4,5⭐️
“o oculto é como um poema- chega a qualquer momento.”
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Que livro incrível e rodeado de uma riqueza indescritível. As páginas fluem de uma maneira arrebatadora e, quando damos por nós, já estamos em Luanda, rodeados das personagens mais diversas e interessantes. 😊
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“era um prédio , talvez um mundo ,
para haver um mundo basta haver pessoas e emoções. as emoções , chovendo internamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos. as pessoas talvez não sejam mais do que sonhos ambulantes de emoções derretidas no sangue contido pelas peles dos nossos corpos tão humanos . a esse mundo pode chamar-se “vida” ❤
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Através de uma escrita invulgar, que roça a gíria e o vocabulário tipicamente angolano, Ondjaki carrega uma poesia nas suas palavras, de tal maneira que nos sentimos transportados num vão de humanidade e, também, de humor satírico. É possível sentir a corrupção na capital angolana, a miséria, o amor e o espírito de comunidade das pessoas do prédio do bairro, com as suas águas ao nível do chão e os seus dilemas pessoais. Apetece-nos embalar as personagens e, por isso, rimo-nos, choramos , acometemo-nos do ridículo que é a vida delas.
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A transparência não é mais do que uma metáfora bela acerca da dor e da humanidade , um retrato das disparidades da sociedade angolana. Ondjaki, com este livro tão belo, consegue levar-nos a querer ler outros livros do mesmo molde 😊 Só quero voltar àquele prédio, ao corpo transparente de Odonato, ao Cego, ao Vendedor de Conchas, às mulheres belas e aos políticos corruptos.
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“(...) e as dores de dentro , de uma pessoa ver que na crueldade dos dias , se não tem dinheiro , não tem como comer ou levar um filho ao hospital...e os dedos começaram a ficar transparentes... e as veias, e as mãos , os pés , os joelhos ... mas a fome foi passando : foi assim que comecei a aceitar as minhas transparências... deixei de ter fome e me sinto cada vez mais leve...”"