Os Padres do Deserto, familiarizados com a fragilidade da vida humana, que haviam experimentado no próprio corpo, encontraram para si uma maneira própria de lidar com isso, buscando um sentido para sua existência. Enfrentando a dureza da vida no deserto, eles procuravam encontrar paz interior. Com isso, se tornaram exemplos para muitos até hoje. A presente obra traz cinquenta e duas sabedorias que, embora escritas há mais de um milênio e meio, falam diretamente ao nosso coração. Comprovadas e próximas à vida, são sabedorias antiquíssimas, interpretadas magistralmente para os dias atuais por Anselm Grün.
Anselm Grün terminated his school years in 1964 with the A-level equivalent Abitur at the grammar school in Würzburg, Germany. In the same year he began as a novice at the nearby Benedictine Münsterschwarzach Abbey. From 1965 to 1971 he studied philosophy and theology at St. Ottilien Archabbey and in Rome. In 1974 he completed his PhD in theology on Karl Rahner. From 1974 to 1976 Anselm Grün studied Business in Nuremberg. Then he became the Cellerar of Münsterschwarzach Abbey and is thus responsible for the economic administration of the abbey with its over 280 employees and 20 businesses.
Infelizmente, ao longo dos anos, o autor acabou se mostrando uma figura rebelde e de opiniões vulgares, como muito bem já pontuou o sacerdote jesuíta uruguaio Horacio Bojorge, mas o meu interesse era sobretudo em conhecer o seu antigo estudo dos Padres do Deserto, que, aliás, virou uma máquina de livros para todos os gostos.
A estrutura deste livro em particular é verdadeiramente inspiradora e eu leria de bom grado outros livros que a imitassem: 52 breves ditos (melhor “ditos”, “apotegmas” do que as “histórias” do título) de sabedoria dos Padres do Deserto, com comentários. Ideal, mais do que para leitura, para *meditação*, no sentido cristão do termo.
Os comentários do autor aos ditos são bastante sucintos, mas mesmo assim vão além das generalidades e não resultam exatamente superficiais (defeito insuperável, por exemplo, no bem-intencionado *Meu ponto de meditação*, do Pe. Ascânio Brandão). Grün tende a oferecer imagens da vida dos monges do deserto em que os seus ditos se contextualizam e aplica suas reflexões à realidade dos leitores não monges do século XXI.
Só falta uma coisa a esses comentários, o que os compromete irremediavelmente: uma noção verdadeiramente ascética. Fala-se muito na humildade de se reconhecer pecador, de voltar-se para as profundezas da alma onde as paixões não a distraem dos princípios da vida cristã, de viver conforme o verdadeiro eu e agradar a Deus, mas essas coisas adquirem uma linguagem psicológica, pouco moral e nada espiritual: não se fala em vida de piedade, nem na educação das faculdades interiores para a aquisição de virtudes, nem mesmo em uma vida de devoção religiosa em medida razoável, quanto mais em santificação (o que os Padres do Deserto foram mesmo fazer no deserto?) e, o mais grave, a noção de “salvação” da alma chega a ser obliterada (ver a seguir).
Um exemplo é a história de número 13 (Poimen 119, Apo 693): Abbas Poimen fala que a contrição é o caminho para a expiação dos pecados (como nas Bem-aventuranças) e para a aquisição de virtudes. Mas o comentário de Grün fala de pecados que nos devolvem à humildade e de virtudes como dons de Deus, não fala em movimento de expiação, nem de santificação, nem mesmo de crescimento propriamente da caridade — por isso digo: não fala, em suma, de ascese de verdade, mas sempre de uma humilde conformação algo estática do que é inevitável no interior humano decaído.
Ou na história de número 14 (Arsenius 11, Apo 49), quando o Pai Arsênio incentiva um monge a comer, beber e dormir e não trabalhar, como este próprio julgava ser a sua condição no momento, mas jamais sair do seu *kellion* (“cela”), e Grün afirma que “não há necessidade de ele praticar nenhuma ascese em sua cela”. Ora, a ideia, bem explicada na própria história, é justamente que o *kellion* será a fonte de equilíbrio do monge, para discernir entre as suas possibilidades reais e não se deixar levar por insinuações demoníacas que o desviem. Isso não é abrir mão da ascese, mas reforçar aquilo que fundamentará essa ascese verdadeiramente: talvez tal monge pudesse jejuar e trabalhar, talvez não, mas, para descobrir, precisaria se recolher em seu *kellion*, onde sua ascese já tem início.
E um último exemplo, a história de número 26 (N 143), em que o antigo Padre responde à pergunta sobre como “ser salvo” comparando a vida do monge à de um lutador, mas Grün afirma logo de início, sem ressalvas, que essa salvação não se refere à “salvação da alma”, e sim à autoaceitação de uma vida saudável (!). A esta altura, qual não é a surpresa em encontrar, no glossário em apêndice final, uma definição psicologizante e alegórica para termos como “Demônios” e “Metania” (*Metánoia*)?
E é assim, em suma, que o verdadeiro desafio das histórias dos Padres do Deserto, de salvação por uma ascese de fé em um progresso na intimidade com Deus, fica achatada e de fato vulgarizada, como já alertou o Pe. Horacio Bojorge, por opiniões *New Age* e de livros de autoajuda, porque o autor acha possível e confortável (talvez, hoje em dia, para se conciliar com a tal “modernidade”, deslumbramento constrangedor e ainda tão comum no meio religioso católico) em não dar os passos espirituais a que essas histórias convidam tão radicalmente.
Reflexões muito boas baseadas na sabedoria de monges que viveram isolados séculos atrás. Pensamentos sobre perdão, misericórdia e disciplina fazem parte deste livro.