destino poderia ser o nosso.