Todos os anos, por altura da Quaresma, o Papa e a Cúria romana reúnem-se para uma semana de exercícios espirituais. É um tempo de reflexão profunda sobre a vida e o mundo, o presente e o futuro. Para dirigir a reflexão deste ano, o Papa Francisco escolheu pela primeira vez um português, José Tolentino Mendonça.
Estes são os textos que serviram de guião às reflexões conduzidas pelo poeta, teólogo e sacerdote português junto do Papa Francisco e dos cardeais da cúria romana sob o tema Elogio da Sede. Um livro decisivo que guia as reflexões da Igreja sobre o mundo. Um documento de rara beleza e originalidade.
JOSÉ TOLENTINO de MENDONÇA nasceu no Machico, a 15 de Dezembro de 1965. Licenciou-se em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, com uma tese sobre a poesia de Ruy Belo. Concluiu a Licenciatura Canónica em Estudos Bíblicos no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. Foi ordenado padre em 1990. É, desde 1990, capelão e professor na Universidade Católica de Lisboa. Viveu e estudou em Roma, onde preparou a sua tese de doutoramento em Teologia. Além de poeta, é também ensaísta e tradutor. Foi condecorado, pela Presidência da República, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, em 2001.
José Tolentino de Mendonça, como muitos poetas da geração dos anos 80/90, retoma uma certa tradição lírica portuguesa. Lirismo todavia assaz particular, delicado, envolto em recato.
"O que nos salva não é uma negociação, o que nos salva é um excesso de amor." Como católica pouco praticante, as palavras do sacerdote poderiam ter feito ricochete dentro de mim, mas, em vez disso, plantaram uma semente de esperança numa nova Igreja. Rendo-me, enfim, a esta sabedoria tranquila que vem do fundo dos tempos e a este catequismo do bem, a esta sede do absoluto que comungamos.
Atrevo-me a dizer que Tolentino Mendonça é uma das minhas apostas para futuro Papa. Não sendo católico, prefiro que o líder dessa religião seja alguém culto, que ame a literatura e a cultura e não somente a religião, que seja progressista, que se preocupe com a nossa «casa comum», que convoque a Igreja a sair da mumificação a que se entrega tantas vezes e a agir. Alguém, portanto, como o Papa Francisco, ou melhor ainda. Este livro fala-nos da sede de deus, da sede que os fiéis sentem pela transcendência e pelo transcendente. Todos nós já nos deparámos com isso alguma vez: diante de uma paisagem arrebatadora, a ouvir Bach, a ler Saint-Exupéry, a ver um filme de Béla Tarr, ao entrar em Nôtre Dame ou a olhar um quadro de Leonardo da Vinci. Experiências pessoais, é certo, mas que comungam com tantas outras, religiosas ou não. Também nós temos a sede dessas experiências, e Tolentino sabe disso. Li-o portanto como não-crente, e ainda assim desfrutei muitíssimo da leitura. Por tudo aquilo que escreve, por ser uma voz progressista no seio do catolicismo e pela sua sensibilidade. As referências que faz a Milan Kundera, Saint-Exupéry ou Santo Agostinho são muito significativas e mostram que, tenhamos ou não uma fé, sejamos ou não confessionais, todos procuramos o sublime. Todos temos sede de algo que nos encha a alma (ou a mente, vá).
Algo mais espiritual, foi o que procurei ao escolher uma obra de José Tolentino de Mendonça, o padre madeirense apontado por alguns como um possível futuro papa. Não sabemos se tal poderá vir ou não a acontecer, mas é de facto alguém que pertence a uma nova vaga da Igreja, em consonância com o Papa Francisco, que tende a aproximar esta instituição à realidade dos nossos dias. Já tinha visto algumas entrevistas suas das quais gostei particularmente, porém nunca tinha lido nada seu, ainda que a vontade já existisse há algum tempo.
Por altura da Quaresma, a Cúria Romana promove a a realização de exercícios espirituais com o mote de refletir sobre a vida e o mundo, o presente e o futuro. O elogio da sede é uma compilação de reflexões, do ano em que estes exercícios foram dirigidos por José Tolentino Mendonça, por escolha de Sua Santidade, tendo estes textos servido de guião.
Mais um do melhor dos Portugueses. Todos os anos o Papa escolhe alguém para elaborar os textos que servirão de base aos exercícios espirituais do Papa e da Curia Romana. Em 2028 esse privilégio coube ao D. José Tolentino Mendonça. Este livro, com prefácio do Papa Francisco, apresenta o citado documento. ~ A propósito da Parábola do Filho Pródigo "Precisamos certamente dos "nãos" e crescemos com eles, mas precisamos do "sim" para tocar o mistério da própria vida. E isso é a misericórdia: é dizer um "sim" quando a única expectativa seria a de ouvir um "não" para o resto da vida. O pai dá ao filho este "sim" inesperado."
"Jesus pede: «dá-me de beber». A sua sede não se materializa na água, porque não é de água a sua sede. É uma sede maior. É a sede de tocar as nossas sedes, de contactar os nossos desertos, com as nossas feridas. É a sede dessa parte significativa de nós mesmos que fica tão frequentemente adiada, abandonada à solidão. É a sede dessa porção de nós (porção suspensa, omitida, calada) para a qual não encontramos interlocutor." José Tolentino Mendonça - "Elogio da Sede" (1. Aprendizes do espanto: Veio procurar-nos)
Neste livro são mencionados crentes e não crentes: Andrea Riccardi, Andrei Tarkovsky, Andrès Filipe Solano, Angelus Silesius, Antoine de Saint-Exupéry, Bento XVI (Papa), Bernard Lonergan, Bernardete Soubirous, Cassiano (São João), Cervantes, Clarice Lispector, Dietrich Bonhoeffer, Dorothy Day, E.M. Cioran, Eduardo Galeano, Elmar Salmann, Emily Dickinson, Etty Hillesum, Eugène Ionesco, Evágrio de Pontico, Fernando Pessoa, Papa Francisco, François Libermann, Françoise Dolto, Gandhi, Gregório de Nazianzo, Gustavo Gutiérrez, Hans Urs von Balthasar, Hegel, D. Hélder Câmara, Henri de Lubac, Hugo Rahner, Jean Vanier, João Paulo II (Papa, São), John Henry Newman, Jorge Luís Borges, Julia Kristeva, Júlio César, Massimo Recalcati, Madre Teresa de Calcutá, Melanie Klein, Mestre Eckhart, Milan Kundera, Orígenes, Pascal, Philip Jenkins, Platão, Primo Levi, Roland Barthes, Romano Guardini, Santa Teresa de Jesus, Santo Agostinho, Santo António Abade, Santo Inácio de Loyola, São Bernardo, São Francisco de Assis, São João de Crisóstomo, São João da Cruz, São Tomás de Aquino, Schlegel, Simone Weil, Søren Kierkegaard, Thomas Merton, Tolstói.
O livro que me acompanhou este Natal e uma das reflexões mais bonitas que já li sobre a fé, esse encontro entre a sede de Jesus e a minha. O capítulo 4, com Jonas, "um ser sem desejo" e o seu diálogo de surdos com Deus, foi um murro que me deixou KO. Tenho muito caminho para andar. Na secura de tantas coisas, estou tão longe ainda do "só Deus basta".
"A fé não resolve a nossa sede. Muitas vezes intensifica-a, destapa-a e, em algumas circunstâncias, torna-a até mais dramática. Mas a fé ajuda-nos a ver na sede uma forma de caminho e de oração".
"Junto ao poço de Jacob, o desejo de beber por parte de Jesus signifcava já o desejo de dar de beber da água viva".
A fé é um exercício muito concreto de confiança na narrativa de Deus que Jesus nos relata com a sua própria vida (...)"
É um livro sobre religião, mas vai além. José Tolentino Mendonça descreve essa sede particular com muita sensibilidade, estendendo pontes para outras áreas, como a psicanálise e a literatura.
Tolentino representa o sublime exemplo da mais chamativa e renovada Igreja que o Papa Francisco tem procurado avigorar desde os primórdios do seu papado. Uma igreja que seja o albergue dos crentes e não crentes, lavradora de princípios que não mais sobejam como a humildade e a frugalidade, o verdadeiro refúgio para a salvação do mundo, como tanto profetizam as sagradas escrituras. Verdadeiramente, transformar a Igreja um espaço melhor sugere a mudança positiva num caráter global. E a mudança começa no espírito ativo e capaz das pessoas, preconizada por envolventes como Tolentino: ao contorno generoso, comedido, simples e humano colige-se a qualidade de esteta e de artista.
Por estes itinerários ter-se-á cruzado a escolha do sacerdote e poeta Tolentino Mendonça, por parte do Papa Francisco, para orientar uma semana de reflexões e exercícios espirituais, por altura da época Quaresmal, uma época do ano toda ela repleta de intensos simbolismos, reflexões e contemplações. Tradicionalmente, festividade que propõe o conceito de “jejum”, estendido para lá da fronteira física e orgânica, pois é sabido que nem só de pão vive o Homem. Sedentos eternamente, Tolentino convida-nos a saciar a sede na simplicidade, na comunhão dos nossos dias com aquilo que nos realiza. Um convite aberto a todos, para que com ou sem Deus, nos encontremos nele e nas nossas concretizações pessoais.
Motivados, talvez, divulguemos o jejum da época quaresmal como uma nova meta na nossa ocupação de ser homens e o concretizemos pelo repouso e reflexão, pelo esforço e sacrífico de traçarmos a nossa rota e a do mundo, de a aprimorar ou mudar.
“Impressionou-me muito ter lido que, quando Ghandi morreu, os bens materiais que deixou valiam menos de dois dólares. Voltei atrás para ver se me tinha enganado: menos de dois dólares. Os bens espirituais e civis que legou ao futuro tinham, porém, uma dimensão incalculável. Jesus também só deixou a túnica que trazia vestida no corpo. O que nos enfraquece não é, de facto, a escassez, mas a sobreabundância; não é a vulnerabilidade, mas o poder mal compreendido na sua finalidade; não é a frugalidade, mas sim o desperdício. O que nos enfraquece é não termos escutado até ao fim o apelo que está por detrás da fome e da sede” .
Cheguei a este livro pela indicação de Pedro Bial. Para além da religião, as reflexões deste livro falam diretamente com a angústia humana num momento de muitas distrações de nós para conosco. Tais quais os estudos psicanalíticos fazem em seu recorte acadêmico, o autor busca neste texto, por meio de um teologia católica, a dialética do viver real e da vida esperada, almejada, esperançada, mas negada muitas vezes diante de urgências mundanas. É bonito ler as investigações que ele faz sobre desejo, sobre a vontade do divino, sobre a compaixão, a misericórdia, a pacificação de nosso fracasso constante pois, falíveis que somos, jamais atingiremos o que os sistemas sociopolíticos nos ensinam a crer que conseguiríamos por mérito. Diante de nossa pequeneza, buscar a Deus, seja Ele em que forma for, independente do culto, é também aceitar o vazio que temos dentro, reconhecer nossa sede e expandi-la, cavá-la com o propósito de validá-la, já que para viver, além da curiosidade e do espanto diante da vida, é preciso a humildade de nos sabermos carentes de fé e, portanto, recolhidos à nossa - como o capitalismo tanto nos faz senti-la como uma ineficiência produtiva e descartável - insignificância, pois nela arde o divino em nós. Lindo livro
Ja tinha lido 3 livros do Cardeal Tolentino e achei-os razoáveis, nada de assombroso. Este está claramente acima . Um bom livro, para crentes e nao crentes. O livro tem muito mérito pela profundidade das reflexões, pela forma como explora a fé como a sede de Deus numa relacao recíproca. O Cardeal Tolentino tem o dom de ser capaz de encontrar faíscas do divino no profano. O ecletismo das referencias e citacoes que faz:teológicas, de santos, de artistas ou de pessoas comuns , no fundo de diferentes áreas da vida demonstram a sua sabedoria e a riqueza deste livro.
Um livro curto numa escrita luminosa para se ler devagar, saboreando cada parágrafo. O Elogio da Sede parte das reflexões propostas por José Tolentino Mendonça no retiro de Quaresma do Papa Francisco. Esta natureza sente-se no ritmo da escrita, um ritmo que nos convoca a beber cada ideia, apontando o caminho para saciar a sede. São significativos os contributos que Tolentino Mendonça foi buscar a pessoas fora da igreja, relembrando que a igreja (católica) deve abrir, escancarar as suas portas, ser aberta ao outro. Sinaliza, ainda, que a periferia é o lugar natural do cristão, devendo por isso a igreja ser feita de homens e mulheres em saída (no termo cunhado pelo Papa Francisco). É um livro luminoso para crentes e não crentes, dando-nos palavras de esperança, num tempo em que esta é tão necessária.
“Por vezes o que nos atropela é uma desconfiança, uma falta de amor em relação à nossa própria vida.”
Um caminho incrível pelos caminhos da fé nos dias de hoje, do nosso comportamento enquanto seres humanos e do quando andamos distraídos das coisas realmente importantes. A falta de vontade, motivação e de amor pela própria vida. O cansaço e o excesso de informação que nos arrebata constante. E o quanto os bens materiais nos afastam do essencial à vida.
Dos livros mais bonitos que já li, questionei-me várias vezes durante a leitura e procurei colocar-me em casa assunto falado. Temos todos muita sede de amor, só precisamos de aprender a satisfaze-la. Mas que ela nunca acabe.
Tolentino já me habituou à perplexidade. Subtilmente profundo, escrita cuidada contudo perfeitamente acessível. Coser um comentário ou aspeto negativo seria sempre desmedido e pouco aprofundado. É um encaixe, ininteligível.
Dou 5 estrelas porque não posso dar 6. Faz me ter ainda mais orgulho na pessoa que sou, enquanto membro da comunidade Católica e enquanto ser que abomina profundamente a dimensão superficial.
"Elogio da Sede" é um delicioso pensar e repensar sobre a sede indomável que temos da vida, do divino e de Jesus Cristo. O autor José Tolentino Mendonça trabalhou o texto em preparação à quaresma do Papa Francisco e outros cardeais. Maravilhoso, sensível, tocante. Recomenda-se ser lido homeopaticamente.
‘ Talvez saibamos ainda pouco sobre esse misterioso país que são as nossas lágrimas. Mesmo representando um evento não verbal, as lágrimas não deixam de ser uma linguagem, um grito firme ainda que silencioso, uma espécie de sede que se torna assim declarada, exposta.’
"Fala-se muito contra o consumismo dos centros comerciais, mas não podemos esquecer que há também um consumismo na vida espiritual. E que o que se diz sobre um, ajuda-nos a compreender o outro.
De facto, as nossas sociedades que impõem o consumo como padrão de felicidade transformam o desejo numa armadilha. O desejo tem a dimensão de uma montra e promete uma satisfação imediata e plena que evidentemente não pode cumprir. Vemos um objeto iluminado numa vitrine e, nesse momento, ele parece-nos conter o brilho do astro distante pelo qual ansiamos. É mesmo aquele, pensamos, enquanto avançamos para a fila da caixa registadora embevecidos com aquele ato de satisfação simbólica. Mas uma vez comprado, o objeto não parece o mesmo, perdeu alguma coisa que tínhamos por irresistível, já não tem a consistência da promessa, como se a posse implicasse uma desvalorização. E com isso cresce em nós um vazio que nos faz voltar ao ponto de partida, uma vez e outra e outra. A desilusão atira-nos para o circuito insone do consumo, onde o nosso desejo adoecido se torna o desejo de nada, a pura metonímia da nossa carência. O objeto do nosso desejo é um ente ausente, um objeto sempre em falta. Obsidiados pelo transe comercial desejamos tanto que já não somos capazes de desejar. Porém, o Senhor não cessa de nos dizer: "O que tem sede aproxime-se; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida.""
Uma escrita de evangelização e com Deus em pano de fundo, mas que cruza muitos autores e que encerra uma mensagem muito inspiradora para o nosso desenvolvimento emocional ou espiritual.
Notas que retive do livro: Esperamos sempre beber dos outros, mas e se formos nós a matar a sede de alguém? Jesus, cujas ideias dava a beber, chega à beira do poço e pede à Samaratina: "dá-me de beber", num exercício de empatia pelo outro, de humildade, de querer ouvir o que o outro tem para nos oferecer. Uma sede pelo outro que contrasta com o individualismo em que vivemos e no egocentrismo de querermos em primeiro lugar que nos matem a sede, que se satisfaçam os nossos desejos, em vez de pensarmos em que água podemos ser para os outros. Vivemos numa era de sede espiritual, uma insatisfação permanente.
Contactar com a nossa sede não é fácil, quanto mais seco está um terreno, mais difícil e complexa é a penetração da água para irrigar a terra e fazer germinar a vida da semente. Temos várias sedes, temos necessidades físicas e espirituais e é nesse desejo de saciar que podemos amadurecer a nossa vida e criar uma atitude de misericórdia, ou de empatia pelos outros.
Verso da oração da sede Que esta sede se torne o mapa e a viagem
Excelente meditación de cuaresma de la pluma del Obispo Tolentino Mendonça, quien otorgara el retiro para el Papa y los obispos. Nuestra sed por Dios y la sed de Dios por noostros vista a través de la Biblia, y de textos contemporáneos como Clarice Lispector, Eduardo Galeano, Antoine de Saint Exupery, o las palabras del mismo Papa Francisco.
Como anhela la cierva las corrientes de las aguas, así te anhela mi alma, ¡oh Dios! Mi alma está sedienta de Dios, del Dios vivo: ¿Cuándo iré y veré la faz de Dios? (Sal 42, 2-3)
¿Y tu, tienes sed? Vivimos en una sociedad que busca experiencias, que quiere viajar a Tailandia para hacer fotos con elefantes… pero que en realidad tiene un gran problema con el deseo, no sabemos encontrarlo y cuando lo encontramos no sabemos cómo habitarlo. Jose Tolentino, en su Elogio a la sed nos acompaña en este camino.